sábado, 28 de novembro de 2009

Iluminar.



A única escada que dá acesso ao de melhor que tenho é a verdade no outro. Mentirosos fracassam ao tentarem me subornar. A responsabilidade que emito ao tratar do amor é forte e pesa quando as mãos alheias suportam apenas o peso leve e fraco da mentira que os escravizam os apelidando de espertos.

A gente vive a vida achando que todos deveriam suprir as nossas carências e preencher o espaço imenso que mede a nossa alma. Colecionamos encontros e criamos expectativas diante daquilo que o outro pode nos oferecer. A decepção acontece justamente quando o lado de lá não supri o necessário para nos sentirmos bem e felizes. É auto reprovação. Medimos nosso valor pelo valor que dão a nós... Não, a vida não é assim. E o outro não é Deus e nem dono do mais íntimo que existe nos avessos de nossa alma. O outro pode nos acrescentar coisas boas, ou não, mas não pode mensurar o tamanho e nem o valor da nossa essência. A única pessoa que pode medir o valor que temos somos nós mesmos. O que virá de fora é reflexo daquilo que emitimos. Quando alguém não nos preenche é sinal de que somos tão mais e tão maior, que o outro se mostrou pequeno demais nesse espaço absurdo que temos na alma. O problema não fora falta de qualidades, mas o tamanho que o outro possuía em nós - de tão pequeno e insignificante, não soube contribuir para que os bons sentimentos fossem redobrados e tomassem a extensão da nossa alma. É semeadura falida.

Há pessoas que fazem um barulho imenso no grande eco de suas próprias vozes. Pessoas que se acostumaram com a volta e não experimentaram o milagre do encontro definitivo. Todo aquele que vai em direção ao outro com honestidade, de certa forma exerce o amor. Ilumina.

A alma de quem é honesto é infinita e só é preenchida com outra alma honesta. Por isso, não espere de qualquer um esse ato heróico do amor. Amor é dom de todos, mas em atividade por bem poucos. Espere alguma coisa de quem realmente merece o teu olhar. Não passe a vida derramando o teu olhar silencioso diante daqueles que apenas admiram você. Admirar não é o mesmo que amar. Quem passa a vida inteira querendo ganhar o mundo, não cria raízes de homem na alma. E homem precisa de raízes que revelam a essência de alguém que acreditou em si mesmo e semeou o bem. Solidão não é sinônimo de fracasso. Solidão, muita das vezes, é realidade de quem não quer qualquer um perto de si. Há aqueles que fazem barulho demais e passam rápido. Há outros que nos conquistam com o silêncio certo e a palavra bem dita e, nos surpreendem quando nos damos conta de que eles já moram dentro de nós.

Permita levar para dentro de si, apenas as pessoas que amanhecem você. Gente que insiste em estender a noite são as que menos precisamos. Noite é passagem - quando é feita como extensão de vida é derrota. E somos da Luz. Queira a Luz. Queira amanhecer no coração de quem o espera. Precisamos de pessoas que nos acompanham na travessia da noite e permanecem ao nosso lado no amanhecer poético de um novo dia.

Muitos já passaram pela minha vida. Mas poucos suportaram a luz do meu caráter para permanecerem.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Ninhos.



Encontrar o outro não é tão difícil. O grande erro seja fazer o ninho em lugares impróprios. Deixa-se de lado a demora no olhar, em troca do aceleramento do abraço vazio, dos amassos ilsuórios e o que mais existir de necessário para celebrar e suprir o ardor da pele. Festa que acaba antes do sol amanhecer, deixando rastros de prazer que se evaporam, como as gotas da chuva ao encararem as forças do sol.

Os pássaros escolhem o lugar mais discreto e escondido para gerarem vida, despertarem calor, marcarem presença junto ao outro. Não existe passagem avulsas de coisas, nem o incômodo da mão do vento a levá-los embora. O que existe é a verdade do lugar certo para o encontro definitivo. Depois eles voam livres porque foram gerados no lugar certo e cresceram saudáveis.

Os amantes deveriam aprender que ninguém faz ninho no corpo, o movimento nele é grande e passageiro. Os ninhos são feitos no olhar.

domingo, 25 de outubro de 2009

Vento, amor e balões.


