sábado, 4 de agosto de 2007

Derramando palavras I.

Aproveitei a noite anterior para ler Machado de Assis – “A mão e a luva”. Estou ansioso para ler o final. Guiomar, personagem do enredo, mulher paparicada pelos cuidados da madrinha, cercada de luxo e, ao mesmo tempo de um ego que não a deixa se envolver amorosamente.

Estevão, homem ancorado nos sentimentos do passado. Bem, não pretendo fazer um resumo da obra – fora de pretexto. Lendo essas histórias me soam como algo surreal, imaginário. Algo como tecer um conto de fadas e acreditar nele. O ser humano tem essa tendência; de amar o ilusório. Sonho nem sempre é ilusão e, ilusão é bem diferente de sonho. Percebo até que ponto o homem pode chegar a se arrastar por um amor. Eu sei que os tempos mudam, que as cidades crescem e os meios se afloram, e os séculos avançam como uma águia com fome e sede. Na leitura, por hora me senti como Estevão, não revogando um amor antigo, mas sentindo na pele o que é amar alguém que de certa forma, não merece o meu amor. Antigamente os amores eram mais sagrados. As promessas eram realizadas, os diálogos curtos, mas profundos, tocantes, quase vidro fino que, se apertasse um pouco além viraria cacos. Uma palavra bem dita para não ferir e, ornamentar os sonhos que o casal tivera. Cenário? A não ser o portão de casa com hora marcada para entrar ou a sala, lugar de conversar e apenas um toque de mão. O amor era sagrado e sacramentado nas relações.

Por que hoje não? Gostaria de acreditar neste sonho. O amor tornou-se ilusão. As uniões rápidas e descartáveis, os olhares sedutores como passaporte para a cama. Os amores roçam, mas não entrelaçam, não formam um elo, não se encontram. As relações se tornaram cansativas, apelativas e vazias. Infelizmente a essência dos humanos, também. Vive-se numa sociedade com mais recursos, mais dinâmicos, acessíveis e, porém bem mais solitária.

Ouvindo um filósofo – Gilles Lipov. num programa de TV, canal Futura, ele defendia a tese de que existem coisas na vida que não pode avançar e nem acompanhar o progresso. São coisas que necessitam de tempo para serem o que são. Coisas que aspiram um percurso demorado para se aperfeiçoarem e, essas coisas jamais poderão acompanhar o avanço globalizado. Creio eu, que o amor seja uma dessas coisas. Amor instantâneo pode não dar certo. O amor precisa de cuidados, de apreciação, tempo, água, adubo, calor, ventania... E essas coisas não acontecem de uma só vez. No século XX, numa sociedade contemporânea existe a “urgência do presente” mas infelizmente o “mal-estar da sociedade”.

Não quero roubar o seu tempo derramando palavras com receita mágica de como conseguir alcançar êxito no amor e, muito menos fazer do meu espaço, que é um lugar tão simples, de posto de auto-ajuda. Não é Santa Casa de Misericórdia, não senhor (a)! E muito menos Paulo Coelho, do qual, não tenho estima alguma. Quero apenas dizer que na vida, nem tudo que vem fácil, fica. Não sejamos a personagem Guiomar da História, nem o apaixonado Estevão, nem o acessível Jorge... Sejamos nós mesmos, sem hipocrisia, máscaras ou qualquer outro meio que, empoeiram a verdadeira face do ser humano. Sejamos construtores do nosso próprio enredo e merecedores do nosso próprio entendimento.

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