quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Lições.


Na vida já enfrentei inúmeras dores. Algumas que me tiraram a paz, outras que me fizeram mais homem. Quisera eu compreender a vida sem as precariedades que ela possui - dores que me ensinaram a viver melhor. Recordo-me de Adélia Prado, mulher fina e que celebra no cotidiano a explosão de ensinamentos retirados por vezes da dor.
Dores que encontramos no olhar e no silêncio daqueles que não conseguem traduzir o que sentem em desabafo ou poesia. Nunca presenciei em sala de aula, no tempo em que eu era menino, a dor no rosto de algum companheiro(a) que reclamasse por falta de pão ou de um amigo. Mas já ouvi histórias que revelaram que existem pessoas que carecem de amor e também de falta do que comer. Uma amiga me disse que quando estudava no ensino médio, havia uma amiga que por meses contou com a solidariedade dos amigos por não ter o que comer e nem materiais para a higiene pessoal. Fiquei pensando na responsabilidade de ser educador. O Educador não é o salvador da pátria, mas pode salvar vidas, retirando um pouco os olhos do livro e direcionando-os para o livro da vida com alegrias e desgostos que todo aluno traz. Tenho medo dos professores que enxergam turmas, multidões. Professores que ditam regras, ensinuam ensinamentos, mas quando precisam que tal verdade funcione em sua própria vida, fracassam!
Uma vez recebi um bilhetinho de uma professora que eu tanto admirava. Eu fiquei tão feliz! O pequeno bilhete se perdeu no tempo, mas as poucas palavras nunca sairam de mim - às vezes me salvou de momentos de morte.
Trago em mim todas as responsabilidades éticas da minha profissão, cumprirei uma por uma. Mas não posso limitar a minha humanidade numa barreira chamada: porta de sala de aula. Tive professores que me ensinaram a lapidar o que de melhor eu tinha, mas não conhecia... Tive professores que me ensinaram que estudar é muito mais que uma questão de sobrevivência, e sim de formação intelectual, psíquica - moral.
Na vida também é assim - podemos matar ou estimular àqueles que são confiados a nós... Hoje sento no chão, e vejo os primeiros sinais do brilho que um dia eles me ensinaram a lapidar. Gostaria que todos estivessem comigo nesse momento. Tenho saudade de cada um! Por isso, só dê ouvidos a quem te ama.
O que tenho é um pequeno diamante lapidado pelo saber - cores que se misturam na alma, que me ensinam a ser gente e que me motivam a partilhar o que de graça eu recebi de Deus pelas mãos dos Grandes professores. A sala de aula vai passar, os professores passarão, mas o amor que eles ensinaram permanecerão até o fim, isso, se para o amor existir um fim.

Rodrigo.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Ah Força do que Existe,
ajudai-me,
vós que chamam de o Deus.


Clarice Lispector: Água viva.

O dia da saudade .

"A palavra Saudade traz em si, diversos significados que podem ser interpretados de acordo com o contexto onde é aplicado. Sua origem encontra-se no Latim, Solitate, e se pesquisada, descobriremos que a conotação contemporânea distanciou-se da original. Saudade não mais se refere ao sentimento de solidão preservado em variações de línguas românicas como o espanhol: soledad e soledat.

Sobre a saudade, podemos encontrar definições como "Sentimento mais ou menos melancólico de ausência, ligado pela memória à situações de privação da presença de alguém ou de algo, de afastamento de um lugar ou de uma coisa, ou à ausência de certas experiências e determinados prazeres já vividos e considerados pela pessoa em causa como um bem desejável"; ou "Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoa ou coisa distante ou extinta. Pesar pela ausência de alguém que nos é querido". Como sinônimos, encontramos Lembrança e Nostalgia.

Em 30 de janeiro celebra-se o "Dia da Saudade". Na gramática Saudade é substantivo abstrato, tão abstrato que só existe na língua portuguesa. Os outros idiomas têm dificuldade em traduzi-la ou atribuir-lhe um significado preciso: Te extraño (castelhano), J'ai regret (francês) e Ich vermisse dish (alemão). No idioma inglês encontramos várias tentativas: homesickness (equivalente a saudade de casa ou do país), longing e to miss (sentir falta de uma pessoa), e nostalgia (nostalgia do passado, da infância). Mas todas essas expressões estrangeiras não definem o que sentimos. São apenas tentativas de determinar esse sentimento que nós mesmos não sabemos exatamente o que é. Não é só um obstáculo ou uma incompatibilidade da linguagem, mas é principalmente uma característica cultural daqueles que falam a língua portuguesa.

Saudade não tem cor, mas pode ter cheiro. Não podemos ver nem tocar, mas sabemos o quanto é grande. Pode ser o sentimento que alimenta um relacionamento amoroso ou apenas o que sobra dele. Pode ser uma ausência suave ou um tipo de solidão. Pode ser uma recordação daquele momento e daquela pessoa, que um dia, mesmo sabendo ser impossível, ousamos querer reviver e rever. É a dor de quem encontrou e nunca mais encontrará, de quem sentiu e nunca mais voltará a sentir. A saudade se combina com outros sentimentos e procria-se. A soma da saudade com a solidão é igual a Dor. O resultado da saudade com a Esperança é a Motivação.

Saudade é uma só, em diferentes palavras. É comum encontrá-la grafada nas lápides em alusão a dor da ausência provocada pela morte. Mas na Literatura e na Música é um tema crônico. É quem arquiteta a estrofe e conduz o tom. Não importa o gênero literário ou o estilo musical, não importa o autor, a época ou a situação.

Casimiro de Abreu versificou sua saudade da infância: "Oh! que saudades que eu tenho / Da aurora da minha vida / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!". Álvares de Azevedo antecipou a saudade mortal: "Se eu morresse amanhã, viria ao menos / Fechar meus olhos minha triste irmã / Minha mãe de saudades morreria / Se eu morresse amanhã!". A poetisa portuguesa, Florbela Espanca, também registrou sua saudade: "E a esta hora tudo em mim revive / Saudades de saudades que não tenho... / Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...".

