domingo, 30 de dezembro de 2007

Uma leitura do cotidiano




UTOPIA

Composição: Pe. Zezinho

Das muitas coisas
Do meu tempo de criança
Guardo vivo na lembrança
O aconchego de meu lar
No fim da tarde
Quando tudo se aquietava
A família se ajuntava
Lá no alpendre a conversar

Meus pais não tinham
Nem escola e nem dinheiro
Todo dia o ano inteiro
Trabalhavam sem parar
Faltava tudo
Mas a gente nem ligava
O importante não faltava
Seu sorriso, seu olhar

Eu tantas vezes
Vi meu pai chegar cansado
Mas aquilo era sagrado
Um por um ele afagava
E perguntava
Quem fizera estrepolia
E mamãe nos defendia
E tudo aos poucos se ajeitava

O sol se punha
A viola alguém trazia
Todo mundo então queria
Ver papai cantar pra gente
Desafinado
Meio rouco e voz cansada
Ele cantava mil toadas
Seu olhar no sol poente

O tempo passa
E eu vejo a maravilha
De se ter uma família
Enquanto muitos não a tem
Agora falam
Do desquite, do divórcio
O amor virou consórcio
Compromisso de ninguém

Há tantos filhos
Que bem mais do que um palácio
Gostariam de um abraço
E do carinho de seus pais
Se os pais se amassem
O divórcio não viria
Chame a isso de utopia
Eu a isso chamo paz.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

conjugações .



A maior experiência que um homem pode viver é aquela que ele tocou com o coração. Não existe fração certa, nem conta errada - o que existe são verdades que não povoam todos os corações, igualitariamente. Tenho aprendido na provação dos acontecimentos. São curvas que me calam, chão que me abusa, terra molhada de chuva que me assedia. A vida e suas cores, eu e o meu descolir diário. Aprendi ao longo da minha vida que a simplicidade é a expressão mais aprimorada da beleza. Não preciso de representação para que o outro me ame, a essência por si, basta e cala.

Deparo-me com dores maiores. Mergulho no coração das mães de Pietá, envoltas de solidão e sangue, ancorando o último suspiro do filho morto. Recolher o filho do chão, aconchegá-lo ao colo e despedir-se dele definitivamente. A crueza da cena é uma proposta ao silêncio. Arranca-me do mundo das palavras, das respostas prontas e faz-me sentar ao chão, ao lado da mãe, para que eu possa ouvir sua respiraçao ofegante de dor. Arranca-me dos meus livros, da minha ciências humanas sistematizada e convida-me a sujar-me na terra do calvário, onde o sangue do filho mistura-se às lágrimas da mãe.

Enquanto as luzes desse tempo brilham em suas mais diversas cores, a vida grita sobrevivência no peito da mulher e nas mãos calejadas do lavrador. Não nasci político para revolucionar a terra com justiça, mas nasci humano para desconsertar o mundo com amor.

O tempo escorre, a flor cumpre o ritual de se mostrar com suas belezas envoltas de magia, a humanidade segue, os vulcões explodem, as águas inundam, e o território para o verbo "amar" ser conjugado aumenta. Sou humano demais para compreender.

O meu sofrimento perde a sua força quando eu o coloco ao lado dessa mulher, mulher de Pietá. E nisso já está a ressurreição do seu filho. Esta dor nos ensina e nos coloca no rumo da sabedoria.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Garimpeiro



A manhã está pronta para iluminar as mãos do pequeno garimpeiro - mãos quentes que despertam com os primeiros raios de sol. Ainda é madruga e existe uma estrela a ensaiar sua dança de despedida na imensidão da infinitude azul. A estrela dorme para o garimpeiro sonhar. Enquanto o corpo com seu jingado de trabalho árduo, sob o sol quente do dia, cumpre o ritual de garantir a sobrevivência, a alma desprende-se do pequeno cárcere marcado pelas rugas do tempo, e no vôo da imaginação, lança fora toda incapacidade de permanecer para sempre, ali. O suor do homem se mistura ao doce do rio, pequenos instantes que os fazem UM na missão de tirar da areia bruta da vida, os pequenos diamantes com esplendor de vida. Enquanto o garimpeiro lança fora todo matéria bruta da vida, aos poucos vai esfolando sua própria história, se enraizando à beira do mesmo rio, e ali, deixando o brilho do maior tesouro reluzir em seus olhos cansados, mas ancorados de pura e terna essência. Porque a vida é assim, lugar de garimpar o que é essencial - retirando todo excesso de superficialidade que existe no excesso dos brilhos, estes que não permitem ao homem enxergar o que a força da vida exerce. Já é tarde, o sol dá lugar às sombras da noite - serão elas que darão paz ao ofício de viver. O seu cotidiano é a matéria-prima do seu poema. Não me entusiasmo. Apenas o observo em seu sabor de silêncio - já é noite, e o que ele possui é apenas uma vela acesa no canto da casa, em louvor a Iemanjá.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Lição de casa .




Hoje a dor não localizada resolveu me visitar. Ancorar nas veias, arder no peito e me levar a escolher o silêncio como a única canção capaz de me acompanhar nesta solidão. Janela fechada, chuva caindo e a vida seguindo seu destino em mim.
Vivi uma semana muito corrida; estágios, monografia para concluir e a saudade para parir. Talvez essa dor, seja por ser o primeiro dia em que oficialmente eu acordei professor. Ontem na faculdade, eu não quis me despedir - dói tanto despedir daqueles que jamais morrerão em mim - aqueles que eu aprendi a amar. E aí, eu paro e procuro respostas no silêncio que grita, promulgando essa inquietude e ardência no peito. Mais que a profissão, eu trago o aprendizado que não aprendi em livros e nem em sala de aula, mas no convívio com alguns amigos. Ensinamentos que me fizeram ser mais gente. Ensinamentos que me educaram, me podaram, raspando as feridas da minha alma e me fazendo melhor. Sabe, eu não sei se eu estou melhor - seria pretensão da minha parte dizer que "estou" melhor. Não, não... mas posso te assegurar que estou mais humano. Eu havia pensado que já tinha o marco da faculdade como sabedoria, mas não - eu me convenci do contrário quando entreguei um livro ( que eu sou co-autor ) pra uma grande professora e amiga, e ela chorou quando o recebeu - metafóricamente, eu cai por terra quando me deparei com essa cena. Eu me senti amado - de uma forma diferente, nem o português, nem a literatura me proporcionou sabedoria maior. ( . . . ) Sabedoria que é tecida na carne das relações, no cheiro, no convívio, no toque, no incentivo. Um dia ela soube me cativar, e a dar uma novo sentido em minha vida, por meio do incentivo. Deu certo, aquela hora eu não entregava apenas o livro, mas o homem novo que ela ajudou a refazer.
O curso não terminou em mim. Ele continua ressoando. E enquanto eu viver, quero a graça de me recordar daquele acontecimento. Eu que pensei que já levara comigo as causas de meus louvores, de repente, ali, fui surpreendido pela voz de Deus nas lágrimas silenciosos da Ana. Não, não havia som naquele gesto. O que havia era o grito da vida sussurrado no meio do grito da minha.
Queria ter tido a força de olhar nos olhos dela e dizer: Professora, você salvou a minha vida!Eu te amo.
Janela fechada, chuva caindo e o amor, personificado em Ana se revelando a mim.

