domingo, 30 de dezembro de 2007

Uma leitura do cotidiano




UTOPIA

Composição: Pe. Zezinho

Das muitas coisas
Do meu tempo de criança
Guardo vivo na lembrança
O aconchego de meu lar
No fim da tarde
Quando tudo se aquietava
A família se ajuntava
Lá no alpendre a conversar

Meus pais não tinham
Nem escola e nem dinheiro
Todo dia o ano inteiro
Trabalhavam sem parar
Faltava tudo
Mas a gente nem ligava
O importante não faltava
Seu sorriso, seu olhar

Eu tantas vezes
Vi meu pai chegar cansado
Mas aquilo era sagrado
Um por um ele afagava
E perguntava
Quem fizera estrepolia
E mamãe nos defendia
E tudo aos poucos se ajeitava

O sol se punha
A viola alguém trazia
Todo mundo então queria
Ver papai cantar pra gente
Desafinado
Meio rouco e voz cansada
Ele cantava mil toadas
Seu olhar no sol poente

O tempo passa
E eu vejo a maravilha
De se ter uma família
Enquanto muitos não a tem
Agora falam
Do desquite, do divórcio
O amor virou consórcio
Compromisso de ninguém

Há tantos filhos
Que bem mais do que um palácio
Gostariam de um abraço
E do carinho de seus pais
Se os pais se amassem
O divórcio não viria
Chame a isso de utopia
Eu a isso chamo paz.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

conjugações .



A maior experiência que um homem pode viver é aquela que ele tocou com o coração. Não existe fração certa, nem conta errada - o que existe são verdades que não povoam todos os corações, igualitariamente. Tenho aprendido na provação dos acontecimentos. São curvas que me calam, chão que me abusa, terra molhada de chuva que me assedia. A vida e suas cores, eu e o meu descolir diário. Aprendi ao longo da minha vida que a simplicidade é a expressão mais aprimorada da beleza. Não preciso de representação para que o outro me ame, a essência por si, basta e cala.

Deparo-me com dores maiores. Mergulho no coração das mães de Pietá, envoltas de solidão e sangue, ancorando o último suspiro do filho morto. Recolher o filho do chão, aconchegá-lo ao colo e despedir-se dele definitivamente. A crueza da cena é uma proposta ao silêncio. Arranca-me do mundo das palavras, das respostas prontas e faz-me sentar ao chão, ao lado da mãe, para que eu possa ouvir sua respiraçao ofegante de dor. Arranca-me dos meus livros, da minha ciências humanas sistematizada e convida-me a sujar-me na terra do calvário, onde o sangue do filho mistura-se às lágrimas da mãe.

Enquanto as luzes desse tempo brilham em suas mais diversas cores, a vida grita sobrevivência no peito da mulher e nas mãos calejadas do lavrador. Não nasci político para revolucionar a terra com justiça, mas nasci humano para desconsertar o mundo com amor.

O tempo escorre, a flor cumpre o ritual de se mostrar com suas belezas envoltas de magia, a humanidade segue, os vulcões explodem, as águas inundam, e o território para o verbo "amar" ser conjugado aumenta. Sou humano demais para compreender.

O meu sofrimento perde a sua força quando eu o coloco ao lado dessa mulher, mulher de Pietá. E nisso já está a ressurreição do seu filho. Esta dor nos ensina e nos coloca no rumo da sabedoria.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Garimpeiro



A manhã está pronta para iluminar as mãos do pequeno garimpeiro - mãos quentes que despertam com os primeiros raios de sol. Ainda é madruga e existe uma estrela a ensaiar sua dança de despedida na imensidão da infinitude azul. A estrela dorme para o garimpeiro sonhar. Enquanto o corpo com seu jingado de trabalho árduo, sob o sol quente do dia, cumpre o ritual de garantir a sobrevivência, a alma desprende-se do pequeno cárcere marcado pelas rugas do tempo, e no vôo da imaginação, lança fora toda incapacidade de permanecer para sempre, ali. O suor do homem se mistura ao doce do rio, pequenos instantes que os fazem UM na missão de tirar da areia bruta da vida, os pequenos diamantes com esplendor de vida. Enquanto o garimpeiro lança fora todo matéria bruta da vida, aos poucos vai esfolando sua própria história, se enraizando à beira do mesmo rio, e ali, deixando o brilho do maior tesouro reluzir em seus olhos cansados, mas ancorados de pura e terna essência. Porque a vida é assim, lugar de garimpar o que é essencial - retirando todo excesso de superficialidade que existe no excesso dos brilhos, estes que não permitem ao homem enxergar o que a força da vida exerce. Já é tarde, o sol dá lugar às sombras da noite - serão elas que darão paz ao ofício de viver. O seu cotidiano é a matéria-prima do seu poema. Não me entusiasmo. Apenas o observo em seu sabor de silêncio - já é noite, e o que ele possui é apenas uma vela acesa no canto da casa, em louvor a Iemanjá.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Lição de casa .




Hoje a dor não localizada resolveu me visitar. Ancorar nas veias, arder no peito e me levar a escolher o silêncio como a única canção capaz de me acompanhar nesta solidão. Janela fechada, chuva caindo e a vida seguindo seu destino em mim.
Vivi uma semana muito corrida; estágios, monografia para concluir e a saudade para parir. Talvez essa dor, seja por ser o primeiro dia em que oficialmente eu acordei professor. Ontem na faculdade, eu não quis me despedir - dói tanto despedir daqueles que jamais morrerão em mim - aqueles que eu aprendi a amar. E aí, eu paro e procuro respostas no silêncio que grita, promulgando essa inquietude e ardência no peito. Mais que a profissão, eu trago o aprendizado que não aprendi em livros e nem em sala de aula, mas no convívio com alguns amigos. Ensinamentos que me fizeram ser mais gente. Ensinamentos que me educaram, me podaram, raspando as feridas da minha alma e me fazendo melhor. Sabe, eu não sei se eu estou melhor - seria pretensão da minha parte dizer que "estou" melhor. Não, não... mas posso te assegurar que estou mais humano. Eu havia pensado que já tinha o marco da faculdade como sabedoria, mas não - eu me convenci do contrário quando entreguei um livro ( que eu sou co-autor ) pra uma grande professora e amiga, e ela chorou quando o recebeu - metafóricamente, eu cai por terra quando me deparei com essa cena. Eu me senti amado - de uma forma diferente, nem o português, nem a literatura me proporcionou sabedoria maior. ( . . . ) Sabedoria que é tecida na carne das relações, no cheiro, no convívio, no toque, no incentivo. Um dia ela soube me cativar, e a dar uma novo sentido em minha vida, por meio do incentivo. Deu certo, aquela hora eu não entregava apenas o livro, mas o homem novo que ela ajudou a refazer.
O curso não terminou em mim. Ele continua ressoando. E enquanto eu viver, quero a graça de me recordar daquele acontecimento. Eu que pensei que já levara comigo as causas de meus louvores, de repente, ali, fui surpreendido pela voz de Deus nas lágrimas silenciosos da Ana. Não, não havia som naquele gesto. O que havia era o grito da vida sussurrado no meio do grito da minha.
Queria ter tido a força de olhar nos olhos dela e dizer: Professora, você salvou a minha vida!Eu te amo.
Janela fechada, chuva caindo e o amor, personificado em Ana se revelando a mim.

Porque é assim: quando o outro vai embora é que a gente descobre o tamanho do espaço que ele ocupava em nós.


"Salvar a vida de alguém é um jeito bonito que a gente tem de salvar a vida da
gente".