Amor é o sopro do outro que nos leva a voar. É felicidade certeira que inaugura alguns quartos dentro do coração da gente que até então eram escuros e não contemplavam o sol. Amor é o sopro que nos arranca da superficialidade da vida e nos mostra a beleza da vida lá do alto das nuvens. Amor é o convite que o outro nos faz a sermos melhores, sempre. É a reinauguração de quem somos, não o se fantasiar para o outro acreditar em mim. Amor é sopro que retira as mentiras que plantaram em nós, é a devolução do valor que temos pelo que somos, nada mais. Só assim o coração descansa porque já não precisa representar nada. Ele é o que pode. Amor é sopro do outro que nos resgata do meio das pedras um dia lançadas a nós ... é olhar demorado que não cause alarde, mas acalma. É sorriso em horas certas que nos desconcertam. Amor é giz e lousa, amor é escola ... aprendizado necessário de cada dia. Quem não suporta aprender, tampouco poderá ouvir o amor. Amor é sopro que nos faz reacreditar no desejo de voltar, recomeçar, reaprender. Amor é vento que abre a porta sempre à espera do outro chegar - mesmo que as recaídas o deixar triste, e suas feridas forem difíceis de serem curadas, mas o verdadeiro amor espera sempre pelo outro - é varanda acesa e mesa pronta na madrugada.
Amor é sopro de boca humana que ama. Sopro que varre, traz o sol num dia frio de inverno, emana palavras de amor em qualquer instante só para ver o outro sorrindo. Sopro arranca as gaiolas - sentimento sagrado que não combina com prisão, porque um dia liberto não voltará. Amor é sopro que encosta os dois corpos, que beijam a mesma face, que acalenta a mágoa em comum, que alivia a febre em noites de doença... Amor é sopro que junta as duas lágrimas e as absorve em prece como incenso ao Coração de Deus.
Se o amor que você diz ter do outro é um vento que tem passado e destruído sua vida, e que no chão tem diariamente te lançado, fuja num balão bem alto - porque o teu desejo de ser amado é o combustível que fará o teu balão subir... E lá do alto, quando encontrares um vento que te renove, saia de si mesmo e tenha coragem de voar com ele para lugares antes nunca visto. Porque vento que arrebata, destroí - amor que não promove, mata.

Rodrigo .

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A sua chegada.


Na noite passada o pé de amor que morava em mim, há um bom tempo, floriu.

Rodrigo.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A corda que me acorda.



O Círio de Nazaré é uma das festas mais comoventes do povo de Belém do Pará. Festividade que arrasta multidões às ruas e, assim, celebram o Cristo que vem no colo de Nossa Senhora de Nazaré, rodeada por uma longa CORDA. Agarrados a ela, vão os devotos, com impressionantes atitudes de sacrifício e de fé.

Enquanto eu via o povo a segurar firme a corda, quase invisível em meio a multidão, percebia dentro de mim que enquanto ela desaparecia naquele mar de gente, ela aparecia dentro da minha alma. Forma bonita de acreditar que o bem mora dentro de nós. E que basta um toque, uma descoberta precisa, um pouco de vontade para compreeender o interior, como lugar precioso que Deus tem como predileção para poetizar. E vendo o Círio, Deus poetizou em mim.

Fiquei a pensar na Corda que cotidianamente a Vida transpassa em mim. Ainda que eu tenha todas as razões para sofrer, eu não posso ter razão alguma para desistir. A corda é Deus, e Deus de alguma maneira, mora dentro de mim.

Não sei qual é o vento que te faz cair. Não sei qual é a sala escura que você tem vivido os seus dias, com a dança fria do vento acendiando as gotas de chuva lá fora, tudo solidão. O que sei é que essa corda existe dentro de você. E talvez seja necessário enfrentar uma multidão de medos, traumas e dores para que você chegue até ela. O que a Vida quer de todos nós, é coragem - não para enfrentar o mundo, mas para enfrentar os avessos que possuimos.

A multidão pode ser o cansaço, as dores em coro na alma, o abandono sentado à beira da sua essência, as cinzas que não param de cair, tirando as poucas cores que ainda há em você... ou aquela que está guardada em alguma curva da sua alma e que você a vê de longe, sem ter a coragem de mudar o caminho.

A multidão um dia foi a pedra no meio do caminho para Drummond. E de obstáculo, se tornou caminho para a poesia. Hoje, a pedra que mais pesa, pode ser matéria de aprendizado e um dia, recordação de vitória.