Porque é assim: quando o outro vai embora é que a gente descobre o tamanho do espaço que ele ocupava em nós.


"Salvar a vida de alguém é um jeito bonito que a gente tem de salvar a vida da
gente".

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Esquinas.


Todo processo de dor é sempre um processo de gestação do amor, e você sabe disso porque já experimentou na sua carne, as realidades que podemos experimentar o amor mais puro dentro de nos é quando experimentamos a dor, por isso só podemos acreditar no amor do outro a partir do momento que ele e capaz de sofrer com a gente, quando você descobre que é tão especial na vida do outro que ele seria capaz de dar boa parte da vida dele pra estar com você, o verdadeiro amor nasce no processo da dor do sofrimento, nós não estamos dizendo que o amor é condição da dor, podemos amar na alegria, na tranqüilidade, mas o amor é privilegiado no momento da dor, ficamos mais verdadeiros, deixamos de dar atenção aquilo que é supérfluo, temos uma visão privilegiada, centramos no que é essencial, e olhar o essencial é um desafio nos dias de hoje, corremos o risco de passar despercebidos e uma realidade ela é feita daquilo que é essencial e acidental, o essencial de uma cadeira é a madeira, a consistência da madeira, o formato poderia ser diferente, na vida a mesma coisa, lidamos com realidades essenciais e acidentais, você enfrentou hoje uma grande realidade, e o problema é que nem sempre descobrimos o que é essencial na nossa vida e no dia de hoje, a nossa felicidade esta associada a nossa capacidade de dividir o que é essencial do acidental, digamos que você tinha um filho doente, você precisava cuidar dele e fazer compra, ai você descobre o que é essencial e o que é acidental, essencial é aquele que atinge nosso coração, nos devolve a nos mesmos cuidar do outro é uma experiência bonita de devolução de nos mesmos, porque quando cuidamos do outro extraímos um amor que não é comum, que vem de dentro de nos mesmos, profundo...


Hoje você viveu realidades essenciais e acidentais e você escolheu entre elas e eu desejo que você tenha sido capaz de descobrir aquilo que foi essencial pra você, que você não tenha perdido tanto tempo naquilo que é acidental, e se perdeu não tem problema, você tem seu dia a partir de agora, uma serie de coisas que você perdoe escolher e que são essenciais pra você, acorde tentando buscar aquilo que lhe é essencial, pedindo que você tenha condições de identificar, uma pessoa que passa por dificuldades, ela não se prende mais em coisas acidentais, ela quer estar perto de quem ela ama, próxima daquilo que lhe dá prazer e amor na vida, vai querer estar com aqueles que lhe foram importantes, e muitas vezes no momento que estamos bem não temos a sensibilidade de perceber o essencial, acabamos desperdiçando nosso tempo com aquele que não merecia, o que preenche nosso coração de verdade é aquilo que é essencial, aquilo que se tirarem de nos, deixamos de ser nós mesmos, pessoas, valores, situações, é como passar um período de viagem e depois voltar pra casa, pode ser o melhor hotel do mundo, mas não é sua casa, porque o hotel é acidental, e a sua casa é a sua identificação, onde tem seu cheiro, seu sabor, no momento da dor, da ausência, damos valor aquela rotina toda que muitas vezes não valorizamos, nosso coração é fiel, ele nos faz retornar aquilo que ama que é essencial, basta que você viva a ausência e a separação, e isso chamamos de dor, dor é tudo aquilo que nos indica que algo esta errado, pra que possamos colocar nossa atenção no essencial e que não podemos mais continuar acidentalmente.


Fábio de Melo

sábado, 17 de novembro de 2007

Visita




Ele esteve aqui.

Chegou quando o sol ainda dormia e me confidenciou algumas alegrias na ordem da minha vida. Sua beleza é tão intensa que resolvi não discordar.

Seu jeito suave fora tão convincente que prefiri ouvi-lo sem interrompê-lo.

Depois, sentou-se à mesa da minha cozinha, bebeu uma xícara de café, elogiou o sabor e se foi quando eu ainda observava o seu jeito de sorrir para mim.


Rodrigo .


( * Ygor. )

domingo, 4 de novembro de 2007

Ele .





Sem nome.

Tenho medo deste menino mudo,
prenúncio de palavra,
ancorado em meu porto na madrugada.
Feito pacote sem remetente,
implora-me adoção.
Insinua-se exalando frescor de prosa,
meio rosa, meio dor.
Apenas o observo em seu sabor de silêncio.
Não quero os são, nem os paulos - apenas esse menino, tentando absorvê-lo da
distância.
Trazendo-o para perto de mim, e tecendo no sono sagrado o mais novo mito da
existência humana- ele em mim.




* Rodrigo Rudi .
(foto: Gustavo)



Caio F.

"... tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um
peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais,
nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, veja só que
coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz,
cara."

"Abraçe a sua loucura antes que seja tarde de mais".

Caio Fernando

Fragmentos!



É inevitável ultrapassar os limites que o tempo nos impõe, sem sair com arranhões.