O Rock brasileiro transformou a saudade numa de suas bandeiras. Renato Russo cantou: "nessa saudade que eu sinto / De tudo que eu ainda não vi". Ainda nas canções de Renato: "dos nossos planos é que tenho mais saudade". Entre o Rock e a MPB, Cazuza, declarou: "Saudade do que nunca vai voltar / E dos amigos que se foram / Eu hoje estou com saudade". Tom Jobim e Vinícius de Moraes compuseram: "Chega de saudade / A realidade é que sem ela não há paz...".

Saudade é um registro fiel do passado. É a prova incontestável de tudo que vivemos e ficou impresso na alma. Ao confessarmos uma saudade, na verdade, estamos nos vangloriando de que, ao menos uma vez na vida, conhecemos pessoas e vivemos situações que foram boas, e serão eternas em nossa alma. Nutri-la, é alimentar o espírito e a própria existência.

Se há tantas e, ao mesmo tempo, tão imprecisas definições de saudade, resta-nos apenas cultivá-la e alimentá-la com pensamentos, músicas, perfumes, fotografias, lugares, fins de tarde e madrugadas. Saibamos viver plenamente o presente, pois ele será a saudosa lembrança de amanhã."

Reprodução do site:
http://www.spectrumgothic.com.br

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

A garupa.






A maior religião é a VIDA. Promovê-la é uma ação contínua do Criador. Gera-se a vida na arte, na literatura e no cotidiano de Adélia Prado:

"No cemitério é bom passear. A vida perde a estridência, o mau gosto ampara-nos nas dilacerações."


Não se andam nele, mas tropeçam no exagero de anular a vida em brilhos com data de validade - luz que não permanece, nem encalça os pés. Forma desregrada de matar a arte humana pela omissão. Gosto de pensar nas coisas esquecidas, objetos que não se ocupam em representar alguma utilidade, por isso vivem, são o que são sem ter que representar nada para o outro. O telefone quebrado é o que ele é, nada mais. Recordo-me das inúmeras vezes que eu fazia cara feia para ir à escola. Eu não gostava de estudar. Era só meu pai retirar a bicicleta vermelha do almoxarifado de casa e eu estremecia: era quase a hora de ir para a escola. A mãe chamava para o banho - forma silenciosa de lavar o corpo das poeiras que o quintal de casa abrigavam, poeiras e sonhos. As poeiras iam, os sonhos ficavam em mim. Eu não gostava era de pentear os cabelos, doía. Ficava todo engomadinho e tinha que comer logo se não perderia a hora da aula. Lá fora, a garupa da bicicleta forrada com papelão parecia rir de mim - talvez seja por isso que nunca gostei de bicicletas vermelhas... O percurso da ida até a escola era longo, mas curto demais para quem nunca queria chegar. Aos prantos eu descia e entrava na filinha - mãozinhas no ombro do amiguinho, todos sorrindo e eu ali, olhando para trás e dando tudo para voltar na garupa vermelha. Eu reconhecia o seu valor no momento em que não estava mais nela. Mais tarde, recolher as lancheiras, devolver o crachá com o nome e uma figura do Tio Patinhas sorrindo idiotamente para mim. Não importava, eram sinais que anunciavam que a hora de ir embora se aproximava - outra filinha idiota (não é só adultos que enfrentam fila, mas gurizinhos também.). No portão eu avistava a bicicleta vermelha e logo o meu pai, aí meu coração descansava de alívio. Na ida aquela bicicleta representava uma prisão diária, dura e com hora marcada; mas na volta, quando os meus olhinhos a identificava no meio de tanta gente, era para o meu coração um alívio, lugar de descanso e de amor. Ela indicava que meu pai estava por perto... Na vida também é assim - existem caminhos que são tortuosos para trilhar, momentos de dores difíceis de serem enfrentados. É preciso subir na garupa e deixar que Deus guie... Só depois uma explosão de significados acontecem. É na volta, no descanso, na serenidade que se compreende que a vida trás em nós as marcas profundas dos seus sabores... Um dia a bicicleta vermelha deixou de ser a metáfora do sofrimento e se configurou em amor. Hoje eu sei o motivo de me sentir tão amparado naquela garupa... hoje eu sei que ela não era uma bicicleta qualquer, ela era a bicicleta do meu pai. E o meu pai era uma das formas mais belas que um dia Deus resolveu criar para me amar! Lá não havia uma bicicleta esquecida. Havia um pai que me esperava. Aqueles que te amam são os únicos capazes de te esperar, ainda que você demore para voltar...


Rodrigo.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Eu quero o colorido.

Gosto de pensar na vida além de qualquer definição. Perde-se o sabor das coisas quando não existe uma liberdade capaz de trazer novas flores. Sempre quando olho para um jovem, assim como eu, fico tentando descobrir no olhar o brilho que existe no coração - os sonhos que ardem na madrugada e os encantos que os consolam. O jovem carrega o fardo de ser protagonista de um mundo novo. Confesso que isso é pesado demais. Ninguém muda o mundo sozinho, essa mudança é questão de parceria. Ontem tive a oportunidade de reencontrar amigos numa mesa de barzinho - início de noite de uma sexta-feira... da sacada onde estávamos, eu via um grande fluxo de jovens com roupas pretas e longas. Uma forma diferente de mania, crença ou hobby. Mas o que sei é que muita das vezes e de forma freqüente, esses jovens não estão ali para curtir um novo estilo, mas para reproduzir a dor que sentem pela ausência de um pai, de uma mãe e de sonhos anulados. Eu sou jovem e não tenho preconceito algum. Tenho lá minhas manias, meu hobbys e meus desafios a serem vencidos.
Roupas longas sinalizando que a dor também é longa quando não existe um elo entre o amor e a realização. Cor que não dança com outra cor, mas tece a tristeza e celebra a falta de afeto que muitos, não todos, vivem a mendigar. Jovens que se reúnem para celebrar um mito ou suas verdades e, são nesses encontros que as dores são partilhadas no mesmo prato - arroz e feijão, sem necessidade alguma de um vocabulário clean, mas puramente percebido nas canções que cantam e reproduzem de autores que também experienciaram a falta de.