Recomeçar - é mais que uma palavra. E mais que um verbo, é a trajetória que hoje temos diante dos olhos. Não desista de você. Não desista daquele que você ama. Não desista da vida. Ainda que em meio a tantas multidões que te sufocam, mantenham os olhos fixos na essência boa que Deus um dia plantou em você. Descobrí-la, só você pode fazer.

Agora é noite aqui, mas falo de manhã. Agora é silêncio, mas falo de ressurreição.

O Círio me fez enxergar, a corda em forma de bilhete, que um dia Deus esqueceu de propósito em mim, para que eu unindo o artigo definido "a" ao substantivo "corda", descobrisse a mensagem : "Acorda". E assim, ressuscitasse mais uma vez ao amanhecer.

sábado, 10 de outubro de 2009

O moço tecelão.


Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.
Marina Colasanti.

Fui surpreendido por um grande amigo com o conto: "A moça tecelã". Não me contive quando comecei a saborear as primeiras linhas desse texto. Cada palavra acordava dentro de mim o que eu eu acabara de viver nos últimos meses. Vida que se cumpriu com cores e novelos diversos. Vida que se firmou com suas cores em tons amarelados e com novelos cor de cinzas. Quando a gente ama é assim. Preparamos o melhor tear, escolhemos as melhores cores, ensaiamos os melhores tons e, assim, tecemos o grande tecido que nos protegerá do frio nas noites em que o ar der as mãos para o movimento e assim dançarem embrigados ventando ao tempo.

Vejo-me como um moço tecelão. Escolhendo com sabedoria as melhores cores, exigindo o melhor tear e subindo o mais alto que posso alcançar em mim.

Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.


Fui tecendo os fios que saiam do meu peito e depositando no amor o que era propício para não sentir frio e nem a ausência de cores que alegrariam a minha alma. Depois de um tempo, me senti na necessidade de parar o grande tecido e recomeçá-lo. Eu já não era feliz tecendo a fantasia. Eu precisava era tecer a realidade.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.


Eu desteci os projetos feitos, a ousadia premiada, a confiança cega e parei de sentir frio quando pecebi que tecia para o outro, além de mim, e tudo o que saía do meu tecer era precioso demais para ser abrigado em potes de barro. É como depositar sonhos num pote pequeno demais que não suportaria tamanha responsabilidade e, assim, racharia em cacos ou esnobaria como supérfluo o que ele nunca conhecera no reino da mentira. É que boa intenção só funciona quando a parte de lá é possuidora dessas virtudes.

Amor só funciona quando o tecido cobre para aquecer e descobre para revelar. Mentiras não suportariam tal artesanato.

A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.


Em mãos escolho a linha mais branda, e me passo devagar entre os fios que plenos de luz, me levam à essência primeira, o mesmo lugar que teceu-me nas linhas do caráter e me leva a ser sempre, o moço tecelão - tecendo virtudes e combinando as cores do amor com as linhas da verdade.

Quem usa os fios da verdade, terá sempre o dom de recomeçá-los em novos corações. Mas quem usa os fios da mentira, se tornarão prisioneiros em seus próprios teares.


Qual é o tecido que precisa ser desfeito para você voltar a ser feliz? Mais vale desfazê-lo com dor, do que viver sem amor.

Rodrigo.

sábado, 3 de outubro de 2009

Laçar a si mesmo.


Estamos no meio de um grande rodeio. É hora de recolher todos os ensinamentos práticos para que o equilíbrio seja o maior possível em cima do bicho, do touro. Relembrar as inúmeras horas de aprendizado, ter boa disposição e concentrar o foco na vitória. O material, as amarrações, os detalhes precisam ser fortes - uma falha se quer, pode estragar a festa.

Nunca alguém me fez pensar que a vida é esse grande rodeio.
Dias que passamos a recolher os ensinamentos, outros mais brandos com o descanso necessário, no entanto outros em profundo silêncios. Preparação contínua que nos capacitará para o grande dia que exijirá um esforço maior, ou quem sabe, todos os ensinamentos agregados.
No último mês as porteiras do grande embate se abriu para mim. Precisei recolher rapidamente o que aprendi para enfrentar o grande touro. A única informação que eu tinha sobre ele a me esperar no meio do campo, era o nome: provação.