“Essa morte constante das coisas é o que mais dói. (...)
Depois de todas as tempestades e naufrágios,
o que fica de mim em mim é
cada vez mais essencial e verdadeiro.”
(Caio Fernando Abreu)



Viver é um constante morrer. O tempo vai passando e os portões enferrujando – as casas virando história de gente grande e nós deixando cascas onde quer que toquem, onde quer que pisem. Esse jeito peculiar de morrer não deixando de respirar, de fazer a barba, de tomar banho, beber café todos os dias é o ato mais doído quando perceptível. É que nem sempre as pessoas tendem a enxergar o que perderam, mas sobrevivem para conquistarem o que bastará alguns dias para tornar-se apenas uma história recolhida no retrocesso da saudade. Eu vivo para morrer e na perda, receber o que ainda não havia tocado. O vento que me toca e me assedia – a chuva que me banha e me deixa gripado, talvez seja um jeito que o Eterno resolveu de me recolher aos poucos.
Já é noite e chove. Através da janela, insisto em esperar até que você venha – quebrando a virgindade da rua vazia e molhada, gritando meu nome e correndo com passos largos em direção ao portão, ainda fechado. Só posso tocar o que o vento e o tempo não levaram. Ainda chove. As luzes de mercúrio velam o rito da solidão do asfalto e alcançam o palco da sua ausência em mim – nele atuo sem máscaras à sua espera. Neste quarto vazio a luz negra do abajur me assedia – como uma cigana sem identidade pronta a me lançar no destino. Inevitável é a dor – o desassossego. Desfaço-me em cheiro que necessita do teu cheiro – em carne que necessita do calor da tua carne, do teu suor em mim reinventando verbos e encerrando o tempo em nós.
Cada vez que você não vem, é o tempo necessário para a morte recolher um pouco de mim – fragmentos envelhecidos – esquecidos na conjugação do verbo “esperar”. Mas morrer não é o fim, é um constante nascer que o enredo do tempo recolhe de mim e deposita nos teus sonhos.
Meu discurso: preciso que termines dentro de mim.

Rodrigo Rudi *



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(* letrado do último período de Letras, maluco, estagiário e pensando que é gente).

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Divagações!


Buenos... Buenos! ...

Abaixo a minha redação premiada no Concurso de Redação do GREBAL - BM.
Categoria: 1º lugar em Nível Superior - UBM.


“A importância da Educação”.

A educação tem se limitado aos muros da escola e ao comodismo de tantos que dela fazem parte. Como dizia Guimarães, o Rosa “Mestre não é quem ensina, mas aquele que, de repente, aprende”. Sua importância se dá na extensão da vida a partir dos primeiros passos que é a família e, posteriormente a sala de aula e a interação com o meio escolar. A maior crise que enfrentamos não é somente a fome, as injustiças sociais, mas a omissão de uma Educação voltada para a libertação da sociedade. A educação é uma das grandes verdades que liberta o homem. Ignora-la é uma forma de aprisionar a essência humana no que ela poderia dar de melhor de si mesma.
A Educação impulsiona o homem a libertar-se de idéias impostas pelo poderio e, assim proporcionar novos horizontes e um novo jeito de refletir sobre a vida e os desafios que ela os convida a trilhar. Um homem que tem idéias tímidas não poder mudar a sociedade.
A dignidade do “Ser” humano se passa pela oportunidade e pelo acesso a uma educação que promova a capacidade de interação com o meio, a partir do diálogo, da escuta e da troca de informações. Um homem não constrói sozinho. A evolução não aconteceu de forma surreal. A possibilidade de descobrir, atuar, interagir e construir conhecimento nascerá a cada dia, diante de mãos estendidas e de um coração que ao arder como fogo, anseia por educação.
A Educação tem o poder de restituir o coração humano de seus fracassos. Sua importância cai diante dos nossos olhos, penetram nosso entendimento e com ela nos identificamos. Ela nos dá um livre acesso ao sentimento do mundo. Transita em nós, mas não pode ficar. Sozinha significará pouco. Apenas passa, compartilha porque não foi feita para o definitivo. Quando a tocamos, sua importância nos leva e não nos permite estabelecer morada. Ela vai sem ir, ela fica sem estar, ela vem sem vir e fala sem dizer. Sua semente quando plantada, toca outras existências com o grão de seu verbo e a raiz dos seus pronomes. Com seu poder de palavra, com sua força de liberdade nos confunde e, com seu poder de silencio nos clareia e desperta.
Sua importância compreende o exercício da arte milenar, que retira o ser humano da matéria bruta da vida e nele descobre o diamante até então desconhecido.

Rodrigo Rudi .

Carta anônima .

Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra. Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés daquelas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.). E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você - seria, seriam? Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam umas nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta o meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito pudor de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos meio tudo isso, não tem jeito, é tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olívia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Win Wenders, mais Cecília Meireles que Nelson Rodrigues. Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca minha mão, eu toco na sua. Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente, mas penso tanto em você que na hora de dormir vezemquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo.
Caio F.

sábado, 25 de agosto de 2007

Gostoso de ler.

Eles.


Nos últimos dias, meus maiores companheiros têm sido Adélia Prado e Caio Fernando Abreu. Adélia, mulher fina, delicada, amante de Deus – guardadora de um rebanho simples, alma feminina do cotidiano – senhora que me revela Deus na luz que molha as frestas da minha janela, que me confidencia a beleza escondida nas refeições, no encontro dos cotovelos, mulher que tem a capacidade de adentrar o meu quarto silenciosamente e, deixar o meu coração disparado enquanto vejo a vida passar através da janela. Caio Fernando Abreu, homem feroz, insaciável pela vida e peregrino das indefinições. Homem do cheiro, do toque, da carne, da alma, do rapaz. Com ele, procuro Dulce Veiga, mesmo sentado na cama e folheando a página par desse enredo. Nada me sacia além de sua presença ausente em mim – chega sem eu perceber, põe inquietação em minha alma e vai embora, deixando apenas o vício, vício de amá-lo na indefinição de uma ficção atemporal. Ele me toca – me leva, me rouba e me deposita na cama a três, no beijo a três. Hoje, Caio esta fora do tempo, mas presente no ciclo vicioso daqueles que bebem o vinho doce e fatal da existência humana. Nem a droga me proporciona tamanho prazer. Caio me basta, mais nada! Todas as noites tenho ido para a cama com ele. E a gente, a gente faz amor.

A palavra é a droga mais terrível – velha, cheirando a mijo e presente antes que o verbo se tornasse carne. A palavra é a dama da noite, vestida de purpurina e com os venenos escorrendo em seus tempos verbais. Ela mata no pretérito, aniquila no presente e ameaça no futuro. Vestida de adjetivo seduz o homem, pós-seduzido ela nega, transmuda, fere. Ela mata como Hiroshima depois de desvendada. Mulher fina – pelo “a” nos saltos, homem barbudo com um machado nas mãos pelo “p” inicial. Droga que se reproduz silenciosamente, entra pela porta da frente – não se incomoda de ser lançada na estante, seu veneno depois de pronto, não cumpre validade. Assassina terna de Saussure, moça fina de bom gosto! Mas prostituta fatal – delirante – com a onomatopéia mais alta, o esmalte mais vermelho, a espera de quem devorar, seja no sol quente do meio dia ou em uma noite mais fria de uma data qualquer. Após o estrago, toma o seu banho, recolhe sua lingerie e vai parir o crime naturalmente na primeira página do Jornal mais famoso – Quem assassinou o Presidente? – e brinca na linearidade da interrogação.