Até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo. Quem roubou nossa coragem? Tudo é dor... E toda dor, vem do desejo de não sentir-mos dor... ( Renato Russo ).


A cor não reina na capacidade de amar, nem de transformar o mundo. Mas elas reinavam no rosto daqueles jovens que por aqui circulavam. Que ficasse o preto, mas que reinasse o sorriso. O problema é que a família não dá acesso ao diálogo e quando isso acontece, o diálogo é personificado na ditadura do pai ou da mãe. Jovem pensa diferente, ama diferente e têm paixões diferente... Eu mesmo já me fechei por ter que "engolir" as verdades dos meus pais - bem entendo que eles sempre quiseram o meu bem, e contestar ou expor minha opinião seria uma forma de "desrespeito". Eixste apenas uma verdade ou será que a sua verdade não é a minha verdade?
Talvez esse post não será lido por pais, mas se for que eles sejam capazes de cavar na escuridão do silêncio do filho, diamantes que merecem ser lapidados. A gente que é jovem dá grandes sinais exteriores do mundo interior que estamos só. O que precisamos é de acolhida, respeito à diferença e amor.
Existem corações que se cobrem de escuridão porque os pais não souberam cobrí-los de abraços nas manhãs...

Rodrigo .

Foto: Lecs - My brother.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

.corações

Fico a pensar nas palavras, recados que recebo de algumas pessoas que por aqui passam! Hoje mesmo abri o meu espaço e estavam lá, meias palavras de um rapaz que mora em São Paulo, revelando que os meus textos sangraram nele... Foi aí que logo pensei no significado da palavra - ela que abre portas e quartos em nossa vida que até então ninguém havia conseguido. Palavras são como chaves. E a nossa vida, como uma grande casa, repleta de cômodos. Quem dorme na sala ou ceia na cozinha, às vezes não vê o choro no quarto, nem mesmo os sonhos que lá permanecem trancados. Pessoas que fazem catarse nas páginas de tantos momentos da minha vida. Sou um homem como qualquer outro, a diferença talvez esteja na resposta que dou quando por diversas vezes a dor me visita. Eu poderia transformá-la em desânimo, sofrimento aniquilador, mas não, os meus sofrimentos viram textos, páginas de um blog que sinalizam que a vida é bonita e, é nela, somente nela que posso deixar minhas marcas. Mas lendo esses recados de pessoas como o Marcos, e alguns outros que acenam um lenço branco na multidão dizendo que passou por aqui, é que compreendo que minha vida não é o único lugar para atuação - eu posso mudar a vida de alguém, resgatá-lo da dor, da solidão com um simples post. Eu não sou Deus para ressuscitar os mortos, mas Ele têm me ensinado a ressuscitar os vivos! O que eu queria era olhar nos olhos de cada um e dizer o quanto também sou restaurado quando recebo um e-mail desses... A vida é um ciclo. A sobrevivência também - quando "salvo" o outro, de alguma forma colho vida em mim.
Existem aqueles que passam por aqui e permanecem em silêncio. O que sei é que nesse constante ir e vir, o rosto anônimo insiste em permanecer vivo na retina de minhas saudades. Pessoas que escrevem aqui, e que nunca vi o rosto. Pessoas que deixam recados, insistem em acenar um lenço branco de paz, desejosas de que um dia a gente pudesse passar horas e horas falando de como nascem as dores, as saudades, os medos, e de como é doído ser gente nos dias de hoje. Pessoas que me receberiam na cozinha de sua casa e que repartiria comigo a intimidade de sua vida. Pessoas que eu amaria com profundidade, que eu seria capaz de dar a minha vida por elas, mas que eu não tenho tempo para conhecer. Quantos braços querendo abraço, e que eu, pelo limite do corpo não alcanço. Emails deixados na caixa, a esperança de respondê-los, pedidos de socorro, de apenas uma palavra que as confortassem. Oh, minha gente! Talvez eu não tenha a receita para sarar a dor, nem para acertar na felicidade - mas tenho um sorriso pra revelar que ele só é verdadeiro porque soube germinar num momento de dor. Eles são mais verdadeiros... Venha de onde vier, mas venha. Há sempre um quarto preparado para quem não tem onde dormir. Há sempre uma mesa posta, ainda que na madrugada.

Rodrigo .

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Um livro, uma vida.

"O Soldadinho de chumbo" foi o primeiro livro que eu ganhei. Não lembro a idade, foi presente da minha formatura de C.A (classe de alfabetização). Eu queria era um carrinho, fiquei bravo demais por ter recebido aquele livro. O que fazer com um livro, meu Deus? Era a pergunta que quase todas as crianças fazem! Recordo-me que aquele soldadinho estampado na capa do livro com uma única perna e com um sorriso no rosto me desconsertou. Qual é a alegria quando algo nos falta? Comecei a ler o livro e me encantei com tamanha beleza. Recordo-me de umas gravuras que haviam no livro, até mesmo o tipo de letra e seu formato. Mas nada me marcou tanto como a imagem do pequeno soldadinho - ele me cativou em sua deficiência. A alegria e o encanto que ele havia me proporcionado em suas aventuras fez com que eu esquecesse sua deficiência. A vida é assim - deixamos que a pequena diferença do outro se torne arrogância em nós. Têm gente que vive a base de belezas, e que morrem da solidão pelo ego. O soldadinho era desfigurado por fora, mas era raro em beleza interior. Com seu jeito soube me conquistar e ganhar o meu coração. Às vezes pessoas perfeitas fisícamente não celebram uma vida a dois, porque buscam a perfeição onde ela não existe.