Ele estava ali, parado, sem causar nenhum alarde. Me olhando com os seus olhos fixos e certo do que haveria de fazer em mim. Vi o desespero na face daqueles a quem amo tanto, do lado de dentro da porteira. Ali, carreguava, mais que todos os ensinamentos agregado em mim - eles costumam sumir no desespero, carregava a fome de fazer a vida sobreviver no coração da minha irmã que acabara de receber um diagnóstico sério e preocupante.

Enquanto eu olhava para os olhos daquele grande bicho, eu tive medo. Precisei morrer em cada choro, precisei ser forte para carregar no ombro a minha própria casa, até então feliz, agora assustada pela força do vento...

Comecei a caminhar, lembro que não ouvia plateia alguma e nem gritos ao meu redor. O silêncio era o que mais pesava em mim. Quanto mais eu caminhava, mais os dias passavam! O bicho era difícil de ser alcançado, embora estivesse o tempo todo olhando para mim. É que olhar para ser alcançado não mede distância, é questão de direção e querer alcançar o outro.

A cada peso dos passos dado, uma estrela repousava sobre as minhas mãos e me fazia acompanhado. No meio do caminho, olhar para trás seria sinônimo de fracasso. No entanto, antes de pisar na arena, recolhi todos os que eu amava dentro de mim, os acomodei no melhor que existia dentro do meu coração e ali, silenciosos, me sustentaram em cada passo dado.
É que às vezes, silêncio e boa presença costumam nos manter vivos, ainda que a morte tente morar em nós. Família dentro da gente é casa acesa, mesa posta e lua necessária numa noite em que as estrelas precisam descansar.
Recordo-me que adormeci no caminho, era dor. Recordo-me que já não sentia medo, era amor. Foi só aí que ao olhar para frente, bem perto do grande bicho, ele se aproximou a alguns passos de mim e disse baixinho: "Pode voltar. Enquanto você sentia medo, eu era o bicho, agora que você aprendeu o que é amor, eu sou apenas mais um aprendizado."

Viver é estar constantemente diante do novo que poderá ser bicho de longe, ou ensinamento de perto. Qual é o touro que te espera ao longe?

Rodrigo .

terça-feira, 21 de julho de 2009

O fruto do Chico.


Chico. disse...
"Olá,
Faz tempo que leio o seu blog, e sempre me encanto!
Mas hoje, decidi comentar! Suas palavras são sensíveis, seu texto é muito bem estruturado!
Utopia é achar que não se pode colocar sentimentos em palavras, porque você faz isso com perfeito êxito!
Parabéns pelo blog!"

Respondo:

O mais bonito nos textos que escrevemos é que eles viram sementes nos corações desconhecidos. Depois de tecido, eles não são apenas nossos, a chuva e as estações tem o poder de levá-los. Um dia fecudam, florescem e, Deus nos faz conhecer as pessoas que se alimentaram dele. Obrigado por trazer em meio às palavras, os frutos necessários para eu me alimentar nessa hora e assim, continuar lançando textos que um dia virão em forma de alguma presença. Como a sua que visitou o meu dia e me fez poetizar, a semântica da gratidão, nesse início de noite. Obrigado amigo!

Rodrigo .

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O perto tem distâncias.