Rodrigo .

domingo, 19 de agosto de 2007

"Não sou a areia onde se desenha um par de asas ou grades diante
de uma janela. Não sou apenas a pedra que rola nas marés do mundo, em cada praia
renascendo outra. Sou a orelha encostada na concha da vida, sou construção e
desmoronamento, servo e senhor, e sou mistério"

Lya Luft

Bom gosto...

"Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa é nada ser perfeito. É deslumbrar a noite tormentosa até cegar, E tudo ser em vão!"

Florbela Espanca

domingo, 12 de agosto de 2007

Celebrando Fraternidade!

Prevalece em meu quarto uma atmosfera musical que me revela histórias de outros tempos, trazidos pela voz de Mônica Salmaso. Mônica é diamante lapidado pelo fino martelo de Deus. Seu tempo não é pretérito, não é futuro nem presente. Sua voz, elegantemente depositada sobre os acordes que sustentam o meu discurso com meu amigo, Vítor – no nome trás a vitalidade que possui na essência... – é um misto de terra e céu, lugar onde graves e agudos resolveram celebrar fraternidade. Nada fere, nada sobra. Ela apenas segue o destino de abrir cavas interiores, a fim de que Deus, num gesto de ternura, venha abrigar-se em nós. Ela canta morrendo, cada nota parece ter um ar de despedida, alguma coisa que clama e que me desperta para o novo amigo. Nela eu descubro o já acontecendo. Recordo-me das sábias palavras de Jesus a respeito do sal. O sal dá sabor e Mônica é Salmaso. É mulher que tem tempero no nome. Tempero raro, que me transporta para a vitalidade do Vítor, que me alcançou na ponte do avesso. Mônica Salmaso regada de um amizade, são ingredientes que trazem em sim o alto poder de curar a nossa pessoa daquelas dores que não se localizam.
By Rodrigo .

sábado, 11 de agosto de 2007

RG.

Sou carta fora. Fora de toda definição e qualquer alcance de raciocínio. Sou faca afiada que corta, mel quente que alimenta e águia que reanima o seu vôo. Prossegue em mim a continuidade vital de ser quem sou. Como diria Drummond, “Não, meu coração não é maior que o mundo. É muito menor. Nele não cabem nem as minhas dores. Por isso gosto tanto de me contar”. Nada me sacia, nada me sustenta tão perfeitamente, como o sonho. Sou homem que acaricia uma criança, que chora vendo comercial de Tevê, que ama e liga pedindo para o amor voltar. Lanço fora às armas do orgulho, da prepotência e de qualquer outro gesto egoísta, que aprisiona o ser humano e o transforma em ser animal. Vida mesquinha é a vida de quem prefere colher morangos, morangos mofados. Vivo os meus dias, remodelando as cores de minha alma, curando as feridas e recebendo delas, toda lição de maturidade que a vida exige que eu traga. Sou um ser alucinado com a contemporaneidade, envolvente como a fumaça e reflexivo como o café das cinco. Sou o avesso da definição. Alimento-me na cadeira para contrariar a lógica de ser obrigado a comer à mesa. Nem sempre prefiro a cama para depositar o corpo cansado e a alma flutuante – sou o menino mais sujo deitado sobre o chão da Avenida, a mulher mais puta, de tantas esquinas por aí. Sou o pai que chega com o abraço acolhedor e cura muitos medos, sem trazer um analgésico no bolso. Alimento-me de outros sabores, amparo-me em outras margens e toco o inexprimível. Sou menino inquieto com a vida, guloso por seus sabores, intenso nos cheiros que afloram a manhã e enfeitam mais um dia que se cumprirá, aos poucos. Não são poucas as vezes em que me esforço para recordar o que um dia aprendi. Abro a porta da minha memória e não encontro o que procuro. Noto que aquele conhecimento se alojou em algum quarto que pouco freqüento e que, cansado de esperar a minha visita, foi dormir um pouco. Quartos que, por não serem visitados, vão perdendo à luz. Mas, mesmo no escuro, a informação sobrevive. Tenho um único medo. Medo de desaprender muito, conhecer demais e de esquecer fácil. Aproveito para ler Adélia Prado. Prado que parece montanha, onde as palavras se escondem preguiçosas e, ao mesmo tempo, lugar onde eu com a finita forma de ser menino, insisto em esconder pedindo para você me encontrar.

Rodrigo.

domingo, 5 de agosto de 2007

♪ Música que dá saudade...



♪ Avião sem asa, fogueira sem brasa, sou eu assim sem você. Futebol sem bola, Piu-piu sem Frajola, sou eu assim sem você. Por que é que tem que ser assim se o meu desejo não tem fim. Eu te quero a todo instante nem mil auto falantes vão poder falar por mim. Amor sem beijinho, Bochecha sem claudinho, sou eu assim sem você. Circo sem palhaço, namoro sem amasso, sou eu assim sem você. Tô louca pra te ver chegar, tô louca pra te ter nas mãos. Deitar no teu abraço, retomar o pedaço que falta no meu coração. Eu não existo longe de você a solidão é o meu pior castigo. Eu conto as horas pra poder te ver mas o relógio tá de mal comigo... Por quê?Por quê? Neném sem chupeta, Romeu sem Julieta, sou eu assim sem você. Carro sem estrada, queijo sem goiabada, sou eu assim sem você. Por que é que tem que ser assim se o meu desejo não tem fim. Eu te quero a todo instante nem mil auto falantes vão poder falar por mim. Eu não existo longe de você e a solidão é o meu pior castigo. Eu conto as horas pra poder te ver mas o relógio tá de mal comigo. ♪


Adriana Calcanhotto - Fico Assim Sem Você

Meu aniversário!