— Olhe! Um soldadinho! Será que alguém jogou fora porque ele está quebrado?
— É, está um pouco amassado. Deve ter vindo com a enxurrada.
— Não, ele está só um pouco sujo.
— O que nós vamos fazer com um soldadinho só? Precisaríamos pelo menos meia dúzia, para organizar uma batalha.
— Sabe de uma coisa? — Disse o primeiro garoto. —Vamos colocá-lo num barco e mandá-lo dar a volta ao mundo.


O soldadinho trazia a marca da deficiência, da exclusão de um grupo, da saudade de uma bailarina que ao ver pela primeira vez, aprendera a amá-la (não vou contar o final porque aprendi que aquela história nunca terminou, mas continua em mim, ainda hoje com meus 25 anos de idade). Aquele pequeno livro com um personagem até então desconhecido para um menino que acabara de se alfabetizar, tornaria um amigo e um amor secreto. Não ganhei apenas o livro, mas lições que me fizeram mais homem, mais humano. Não aprendi a juntas palavras e interpretar frases, com aquele livro, eu aprendi a viver. Na vida a beleza é capaz de abrir portas, mas não é garantia de conquista de corações. O amor verdadeiro é gerido na precariedade. Quanta coisa o soldadinho teve que enfrentar, mas soube superar os limites e, pôde saltar o muro da impossibilidade - não com a única perna que possuía, mas com o coração! É que têm gente que acha que beleza é salva vidas, mas não, o que salva é o que têm se traz dentro do peito. Reconheço-me com muitos defeitos, mas o meu desejo de amar é maior. É por isso que tenho prazer em dizer que a literatura é a minha vida - é uma forma desconsertante de revelar episódios de uma ficção e realidades repleta de ensinamentos que geram mudanças em nós. Literatura é uma ferramente que pode calar o barulho de tantas guerras! A literatura não joga com canhões, mas ela fisga o coração e indica caminhos. É bem pouco o que sei dela, mas nesse pouco é que me refaço na busca de descobrir quem eu sou - com meus limites e com minhas tantas pernas ausentes. Tenho plena certeza que se eu tivesse recebido um carrinho, não seria o mesmo Rodrigo e nem traria dentro do peito o que de raro eu aprendi. Dê brinquedos, têm lugar para brinquedos também... mas presenteie com bons livros. Um brinquedo pode proporcionar horas de prazer, mas uma boa estória pode proporcionar uma vida inteira de aprendizado. Na ausência da perna do soldadinho de chumbo eu me revi deficiente de tantas coisas, uma delas: a falta de amor. Porém no sorriso que explodia de beleza em seu rosto, aprendi que amar é uma questão de escolha. E eu decidi pelo amor.

Além das cinzas, estará o coração.


* A estória completa: http://www.qdivertido.com.br/verconto.php?codigo=5

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

A dor revelada.


Eram 9h15 da manhã, quando recebi a notícia: "Seu irmão está morto!". Aquelas palavras soaram como uma agressão, como gesto de desfeita que contraria o corpo e suas funções, a ponto de imobilizar por inteiro uma estrutura humana que até então sorria, andava e estava feliz. A morte tem o poder de imobilizar os corpos. Imobiliza quem vai e imobiliza quem fica. Tinha diante de mim uma espera, mas o coração não desejava esperar, somente correr para algum lugar onde ali eu acordasse e visse que seria um pesadelo, apenas. Queria fixar-se nos acontecimentos que antecederam aquela notícia. Queria prender-se nas certezas de outrora, no tempo em que os olhos verdes ainda brilhavam e a vontade de viver, jeito de sorrir revelava sonhos de viver e ser feliz, embora a dor insistisse em ficar ali, no corpo do meu irmão. A voz já não existe mais, ancorou-se nas ramagens distantes, lá onde a razão não prepondera e onde os conceitos não mais significam. Restou-me a lembrança de sua única imagem, sorrindo e esse sorriso sendo embalado por uma ambulância fria e com a cor das asas dos anjos. Uma alegria sincera, um jeito que lhe era peculiar, comunicando que iria mas voltaria e que na geladeira restava ainda alguns chocolates. Um beijo, foi a última forma de dizer que o amava e embora sendo apenas o irmão mais novo, eu estaria torcendo pra ele sair dessa. Nada disso, naquele momento, era real. Tampouco a morte, afinal uma realidade dessas não cai de maneira definitiva sobre o coração. Ela se dá aos poucos, minuto a minuto, de maneira que se torna obsessiva, redundante, excessiva. Abria os olhos e repetia: "não existe mais, se foi, acabou". Fechava os olhos e continuava repetindo a mesma coisa. Depois da longa espera, pude contemplar o seu corpo imóvel. Naquele momento, a notícia se concretizou diante dos meus olhos. As marcas do tratamento estavam ali, diante do meu silêncio e da minha total imcapacidade de reverter os fatos. Para alguém que sempre foi tão vivo, seja para sofrer ou para ser feliz, aquela imobilidade certamente seria desconcertante. Por isso não pude ouvir outra coisa! Os dias que se seguiram foram os piores já provados até o dia de hoje. Ver minha mãe lavando suas roupas, recolhendo os objetos que ele tinha com tanto carinho, os cds, os tênis, camisas, livros e vendo as lágrimas e o silêncio de minha mãe. Era uma aguda experiência de despreendimento e perda. Vasculhei com meu jeito de criança as suas coisas de jovem com seus 17 anos com o intuito de me consolar com seus resquícios, e encontrei detalhes de uma história que um dia você havia me confessado: o seu amor proibido na escola, a sua vontade de chegar ao vestibular, os seus amigos tão queridos por ti, as discussões com a mamãe... Tudo isso estava sob o toque mágico do encerramento e da finalização. O epílogo da sua existência havia chegado tão cedo e a eternidade já estava lhe sorrindo, desejando boas vindas!Algum tempo já se passou. Para mim, é claro. Você já está fora do tempo e não mais vive as restrições que ele nos impõe. (...) Às vezes, quando a saudade aperta, eu repito os mesmos versos que escrevi no meu coração no dia de sua morte, enquanto contemplava-te dormindo serenamente: "Leva o meu coração que eu fico com o seu. Eternamente. Até o dia em que a vida nos reabraçar." Fique com Deus, meu irmão Fabrício. Dê um beijo nele por mim!