Hoje um amigo, que mora bem longe, foi capaz de puxar um fio de vida no sepulcro do meu coração e me fazer tirar o que de mais bonito eu ainda trago dentro de mim. Nossa amizade é bem antiga, amizade do tempo em que ele era professor em Minas Gerais. Me recordo bem das inúmeras horas que passávamos conversando, das confissões trocadas, do medo partilhado, da solidão querendo acampar em algum canto da carne, do fetiche à loucura, mas acima de qualquer coisa: da vontade de sermos felizes.
Depois de um tempo, ele se mudou para a Europa deixando uma ausência preenchida. Só depois que ele se mudou, foi que percebi o valor que ele ocupava dentro de mim - verdade que só se descobre depois que o outro se ausenta da vida da gente. De amigo, hoje ele é habitante da minha alma. O amor que depositei nessa precariedade da distância o fez vir morar dentro de mim.
Quando o outro não pode ser visto, a gente descobre uma maneira de tocá-lo pelos rastros deixados. É assim que o encontro, seja por meio dos textos que ele tece, seja por meio de pequenas palavras que trocamos nas esquinas do mundo virtual. Depois que ele se foi, eu sempre encontro uma forma de ressuscitá-lo dentro de mim - porque quando a gente ama, o amor rompe com o tempo e mostra que mesmo que o outro se afaste por força da distância, o amor será sempre a força que o trará de volta, ainda que em forma de saudade.
É bonito vermos a capacidade que o outro tem de continuar em nós, mesmo quando a passagem dele pela vida da gente tenha se cumprido. Passagens são sementes. Já passei na vida de tantos e talvez eu continue nelas, arvoreando ou despertando o bem, ainda que eu não saiba.
Assim aconteceu com ele - chegou na minha vida, acampou por um tempo, juntou as malas e se foi. O tempo veio e me fez recordar, por amor, que ele deixou o mais bonito dentro de mim.
No dia de hoje, o milagre mais bonito é recordar, que mesmo eu sendo inútil, ancorado aqui, bem distante dele, é que posso continuar existindo onde um dia o meu amor resolveu acampar. Mais bonito ainda é perceber, que embora ele não participe do meu cotidiano, ele é umas das engrenagens mais potentes meu coração de menino possui pra ser melhor.
A distância levou o corpo, o tempo me trouxe a recordação e o amor o ressuscitou dentro de mim.
A gente só enterra aquilo que o amor não tocou. Porque quando a gente ama, ainda que o outro esteja longe, o amor tem essa capacidade de trazê-lo para bem perto e ainda assim, continuar dando a ele o poder de ter participação na vida da gente.
Não temos o direito de desistirmos da vida, mesmo quando nos sentimos os piores do mundo. Existem pessoas que sobrevivem da presença que marcamos dentro delas, ainda que não saibam. O mais bonito é que consigo enxergar nele o que não é visível aos olhos, mas disposto só para os olhos da alma.
Quer amar ? Demore nas pessoas.

Rodrigo .

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Eu, do sonho à saudade!


Hoje, senti saudade da minha primeira professora. Sonhei que a minha escola havia sido demolida e como menino triste, recolhia entre os destroços fragmentos que ficaram eternizados sem as pessoas pereceberem. Enquanto algums meninos se divertiam com o futebol bem próximo a ela, eu pensava como reerguê-la num texto. Acordei pensando: pessoas também são assim, depois de um certo momento, elas não estarão visíveis diante da gente, aí será o tempo de ressuscitá-las dentro de nós. Quem precisa ser ressuscitado dentro de você?

terça-feira, 26 de maio de 2009

A beleza da espera .


Fico a pensar que as relações não dão frutos, porque o tempo necessário para o amadurecimento não é permitido. É podado antes da hora. Cria-se uma expectativa em depositar no outro a salvação das nossas carências e o essencial fica esquecido. Cada vez mais o homem contemporâneo traz essa marca de solidão. Isso é fato na literatura e, mais que fato em grandes páginas de livros, é a grande "mancha" que o homem pós-moderno possui. Assim é comigo ... Assim é com você !

Exigimos que o outro seja reflexo da idealização que formamos dentro de si. Repito: cria-se expectativa e acelera o processo de olhar o outro com olhos demorados. Chegar no outro ou ter ser favorecido pela surpresa de alguém na vida da gente é simples ... mas corremos o risco de não mantê-lo por perto se o nosso egoísmo de nos satisfazermos for maior que a lição da espera e do olhar demorado. Conhecimento não rima com pressa. Amor também não.

As pessoas que você mais ama, são aquelas que você mais conhece. Por que no namoro seria diferente ? Namoro é justamente esse tempo de aproximação. Quem acha que receber o sim de alguém é garantia de um namoro feliz, ainda precisa ir além. É aluno na fila de espera para aprender as lições da vida. Receber o sim é partida. Olhar demorado para o outro, o acolhendo na perfeita alegria e o reconhecendo como alguém que vale à pena nos degraus mais baixos da vida é caminho .

Um amigo muito querido me pediu para eu analisar uma letra de música e partilhar com ele o que eu havia encontrado. Inicialmente achei estranho. O que encontrar numa letra de música além do que se canta ? Aceitei o desafio . Com aquela pequena letra diante de mim, me arrisquei a ir mais fundo no que ela poderia me ensinar. Confesso que a primeira leitura, a parcial foi simples e com resultado intediante. Bem, só uma história chatinha de um homem que quer voltar a ser menino para reencontrar a sua amada.