"Prossegue em mim este encanto de saber-me só. Este olhar solitário sobre a pia onde repousa apenas uma escova de dente. Nenhuma boca me acompanha, nenhum hálito me assedia na cama. Sou o propósito comum, absorvido pela carne que me tece. Por vezes a inspiração vem me ver. Vestida de tristeza se aloja nem canto do quarto e insiste a me ditar poemas. Neles, a alma pode se lenir, num abstrair-se sereno, inevitável, quase religioso. A intensidade rítmica do poema e seus algozes vai favorecendo à alma em cacos um constante restituir-se nas palavras. Verbos que se ajeitam na curva da dor, pronomes que se entranham no vácuo da mágoa e adjetivos que acariciam os restos de alegria. Este é o cenário interior do poeta, lá, onde o poema não escrito espera as dores da contração poética. Filho, que no silencio da carne, espera o milagre gráfico que o fará concreto, palavra. Tudo mais são confluências ontológicas, sombras de inspirações alheias, encontros marcados pro final do dia, partilha casta que não gera assombros, epfânia. HOJE é a festa da minha nova idade, novidade que continua continuando, sem inovar, feito rio que corre sem se mover, movido pela força de ter que ir, sem poder ficar. Assim o tempo, a vida e eu. Persegue em mim este encanto de saber-me indo. Este não parar, não poder ficar, contínuo indo, constituindo-me para sempre findo. Esta abnegada forma de viver morrendo, crescendo e de ser feliz. A arte é um ensaio do eterno. No findo, o lindo se mostra, projeta-se para fora do tempo e se ossifica de alguma forma. Adorada condição primeira de saber-me cera que se dissolverá. Feito luz que se alojou na fresta, quero assim sem pressa, no eterno me abrigar. Por isso quero a música, a palavra, o cotidiano. Lugares que desafiam o tempo e sua abrupta forma de correr. Com eles eu vou mais devagar. Neles eu encontro a pausa, a esposa e a revelação divina. Neles eu descanso a alma que não tem pressa, porque é eterna. O corpo, marcado pela condição de ser finito, vive a ansiedade de perder o tempo, o ônibus e a definição de seus músculos. Alucina-se na temporalidade do êxtase e degusta a vida frutificada em seus diversos sabores. Ele sabe o quanto é bom viver! Enquanto isso, não exatamente no tempo em que digo isso, a alma esmera-se em dar-se a si mesma como experiência fundante e absolutamente bela. Alimenta-se de outros sabores, ampara-se em outras margens e toca o inexprimível. Fala outra língua e é afeita ao não conceitual, ao transcendente e ao absoluto.Mas ama o corpo. Não o despreza, mas o impregna com detalhes do seu fundamento. Sensibiliza-o e o prepara para a arte. Religiosamente o ensina a rezar, tocar o eterno e a sentir os sabores por outras vias. Ela o ensina dançar, ter ritmo, postura elegante. A alma é a educadora do corpo, pedagoga que o guia pela mão. Andam juntos e se amam em suas diferenças. Não têm o mesmo tamanho. Alguns corpos imensos abrigam almas pequenas, minúsculas. O contrário também é verdadeiro. Corpo e alma se alimentam de diferentes substratos. Há também os corpos torneados aprisionando almas mancas. E corpos disformes possuidores de almas elegantes. É que quando a alma não tem a primazia, o corpo tende a sufoca-la, entorpecê-la. Vive como corpo, apenas. Vê o que vê, toca o que toca, sente o que sente e sabe o que sabe. Vive apenas para envelhecer, colecionar idades, erguer paredes e contar dias no calendário. Quando as duas realidades caminham juntas, o corpo tende a ganhar novos significados. A alma que não envelhece, torna-o mais sensível para as realidades que não passam. Ela o impregna de novas cores, novas disposições. Não sei porque estou me dispondo a descrever a realidade humana de maneira tão fragmentada, positivista. Somos um mistério único no ato de sermos corpo e alma. Tudo mais é mera especulação sem fundamento.Talvez eu esteja falando disso porque hoje é o meu aniversário. Aniversário do corpo ou da alma? Acho que é do corpo. Foi ele que nasceu um dia. Não sei. O que sei é que no aniversário do meu corpo quero mesmo é a comemoração da alma." Fábio de Melo
Rodrigo .

sábado, 4 de agosto de 2007

Derramando palavras II.

Esquadros – Adriana Calcanhoto. Gosto dessa canção e, do efeito que ela causa em mim. Como dizia Caio F. “existe sempre alguma coisa ausente”. Essa música é o corpus de tal verdade. Gosto muito de sair; saídas banais, mas saudáveis como ir ao supermercado, à padaria e andar sem ter hora pra voltar. É divertido olhar as cores que em certos momentos do dia, afloram pelas ruas, nos muros ou em algum ângulo da esquina.

Talvez olhar seja uma forma de buscar o ausente – aquilo que falto à gente! Ando procurando decifrar o que em mim é ausência. Ah! Sinto falta de tanta coisa! Uma delas seria a novidade de ter meu irmão de volta; gostaria de vê-lo sorrindo, suado, voltando do trabalho ou contando a nova conquista de emprego. Encontro-o na arte. É o portal, o lugar onde a gente encontra com o ausente, com o inatingível. A morte de alguém que a gente tanta ama, talvez seja isso: comprar um passaporte para o mundo das artes. São telas, rabiscos, vultos, esquinas, cores que revelam o que o coração da gente desejar.

Ouvi alguém dizer que a vida é a preparação para o luto. Será? Não sei. O que sei é que agora visto uma calça comprida, trajo roupa de algodão e trago no peito uma camisa da Renner, laranja. O q sei é que tenho fome e, quando a fome chega, nada é mais valioso que um pão com manteiga com alguns goles de café. Nem o ouro tem valor em nível de.

Olho pela janela. Percebo o sol abraçar o monte. É uma forma de se despedir a poucas horas do inicio da noite. Cada qual compreende o seu tempo e se despede com alegria... Queria entender isso! Pessoas que partem cedo demais e outras que vivem uma eternidade! Devíamos viver o necessário – de forma igualitária. Sem menos e nem mais tempo para ninguém.

Gosto de andar pelas ruas que um dia vivera em festas. Paro, olho e tento decifrar em algum objeto enterrado sob o asfalto, a lembrança do olhar, dos prazeres, das conversas, das divagações ali vividas. Quando eu encontro um objeto “velho”, eu transpasso a lei de condena-lo a lixo e, adentrando o mistério da saudade, evoco constantemente o jeito mais simples de conhecer, de indagar, perguntar, quem um dia traçou história sobre ele?

Derramando palavras. Não sei onde elas cairão e nem que tipos de reciclagem farão com elas. Quero apenas o direito de permanecer diante do meu teclado e nele obedecer à lei de um menino que trás saudades no peito.

Não corra o risco de perder sua vida, perdendo-se.
Quanto mais identificares suas raízes, suas dores e seus sabores, saberá o valor que como Homem você possui.
Um Homem que não tem raízes, não tem histórias...


Rodrigo .

Derramando palavras I.

Aproveitei a noite anterior para ler Machado de Assis – “A mão e a luva”. Estou ansioso para ler o final. Guiomar, personagem do enredo, mulher paparicada pelos cuidados da madrinha, cercada de luxo e, ao mesmo tempo de um ego que não a deixa se envolver amorosamente.