* Texto reescrito em 2004.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Ao som de Enya .



Quando criança gostava de deitar no chão e ficar olhando as estrelas. Eu sempre fazia essa ponte imaginária entre o meu coração e a diversidade de estrelas que haviam no céu naquela noite. Meu sonho era ser astrônomo, embora eu não gostasse de física ou de cálculo algum. Era interessante deitar no chão, esquecer o meu ofício de menino solitário e descobrir em cada uma, um jeito simples de me sentir preenchido, acompanhado. As pessoas que eu mais amava, eram as pessoas que eu trazia personificada em cada estrela. Nada me acompanhara além daqueles que eu trazia no coração e a dança que a minha imaginação completava quando ao colo de alguma estrela me via. Eu nunca tive uma casa na árvore, mas eu tive o meu coração na infinitude do céu, na dimensão incansável do brilho das estrelas. Eu girava a minha cabeça lentamente e ao céu eu brincava de sentir. Nem uma bola me trouxera tamanho prazer! Era a arte de criança que eu trazia, por maior vontade que eu tivesse em contar prá mãe ou pro pai, eles diriam que isso era loucura. Não adentrariam à festa que acontecia quase todas as noites quando eu deitava na terra e era elevado ao céu. Porque existem verdades que são tocadas apenas por aqueles que a experimentam. O que eu não acredito talvez seja aquilo que eu não toquei com os meus sentidos. O amor é assim - acreditamos em sua existência quando somos tocados pelo brilho que ele proporciona. Eu era pequeno demais para entender as coisas da minha mãe, e ela grande demais para compreender os meus sabores de menino. O mais interessante é que a lua nunca me atraiu - eu odiava quando ela aparecia e tomava conta do céu. Bom era ligar os pontos do zodíaco, rir com as três marias e rezar no Cruzeiro do Sul. Recordo-me que um pouco mais crescido, bambino, ganhei uma agenda toda colorida e cheio de desenhos, curiosidades e envolto a tantas coisas havia uma tabela da chuva de meteoros. Eu marcava o dia e esperava que desse meia noite para eu ficar velando o céu. Às vezes demorava para que uma estrela cadente passasse - não podia piscar, era em fração de segundos que ela desfilava com sua calda reluzente. Se demorasse 50 minutos, por mais cansado que eu estivesse e impaciente, quando ela interrompia a normalidade do céu com sua agilidade e beleza, meu coração esquecia que eu havia esperado por tanto tempo e se ocupava em festejar a beleza do momento. A presença dela curava e me devolvia o entusiasmo perdido nos minutos de espera. A vida também é assim. Por mais longo que seja o tempo em que a dor permaneca em nós, por maior que seja o tempo em que a solidão anule nosssos sonhos, a presença de alguém que nos ama inaugura um novo ser em nós - um novo tempo e reestabelece a nossa alma. Por isso que às vezes é preciso esperar. Mesmo que haja a demora, o inesperado poderá imergir em nossa vida trazendo um novo sentido. Eu era tão pequeno pra entender essas coisas, e colocar em palavras. As incansáveis noites deitado no terraço de casa com os olhos fitados ao céu, e as longas esperas na calada da noite para ver uma estrela cadente riscar o céu foram ancoradas em algum lugar, algum quarto do meu coração e me gerido mais homem, mais humano para que hoje você pudesse ter a oportunidade de conhecer o que em palavras, o que em anos e anos sobrevivera na pauta dos mais secretos sentimentos. Não sou feito apenas de sonhos, mas de estrelas...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

d. estimação.





Eu gosto da Maria Adelaide.
Ela é bonita.
Ela mora no potinho.
Ela gosta de ler os livros de Caio Fernando Abreu.
Quando a noite chega, Maria Adelaide diz:
- Vamos ouvir Enya?
Maria Adelaide é leonina. Gosta de frutas e água.
Eita Adelaide sapeca!
Só dorme quando acaba a festa.

*

Joaninha é o nome popular de um insecto da família Coccinellidae. Os cocinelídeos possuem corpo semi-esférico, cabeça pequena, patas muito curtas e asas membranosas muito desenvolvidas, protegidas por uma carapaça quitinosa. Há cerca de 4500 espécies dentro deste grupo, distribuídas por 350 gêneros, distinguíveis pelos padrões de cores e pintas da carapaça.

As joaninhas são predadores no mundo dos insectos e alimentam-se de afídeos, moscas da fruta e outros tipos de insectos. Uma vez que a maioria das suas presas causa estragos às colheitas e plantações, as joaninhas são consideradas benéficas pelos agricultores.

*

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

A vida é linda, mas dói.