Estevão, homem ancorado nos sentimentos do passado. Bem, não pretendo fazer um resumo da obra – fora de pretexto. Lendo essas histórias me soam como algo surreal, imaginário. Algo como tecer um conto de fadas e acreditar nele. O ser humano tem essa tendência; de amar o ilusório. Sonho nem sempre é ilusão e, ilusão é bem diferente de sonho. Percebo até que ponto o homem pode chegar a se arrastar por um amor. Eu sei que os tempos mudam, que as cidades crescem e os meios se afloram, e os séculos avançam como uma águia com fome e sede. Na leitura, por hora me senti como Estevão, não revogando um amor antigo, mas sentindo na pele o que é amar alguém que de certa forma, não merece o meu amor. Antigamente os amores eram mais sagrados. As promessas eram realizadas, os diálogos curtos, mas profundos, tocantes, quase vidro fino que, se apertasse um pouco além viraria cacos. Uma palavra bem dita para não ferir e, ornamentar os sonhos que o casal tivera. Cenário? A não ser o portão de casa com hora marcada para entrar ou a sala, lugar de conversar e apenas um toque de mão. O amor era sagrado e sacramentado nas relações.

Por que hoje não? Gostaria de acreditar neste sonho. O amor tornou-se ilusão. As uniões rápidas e descartáveis, os olhares sedutores como passaporte para a cama. Os amores roçam, mas não entrelaçam, não formam um elo, não se encontram. As relações se tornaram cansativas, apelativas e vazias. Infelizmente a essência dos humanos, também. Vive-se numa sociedade com mais recursos, mais dinâmicos, acessíveis e, porém bem mais solitária.

Ouvindo um filósofo – Gilles Lipov. num programa de TV, canal Futura, ele defendia a tese de que existem coisas na vida que não pode avançar e nem acompanhar o progresso. São coisas que necessitam de tempo para serem o que são. Coisas que aspiram um percurso demorado para se aperfeiçoarem e, essas coisas jamais poderão acompanhar o avanço globalizado. Creio eu, que o amor seja uma dessas coisas. Amor instantâneo pode não dar certo. O amor precisa de cuidados, de apreciação, tempo, água, adubo, calor, ventania... E essas coisas não acontecem de uma só vez. No século XX, numa sociedade contemporânea existe a “urgência do presente” mas infelizmente o “mal-estar da sociedade”.

Não quero roubar o seu tempo derramando palavras com receita mágica de como conseguir alcançar êxito no amor e, muito menos fazer do meu espaço, que é um lugar tão simples, de posto de auto-ajuda. Não é Santa Casa de Misericórdia, não senhor (a)! E muito menos Paulo Coelho, do qual, não tenho estima alguma. Quero apenas dizer que na vida, nem tudo que vem fácil, fica. Não sejamos a personagem Guiomar da História, nem o apaixonado Estevão, nem o acessível Jorge... Sejamos nós mesmos, sem hipocrisia, máscaras ou qualquer outro meio que, empoeiram a verdadeira face do ser humano. Sejamos construtores do nosso próprio enredo e merecedores do nosso próprio entendimento.

Quinta-feira!

Quinta-feira

Acordei querendo arrumar toda casa.

Já ouvi alguém dizer que quem deseja arrumar muita coisa por fora, é porque por dentro necessita de arrumação, concordo. É que nem sempre a gente consegue identificar a raiz da nossa dor. Tem dores que me visitam quando menos espero. Chegam de mansinho e se alojam em algum canto da minha vida. Anunciam sua presença quando despertam algumas dores em mim. A dor por um lado me trouxe uma realidade nova – a realidade sem cenários, uma vida sem fantasias e sem hipocrisia. Sei que não é gostoso deitar mais cedo para chorar, pior ainda é não ter sono e se sentir o cara mais solitário do mundo. O silêncio é o meu grito mais alto.

Li num blog de um amigo que “a vida acaba quando não se enxerga a todo instante”. Como morrer num instante desses, se enxergo a partir da dor tantas coisas? Nesses momentos penso naqueles que se suicidaram... Jovens, mulheres, homens que infelizmente não souberam sofrer a dor agarrada aos únicos rastros de luz. Eles gritavam em silêncio – ficaram em seus quartos várias vezes, comiam sem sentir o sabor da comida – não tinham se quer vontade de fazer algo, mas faziam. Era o “ciclo seco” que se instaurava na vida de cada um, como num dia disse Caio Fernando. O suicídio ia acontecendo cada vez que essas pessoas não conseguiam sofrer sem tirar um grão de mostarda do bem. Eu sei que é difícil e, quase impossível... Porém é preciso, para não morrer.

É preciso enxergar a todo instante... Existem virtudes que há em mim que somente no momento de dor é mostrado. Qual é a experiência que a dor tem lhe trazido? Quando ela voltar, você será capaz de identificar o que existe de valioso dentro de ti? Espero que sim. Não me uno como um ser humano passivo no sofrimento, mas como alguém que sofre buscando sempre lapidar diamantes que até então, não foram vistos.

Rodrigo.

domingo, 29 de julho de 2007

RIO


"Tantas mortes, não existem mais dedos nas mãos e nos pés pra
contar os que se foram. Viver agora, tarefa dura. De cada dia arrancar das
coisas, com as unhas, uma modesta alegria; em cada noite descobrir um motivo
razoável para acordar amanhã"

Anotações sobre um amor urbano. (C.F.A)
Cheguei cedo do RIO. Não fui assistir aos jogos do PAN não! Resolvi me distrair, respirar... Quando cheguei dentro do ônibus, lembrei que não havia levado livro algum na mochila, droga - se bem que, quando a gente lê muito em viagens, a gente corre o sério risco de perder o livro que é escrito a cada minuto, frente aos nossos olhos - Como diria Caio, "ando meio clack". Bem, às vezes péssimo e mal humorado. Tento compreender certas coisas na vida, mas não entendo. Por mais esforço que faça e, por mais bom menino que eu seja.
Não quero pensar muito. Prefiro me distrair nos sonhos que me sustentam, nos amigos que me encantam e na pessoa que me ama. Vou aproveitar para ler alguns livros; quando estou triste, estranho, clack, nada melhor que um bom autor para aliviar minha existência. Tarefa difícil essa, não? A tarefa de existir. Me drogo, vomito e como Caio (no bom sentido). Amo esse homem! Grande escritor, humano e profundamente poético. Se ele estivesse vivo, marcaria muitos cafés para aprender o que ele entendia tão bem: a vida e o preço alto que pagamos quando cumprimos o ritual de Ser humano. Viver tem o seu desafio, sabe? Gosto de pensar em Drummond - com o poema - "Consolo na praia"...
Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
(...) Mas, e o humour?

Like an angel...

"O cheiro do teu corpo persiste no meu durante dias. Não tomo banho. Guardo,
preservo, cheiro o cheiro do teu cheiro grudado no meu. E basta fechar os olhos
para naufragar outra vez e cada vez mais fundo na tua boca. Abismos marinhos,
sargaços. Minhas mãos escorrem pelo teu peito. Gramados batidos de sol, poços
claros. Alguma coisa então pára, todas as coisas param. Os automóveis nas ruas,
os relógios nas paredes, as pessoas nas casas, as estrelas que não conseguimos
ver aqui do fundo da cidade escura. Olho no poço do teu olho escuro, meia-noite
em ponto. Quero fazer um feitiço para que nada mais volte a andar. Quero ficar
assim, no parado. Sei com medo que o que trouxe você aqui foi esse meu jeito de
ir vivendo como quem pula poças de lama, sem cair nelas, mas sei que agora esse
jeito se despedaça. Torre fulminante, o inabalável vacila quando começa a brotar
de mim isso que não esta completo sem o outro".

Caio Fernando Abreu.

Sobre o Amor ...

"Amor que é amor dura a vida inteira. Se não durou é porque nunca foi amor. O amor resiste à distância, ao silêncio das separações e até às traições. Sem perdão não há amor. Diga-me quem você mais perdoou na vida, e eu então saberei dizer quem você mais amou. O amor é equação onde prevalece a multiplicação do perdão. Você o percebe no momento em que o outro fez tudo errado, e mesmo assim você olha nos olhos dele e diz: "Mesmo fazendo tudo errado eu não sei viver sem você. Eu não posso ser nem a metade do que sou se você não estiver por perto."O amor nos possibilita enxergar lugares do nosso coração que sozinhos jamais poderíamos enxergar. O poeta soube traduzir bem quando disse: " Se eu não te amasse tanto assim, talvez perdesse os sonhos dentro de mim e vivesse na escuridão. Se eu não te amasse tanto assim talvez não visse flores por onde eu vi, dentro do meu coração!"Bonito isso. Enxergar sonhos que antes eu não saberia ver sozinho. Enxergar só porque o outro me emprestou os olhos , socorreu-me em minha cegueira. Eu possuia e não sabia. O outro me apontou, me deu a chave, me entregou a senha.Coisas que Jesus fazia o tempo todo. Apontava jardins secretos em aparentes desertos. Na aridez do coração de Madalena, Jesus encontrou orquídeas preciosas. Fez vê-las e chamou a atenção para a necessidade de cultivá-las. Fico pensando que evangelizar talvez seja isso: descobrir jardins em lugares que consideramos impróprios. Os jardineiros sabem disso. Amam as flores e por isso cuidam de cada detalhe, porque sabem que não há amor fora da experiência do cuidado. A cada dia, o jardineiro perdoa as suas roseiras. Sabe identificar que a ausência de flores não significa a morte absoluta, mas o repouso do preparo. Quem não souber viver o silêncio da preparação não terá o que florir depois...Precisamos aprender isso. Olhar para aquele que nos magoou, e descobrir que as roseiras não dão flores fora do tempo, nem tampouco fora do cultivo. Se não há flores, talvez seja porque ainda não tenha chegado a hora de florir. Cada roseira tem seu estatuto, suas regras...Se não há flores, talvez seja porque até então ninguém tenha dado a atenção necessária para o cultivo daquela roseira. A vida requer cuidado. Os amores também. Flores e espinhos são belezas que se dão juntas. Não queira uma só. Elas não sabem viver sozinhas...Quem quiser levar a rosa para sua vida, terá que saber que com ela vão inúmeros espinhos. Mas não se preocupe. A beleza da rosa vale o incômodo dos espinhos... ou não."
Lindo... né?

Hoje eu não sei dizer.


"Hoje eu não sei dizer. Só sei sentir. Há dias em que as palavras não são capazes de traduzir o sentimento. E por isso a solidão se instaura. A sensação de estar só é a mesma de não saber dizer.Talvez seja por isso que só as pessoas que verdadeiramente se amam são capazes de suportar o silêncio... Ficar calado é uma forma de dizer sem conceituar. Os conceitos são formulações fáceis, o silêncio não. Descobrir o que o silêncio diz requer mestria, observação minuciosa.É bom não saber dizer...Bom mesmo é ser compreendido, mesmo quando não sabemos dizer...Amar é uma forma de crer em silêncio!"
Já dizia o poeta...

Queira a profundidade!

"Não diga as coisas com pressa. Mais vale um silêncio certo que uma palavra errada. Demora naquilo que você precisa dizer. Livre-se da pressa de querer dar ordens ao mundo. É mais fácil a gente se arrepender de uma palavra que de um silêncio.Palavra errada, na hora errada, pode se transformar em ferida naquele que disse, e também naquele que ouviu. Em muitos momentos da vida o silêncio é a resposta mais sábia que podemos dar a alguém.Por isso, prepara bem a palavra que será dita. Palavras apressadas não combinam com sabedoria. Os sábios preferem o silêncio. E nos seus poucos dizeres está condensada uma fonte inesgotável de sabedoria.Não caia na tentação do discurso banal, da explicação simplória. Queira a profundidade da fala que nos pede calma. Calma para dizer, calma para ouvir.Hoje, neste tempo de palavras muitas, queiramos a beleza dos silêncios poucos. "
reprodução.

A Terceira Margem do Rio


Guimarães Rosa




Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.


Texto extraído do livro "Primeiras Estórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 32, cuja compra e leitura recomendamos.

Chamada perdida!

Hoje não acordei tão bem. Dia nublado, preguiçoso e bom para ficar na cama. Antes das 8 h o celular toca...

To de férias da faculdade. Passei pro último semestre! Lógico que depois de muito estudo, preocupações e uma vida ferrada que leva um estudante universitário. Minha cabeça não para de girar, pensativo com estágios, aplicação de projetos e atividades. Talvez não seja muita coisa, até porquê só estudo! No momento não tenho aluno algum pra aula particular. Espero que Papai do Céu me envie alguns alunos porque preciso de um cash para pagar o provedor da internet e voltar com o meu acesso 24 h. Se existem algumas coisas que eu não vivo sem, posso dizer que uma delas é o meu PC. É nele que eu leio, olho fotos de amigos, pessoas que eu amo e, que moram distante de mim. É nele que eu baixo minhas canções prediletas. Canções que rasgam a minha alma e deixam vazar a essência que brota dessas frestas. Meu PC é como um filho pra mim. Filho que ainda hei de ter, literalmente. É diante dele que fico a pensar na vida e, crio assim uma filosofia para o dia e talvez para a semana. Nele vejo tanta gente bonita! Leio tanta coisa linda e conheço tanta gente que o meu MSN está lotado. Embora existam aqueles que “somem” eu deixo por lá por um bom tempo e depois resolvo excluir.