Não é sempre que tenho a possibilidade de aprender com a dor. Um sorriso custa muito caro. Talvez, vencimentos de noite de lágrimas. Gosto de conviver com pessoas que de alguma forma sofreram na vida - não é questão de sadomasoquismo, não! É que eu tenho aprendido que somente a experiência da dor pode despertar o que existe de mais real, mais verdadeiro em mim. Recordo-me de Jesus ao encontrar Maria Madalena lançada ao chão - ele não pediu a ela que se levantasse, ele se abaixou e escreveu a dedo no chão... A maior experiência não é sarar a dor, mas velá-la em sua explosão de ensinamentos. A felicidade ensina, sim. Ela abre portas, mas a dor prepara o coração para um sentimento mais verdadeiro, mais real. Quem me vê sorrindo, e talvez essa seja a minha marca, não imagina as dores que eu já tive que enfrentar. Não imaginam as dores que eu trago no peito. Como diria Caio Fernando: "Trago comigo um dragão. Ele mora dentro de mim". O que posso assegurar é que quando eu desperto ou lanço um sorriso é para: esconder a dor do momento ou para realmente demonstrar que eu estou feliz. A vida é linda, mas dói. A dor é necessária para a redenção do ser humano. A dor não foi feita para ser dopada, mas para ser encarada, mesmo que seja pelo choro, e assim compreendida. Existe uma exploração e banalização da dor na sociedade. Promessas que enchem os olhos dos indivíduos para ficarem "livre" "libertos" desse "mal". Talvez a maior liberdade seja a de se reconhecer um ser humano portador de dois bens: a dor e a alegria que proverá dela, mais madura, mais sólida. Não existe uma cultura de libertação, e sim de alienação ao que verdadeiramente o ser humano É. Perceba os detalhes, as esquinas que esses sentimentos despertam em você... Não tenha medo de assumir suas dores, nem ocultar os sabores que sua vida possuí. Um sorriso envolto de verdades é capaz de revelar o que exatamente a vida é: uma argila da melhor qualidade, mas que será moldada por nossas mãos.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

[sem título]




Meu fado, meu doce amigo
Meu grande consolador
Eu quero ouvir-te rezar,
Orações à minha dor!

Só no silêncio da noite
Vibrando perturbador,
Quantas almas não consolas
Nessa toada d'amor!

Cantando p'r uma voz pura
Eu quero ouvir-te também
P'r uma voz que me recorde
A doce voz do meu bem!

Pela calada da noite
Quando o luar é dolente
Eu quero ouvir essa voz
Docemente... docemente...

Florbela Espanca

Imagem.





reticências.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

O segredo.





"E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo. No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas? Será que o amor não começa quando o nojo, higiene ou qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também."

Pela noite/Estranhos Estrangeiros
Caio Fernando Abreu.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008


Alem da cama
Alcione
Composição: Michael Sullivan/ Carlos Colla








De amor eu não morro
O que eu posso
É chorar de saudade
Mas depois
Vou tentar refazer
Minha felicidade...

Entreguei
Minha vida a você
E você jogou fora
Fez de mim o que quis
Me usou
E depois foi embora...

Deixa o tempo passar
Você vai perceber
Que fazendo o que fez
Só jogou prá perder
Vai lembrar dos momentos
Que a gente viveu
Que ninguém
Te amou como eu...

Eu te quero além da cama
Eu te amo de verdade
É o lado mais puro
Mais angelical
É o cheiro, é a pele
É o lado animal...

Eu te quero além da cama
Eu te amo de verdade
As loucuras de amor
Que a gente já fez
Dava tudo de mim
Prá fazer outra vez...

E aí, pode ser
Que o meu mundo
Não tenha mudado
Mas também pode ser
Que outro alguém
Já esteja ao meu lado...

Escutando as palavras
De amor, que você me dizia
Desfrutando de todos os sonhos
Que eu te oferecia...

Ocupando o espaço
Que você deixou
Aceitando a paixão
Que você renegou
Eu ainda te amo
Eu te quero demais
Meu amor
Veja bem o que faz...

Eu te quero além da cama
Eu te amo de verdade
É o lado mais puro
Mais angelical
É o cheiro, é a pele
É o lado animal...

Eu te quero além da cama
Eu te amo de verdade
As loucuras de amor
Que eu quis te fazer
Dava tudo de mim
Prá fazer outra vez...

Eu te quero além da cama
Eu te amo de verdade
É o lado mais puro
Mais angelical
É o cheiro, é a pele
É o lado animal...

Eu te quero além da cama
Eu te amo de verdade
As loucuras de amor
Que eu quis te fazer
Dava tudo de mim
Prá fazer outra vez...

Eu te quero além da cama...

_____________________________
A música pode ser "brega", mas o meu sentimento não!

Rodrigo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O Indizível 2.



Um amigo em seu BLOG me fez repensar sobre o valor da ausência. Será que para nos sentirmos amados é preciso a presença? Estar longe do outro é sinal de falência dos sentimentos? Penso diferente! Embora eu esteja perto da família, dos amigos, dos colegas - nada disso garante o acesso ao amor que eu tenha por eles. Algumas pessoas estão bem próximas e não se amam. Quantos casais que vivem debaixo do mesmo teto e não se amam mais? Na ausência do outro o amor pode acontecer de forma geradora da Vida. Existem pessoas que eu nunca pude abraça-las pela força da distância, mas nunca deixaram de receber o amor que eu tenho por cada uma delas. Esse meu amigo amigo mesmo - nunca o encontrei, mas nunca deixei de amá-lo. É um tipo de amor platônico, sem toque, mas profundamente verdadeiro. A ausência relacionada a morte apenas aponta uma regra: você não poderá tocá-lo(a) mais, mas deixar de amá-lo, jamais. É que na vida, muita das vezes precisamos sentir a ausência para valorizarmos a presença. São outros quinhentos. A distância pode ser superada com um telefonema, um e-mail ou uma visita. O amor pode ser representado por qualquer um desses meios, até mesmo com um presente, porém a sua essência só poderá ser testada mediante o valor que você atribui às pessoas. Que na vida, o amor pelo outro, o valor da pessoa humana seja maior que qualquer atalho que as separam! Porque é assim, quando o outro vai embora é que a gente descobre o tamanho do espaço que ele ocupava em nós. A diferença não está pelo fato do outro estar longe, mas pelo o que ele foi e, é capaz de acrescentar em mim - ainda mais, pela capacidade que eu terei em esperá-lo.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008



"Uma imagem diz tudo, mas uma palavra diz muito mais. (...) Palavra e imagem se completam, não devem se anular. (...) Palavra. Morte e vida. Alfa e Ômega. Gênese e apocalipse. "No princípio era o verbo". No final, um substantivo: FIM" (Roberta Ramos, In Genese. ABL - 2005.)