Engraçado, a gente perde muita coisa nessa vida. E a vida passa! Eu tenho muitos amigos na vida real, amigos de faculdade, amigos de comunidade, amigos de infância, mas nunca me senti tão sozinho. Não sei se essa solidão seja provocativa, ou se realmente eu não tenho a coragem de me dedicar aos meus amigos. É curioso perceber que ultimamente tenho odiado atender telefones! Meu peito chega a doer quando o telefone toca, não me sinto bem. Quase sempre deixo meu celular tocar, tocar, tocar e não tenho um pingo de vontade em atender. Preciso de coragem para receber chamadas! Estranho isso, mas é o que eu tenho passado. Talvez eu preciso relaxar mais... Ando muito tenso, ansioso e ao mesmo tempo triste! Não é depressão, não. Relaxa!

A semente morre para nascer. Talvez seja por isso que eu morri em muitas coisas! Eu preciso assumir a nova estação e, aos poucos compreender que é preciso anular muita coisa do passado como experiência adquirida e olhar para o futuro, para o hoje, o vendo como uma nova chance, um dia a mais para uma mudança feliz. A gente não ganha desistindo, a gente conquista, lutando.

Sempre quando meu aniversário se aproxima, fico assim: clack, como dizia Caio Fernando. O segredo é pensar em coisas boas que conquistamos! É pensar em coisas perfeitas que conquistaremos!

Em minha vida há tantas chamadas perdidas. E ao mesmo tempo, tanto números discados.

Quero uma câmera nova, algumas roupas e grandes amigos!
Quero ganhar no concurso de redação que resolvi participar; se eu tirar o 1º lugar vou pra Paris. Ah, já pensou? Também ta valendo um computador, do outro. Que seja Deus o piloto, com Ele minha passagem já estará comprada! Hehehe! ...

Após o sinal, deixe o seu recado na caixa de mensagens e, estará sujeito a cobranças.
Piiiiii! ...

sábado, 14 de julho de 2007

Minhas epifanias.


Sempre gostei de escrever, embora fosse preguiçoso. Quando o Blog nasceu e estourou na internet, entrei na onda e comecei a partilhar muitos momentos que eu estava vivendo. Com ele fiz grandes amigos e, outros que apenas passaram. Não traio em dizer que os amigos que ficaram, valeram a pena! Eu era menor, adolescente quase jovem descobrindo a vida, os sentidos por meio de uma janela virtual. E ele era muito importante para mim. Por mais que eu tentasse escrever bem, coordenar a norma culta, eu era bem oculto.
Já chorei muito, esmagando o meu silêncio trancado no meu quarto. Escrevia desabafos, saudades, encontros, marcas e os desafios próprio de quem tocavam sem saber, o mundo dos sentidos que Sócrates camuflava. Escrevi por um bom tempo! E ele ainda existe, no cemitério dos Blog´s. Tentei reativa-lo algumas vezes e nada. Custei para entender que tem certas coisas na vida que cansam. E tentar reaviva-lo seria uma forma de me esconder novamente em suas linhas e pautas. Não! Não era esse o caminho. Vezenquando passo por ele, olho, relembro e deixo uma flor. Também existem coisas na vida que vão embora sem a pretensão de voltar. E ele o foi.
Havia terminado o colegial, estava trabalhando e vivendo uma vida de grande consumo. Cansei de consumir! É sério, havia cansado. Não demorou muito para surgir o mundo do Fotolog, além de escrever, postaria uma foto qualquer. Foi a revolução! Escrever e ao mesmo tempo anexar aquela foto preferida. Foi uma pena, porque grande parte dos “escritores” anônimos como eu, abandonaram o blog para se dedicar ao mundo novo do Fotolog. Confesso que é bem legal, mas para uma escrita bem curta e que, provavelmente poucos lerão. O visual é mais atrativo que a escrita, ou não. Penso que era.
Entrei para a faculdade, conheci um mundo gigante de filosofias, verdades e mitos. Não vou negar que me tornei realmente mais “culto” como diriam por aí. Só faltou o óculos porque a montanha de livros que foram surgindo para eu ler, pesquisar, estudar virou um precipício inimaginável. E não discordo que aprendi muito, mas desaprendi muito também. Na época do blog eu escrevia sem me preocupar com a morfologia e até mesmo com a sintaxe, com a lingüística e tantas definições que vieram para por rédeas nas palavras. É um assunto legal, mas complicado (a gente fala disso em outra oportunidade, okay?) Detesto estrangeirismos, mas usei para entender melhor o que eu quero dizer. Voltando, eu escrevia como criança. Escrevia sem limites. Hoje, adulto talvez, mais maduro, compreensível e com alguns pêlos de barba sobre a cara, e com um pacote de perguntas sobre a vida, o ser humano, a sexualidade, o amor e a paz, fico surpreso diante de tanta responsabilidade. Eu não sabia que a gente só crescia quando a responsabilidade fosse o grito maior em nós.
Bem, depois de ler tantas vezes o blog spot intitulado “atrás do que fica atrás do pensamento” do Leonardo, grande amigo de Governador Valadares, que foi buscar sua paz inquieta do outro lado do mundo, gerei o desejo de criar esse blog.
A gente investe bem quando sente que é a hora certa. O contrário se transforma em cansaço. Na vida é preciso fazer a escolha certa. Nem sempre acertaremos, mas é preciso arriscar.
Ontem, “... um dia frio, um bom lugar pra ler um livro...” , como canta Djavan, sentei no sofá da sala e ali, tomava o meu café. Sabe que por hora, o coloquei no chão, sobre o tapete e fui escolher um Cd legal pra ouvir. Fui até meu quarto, o peguei e voltei para a sala, coloquei a canção e deitei no outro sofá. Deitado, e aos poucos sendo mutilado pela canção, eu descobri que eu existia. Foi quando olhei para o lado, e bem ali, havia um copo com resquícios de café e um lugar vazio. Eu havia passado por ali. Eu havia modificado aquela realidade, mesmo que de uma forma tão simples, mas profunda. Um copo de café esquecido me devolveu a verdade sobre a minha existência. Pude entender que estou bem mais crescidinho e levar a vida em tons reais é um desafio necessário. E talvez seja no conflito que a vida faz crescer... Termino com uma frase de um amigo tão sábio, poeta e profundamente humano que disse bem assim: “Vida que se reparte, é arte, parte que se cumpriu”.

Minhas epifanias é apenas uma forma, um jeito de descobrir que nada é em vão, nem mesmo as tardes que me ardiam dezembradas.

Rodrigo Rudi