Era apenas uma porta. Apenas um espaço conceitual para que um favor fosse realizado. Um telefone comunicando minha chegada, e uma voz revelando a disponibilidade do favor. Já dizia o poeta: "A felicidade têm porta certa." Concordo com ele. Ao tocar a campainha, fui desconsertado pelo real que se fez arte na voz e no sorriso de Dona Déa. Mulher simples, convincente e de sábias palavras. Foram poucas, mas o suficiente para eu entender que a vida vale a pena. Que a vida dá certo quando há empenho. Troquei algumas palavras, e me senti à beira da calçada tecendo o poema vital com Adélia Prado, que de prado tinha a filha revelada de forma tão simples pela boca santa de D. Déa: "Ela tá tão feliz lá!" - no prado de Dona Déa, eu vi o sorriso de Deus. Quando os filhos saem de casa, a mãe é capaz de reuní-los e retê-los no olhar e no sorriso. Foi neles que reencontrei uma amiga e indentifiquei nos olhos e no sorriso de Dona Déa, o olhar e o sorriso da Roberta. Nos braços cansados de ninar a poesia viva que mora em algum canto de São Paulo, me senti ninado no colo da vida. Nem os teóricos, nem todo conhecimento adquirido na faculdade me ensinou de forma tão cotidiana, o enredo da fragilidade da vida. Confesso: Dona Déa me ressuscitou com sua forma de acolhimento e hoje tive plena certeza que a poesia é viva, mora na rua da Misericórdia numa casa com número 15. "No princípio era o verbo". No meio, outro verbo: Persistir. Na eternidade, um nome próprio, próprio de quem sabe amar: Déa.



Tempo de Amor (Samba do Veloso)
Monica Salmaso
Composição: Baden Powell e Vinícius de Moraes


Ah, bem melhor seria
Poder viver em paz
Sem ter que sofrer
Sem ter que chorar
Sem ter que querer
Sem ter que se dar

Mas tem que sofrer
Mas tem que chorar
Mas tem que querer
Pra poder amar

Ah, mundo enganador
Paz não quer mais dizer amor

Ah, não existe
Coisa mais triste que ter paz
E se arrepender
E se conformar
E se proteger
De um amor a mais

O tempo de amor
É tempo de dor
O tempo de paz
Não faz nem desfaz
Ah, que não seja meu
O mundo onde o amor morreu.

domingo, 6 de janeiro de 2008

[ Ao som de La Solitudine. ]



O céu já não têm o mesmo brilho, nem fogos... A noite virou noite e o dia pleno para a tarefa do trabalho. Praias vazias, lixos, flores brancas ancoradas em algum canto do mar ou levada para o oceano repleta de intenções. Passamos por uma noite de brilhos. Mas eles se apagaram. O que resta está na porta da geladeira, lotando as gavetas ou as prateleiras. As promessas começaram a falhar... Tive que animar e resgatá-las na vida de alguns amigos que conversei pela internet. Pois é, a vida não requer mágica para que se transforme. Viver requer esforço e para que as promessas se realizem é preciso comprometimento! As promessas não foram com as flores lançadas ao mar - elas ficaram ancoradas no teu coração. Estamos no 6º dia de um ano NOVO pela frente. Não se prenda nas simpatias, nem nas flores que se foram. Seja forte o suficiente para perceber a capacidade de fazer germinar as promessas que estão em algum lugar do seu coração. Já não há o brilho do dia primeiro, mas existe o brilho do cotidiano que passa, que surge como um menino a pular e a sorrir - dizendo que a vida é forte, frágil. O mar devolve em pérola o que em flores você lançou. Q essa pérola que se chama "persistência" brilhe e faça acontecer um 2008 inesquecível. Se existe promessa é porque existe realização, para que no próximo ano não seja apenas lançanda ao mar, flores, mas aos céus agradecimentos...

sábado, 5 de janeiro de 2008

( Para ler ao som de Enya. )





Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra. Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés daquelas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.). E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você - seria, seriam? Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam umas nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta o meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito pudor de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos meio tudo isso, não tem jeito, é tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olívia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Win Wenders, mais Cecília Meireles que Nelson Rodrigues. Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca minha mão, eu toco na sua. Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente, mas penso tanto em você que na hora de dormir vezemquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo.


Caio Fernando Abreu

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"Preciso de alguém que tanto amo e nunca encontrei."

Caio Fernando Abreu .




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sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

E agora?




Hoje é o 4º dia do ano de 2008. Ainda há vinho sobre o chão, alguns livros espalhados no quarto e uma calça jeans lançada ao chão. Ainda há resquícios de um ano que me deixou marcas profundas - feridas abertas que ainda sangram. Tudo é muito recente para mim: as promessas feitas, os amigos novos e esses quatro dias injetados em minha veia de forma vital. Enquanto vou sendo preenchido pela esperança de um ano mais bonito e menos duro, minhas feridas vão sendo lavadas... Recordo-me quando pequeno - Era gostoso chegar da escola, comer algo e ir para a rua brincar de viver. Difícil era o dia em que eu não voltava com algum machucado, alguma ferida. O meu maior medo não era apanhar de minha mãe, o medo que eu trazia era de ter que tomar banho e lavar a ferida. Na vida também é assim. A gente se entrega, se ilude e as feridas se formam. Colocamos um "pano quente" e deixamos que a situação piore, e a dor só vai aumentando, aumentando e a gente se torna infeliz. Machucado só se cura com água e sabão, minha mãe dizia. É preciso passar a buxa (eu odiava aquelas que davam no quintal de casa, ôh troço duro!)e tirar todo excesso que pudesse me contaminar.

Eu não descobri o tamanho da ferida. Mas tenho descoberto o tamanho da dor. Q 2008 seja de água, que 2008 seja de sabão, seja de abraço, seja de colo de mãe. Q o meu quarto não seja lugar de espera, nem de solidão - mas de encontro com o definitivo... definitivo jeito de amar e acolher o amor.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Instante .





"(Silêncio)

-Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
-Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
-Vou te escrever carta e não te mandar.
-Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
-Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
-Vou ver Saturno e me lembrar de você.
-Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
-O tempo não existe.
-O tempo existe, sim, e devora.
-Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
-Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
-E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.

(Silêncio)"

Caio F.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

O coração .


Deus resolveu me surpreender com alguns presentes neste natal e virada do ano. Eu que pensei que passaria ambos com os mesmos sentimentos, sem surpresa ou sem o inesperado batendo à minha porta. Mas não - de alguns dias pra cá me vejo com 1 novo amigo, uma paixão e o significado do coração humano palpitando em minhas mãos. Presentes que configuram e passam pelo traço da vida humana. São humanos, solos sagrados que só posso pisar com o amor. É aí que descubro a fragilidade que possuo e o jeito peculiar de lhe dar com as situações do cotidiano. Choro quando perco, quando me distancio de alguém que um dia eu amei - mas eu celebro quando as surpresas boas acontecem e é no abraço que eu as acolho. Santa Teresa D´Ávila tinha uma frase que dá nome ao que trago no peito, hoje - ela dizia: "Deus sempre me fez desejar aquilo que Ele sempre quis me dar". O que tenho hoje cabe em minhas mãos. Talvez seja o necessário para começar bem o ano: um amigo, um amor e um aprendizado. Eu não sei pra onde irei, apenas estou no caminho.

Meu peito arde, a minha saudade evoca a lembrança de alguém que chegou tão mansinho e ocupou um dos lugares mais reservados do meu coração. Meu peito arde, minha saudade evoca e o aprendizado humano acontece, bem aí, no diálogo da precariedade da vida humana.


Um amigo que veio e me retirou de toda ciência humana e suas formúlas prontas de interpretação; um coração apaixonado que trouxe uma sensibilidade capaz de encontrar o outro em meio a dor, lugar de encontro, pura revelação. Um coração só se sente amado, depois de conhecido e acolhido. E é por isso que jogo por terra toda pretensão de ser o melhor, mas pra cada um, diferente. Que mesmo no silêncio, o meu amigo compreenda a mudança que ele provocou em mim, e o meu amor o novo sentido que ganhei para acreditar nos sonhos, e por último que o aprendizado acrescente em mim tamanha beleza. É no amor, somente nele e por ele que o coração humano descansa sem precisar representar nada. Ele é o que pode ser, nada mais.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

A realidade dos poetas.

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Odeio escrever por encomenda. Acho que escrevo melhor quando me 'dá um estalo'. Normalmente tenho idéias para textos nas horas mais inusitadas. Mas não poderia recusar o pedido de um amigo como o Rodrigo. E sobre o que me pede pra escrever? Sobre a realidade dos poetas. Mas eu não sou um poeta. Nunca tive muito talento para poesias. Métrica, rima não são o meu forte. Escrevo por hobby, diversão. Mas será que os poetas também não escrevem por isso? Lembro-me da famosa citação de Fernando Pessoa:

"O poeta é um fingidor. Finge tão perfeitamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente."

Realmente é isso. Quem escreve, em geral, é um grande fingidor. Inventa pessoas, cria histórias, desilusões, amores possíveis e impossíveis. Em prosa ou verso, descreve as amarguras da vida, os anseios, desejos, vontades. Transporta suas frustrações para personagens. Ou simplesmente lança emoções à esmo. Artigos, adjetivos, substantivos, pronomes. Meros vocábulos que nas mãos de um poeta ou escritor ganham vida e conseguem mexer com as emoções do leitor. Sentimos raiva, ternura, compaixão. Nos colocamos no lugar de quem escreveu aquele poema, aquele texto e procuramos sentir o que ele passava ao escrever aquilo. O que o motivou, o que o fez descrever tal acontecimento?

E quem pode garantir que ele apenas não tenha começado a digitar e saiu aquele texto? Ele estava sem nada para fazer, sentou na frente do computador, começou a digitar e quando se deu conta, um belo texto estava pronto. Será que Drummond, Quintana, Shakespeare se preocupavam com o que o leitor pensaria ao lê-los? Será que se torturavam ao não conseguir a rima perfeita, a frase de impacto?

Pode ser que um dia, caminhando pela rua, Drummond encontrou uma pedra pela frente. E ele pensou: '-Droga, tem uma pedra no meio do caminho!'. Chegou em casa, começou a escrever, mas a maldita pedra não saía de sua cabeça... 'Tinha uma pedra no meio do caminho/ No meio do caminha tinha uma pedra..." Pronto! Nascia uma clássico. E tudo por causa de uma pedra no meio do caminho do Drummond. Posso estar viajando, mas quem me garante que não foi por isso? Para mim, os escritores, poetas, autores, são pessoas comuns. Comuns até demais. Tão comuns, que acham suas vidas tão simples, que acabam criando histórias, personagens, verdadeiros universos. E somos brindados com poemas, poesias, crônicas, contos, livros, novelas...

Ou quem sabe, fazem parte de uma espécie mais evoluída, que através de mensagens subliminares querem distorcer suas idéias e estejam com um plano para dominar o mundo. Mas quer saber? Quem escreve é apenas um maluco. Um maluco que exercita sua loucura através das palavras.

E há ainda a última hipótese:

Maluco é você. Você que lê tudo isso que é escrito por esse bando de loucos. Você, que leu esse texto louco, feito por encomenda.

Leandro Faria Chaves, 03/04/2004


* Observação do autor do BLOG: "Lembrando que a metáfora "pedra" a que Drummond se referia era um morro que tinha no caminho que ele passava p/ ir à escola. No meio do caminho, o morro."