Não me contive apenas com essa resposta. Fui além. Dividi cada estrofe, analise demoradamente cada verso, observei a estrutura gramatical das palavras, debulhei cada valor que uma possuía e fui tecendo ali, naquele instante, o significado e a beleza de cada parte. Em cada verso e em cada significado eu descobria o que pela passagem rápida dos meus olhos eu não havia encontrado. Por fim, partilhei com ele a beleza de ter demorado em cada linha para revesti-la de um novo significado. E em seguida ele me disse: "Rodrigo, eu não tinha visto e nem fazia ideia desses detalhes."

Como ele é cantor, perguntei: "Mas para quê você quer essas interpretações?" E com tamanha sabedoria me respondeu: "Para eu saber o que estou cantando."

Na vida também é assim ... a gente só ama aquilo que formos capazes de conhecer. A grande raiz dos nossos fracassos nos relacionamentos, talvez seja a pressa que temos em querermos frutos que só virão com o tempo e, com olhares demorados. Desacelerar é um dos verbos que promete felicidade! Ao menos, seja rápido para compreender o que seja o amor. O que dá testemunho de nosso amor não é a declaração que fazemos por meio das palavras, mas é a linguagem dos gestos que concretizamos diariamente ao saber que o outro, assim como eu, precisa ser encontrado, não esbarrado.

Rodrigo .

terça-feira, 5 de maio de 2009

tempo .


Quando as pessoas se ausentam da nossa vida é que descobrimos o tamanho que elas ocupam em nós. Era um dia de sol, folhas dançando ao vento, crianças correndo na rua, mas a minha casa no calvário com o meu irmão morrendo. Me recordo como se fosse hoje ... o sol a brilhar, o movimento em casa esperando a ambulância chegar, e ele ali, deitado, ancorado nas dores, num terço branco que o envolvia nos braços e com um olhar sereno de que mesmo na dor a vida tem o seu valor. Me ofereceu chocolate que estava na geladeira, e a sorrir, me olhava. Ele foi um herói não por ter me oferecido chocolate, mas por ter colocado o sorriso acima da dor. Hoje o que eu mais queria era ser forte como ele. A minha dor é bem menor, e mesmo assim o sorriso não a sobrepõe. Sou fraco.
Naquele dia queria apenas amá-lo no silêncio. A única coisa que fiz foi beijá-lo no ombro enquanto ele era levado escorado pelo meu pai. Já não aguentava andar. Essa fora a última vez que tive com ele. Hoje fico pensando no que eu poderia ter dito e não disse ... da oportunidade que eu tive de dizer o quanto ele era especial para mim e eu não o fiz, talvez por imaturidade ou atitude própria de um adolescente comovido com a dor do irmão.
Se eu pudesse voltar no tempo e abraça-lo forte, eu o faria. Ele me faz muito falta. O que tenho vivido por esses dias me recorda o mesmo ensinamento ... ter alguém especial ao meu lado e eu me deixar agir pelo medo - medo que me paralisou e feriu o outro.
No fundo, eu tinha esperança que meu irmão voltasse. Aí faríamos festa, andaríamos de bicileta e soltaríamos pipa ... Mas ele não voltou. Fiquei com a dor da saudade e o desejo de um dia reencontrá-lo.
Vivendo uma grande dor por esses dias, me recordo do quanto é necessário deixar o medo de lado e lançar ao que o coração convida. Por ser fraco, firo e por ser humano corro o grande risco de perder mais uma pessoa especial da minha vida. Posso ser fraco, mas Deus não me retirou a capacidade de amá-lo e o desejo de ser um Rodrigo, melhor.

terça-feira, 24 de março de 2009

O sabor é tão simples!



Ao meu amigo, Leganza.

A vida está sob o olhar e o toque daqueles que perdem a pressa no passo. O contrário disso é o acúmulo de tantos afazeres. Existem pessoas que não dormem bem, acumulam atividades ao longo do dia, vive para servir ao trabalho, aos compromissos do cotidiano e ainda reclamam que o tempo é curto para realizarem as mais diversas tarefas. O dia não passa de mais uma oportunidade para arrecadar renda para o fim do mês; o almoço é curto, preciso visitar um cliente; a mesa não é de pão e partilha, é de pressa e tormentos. Não existe sabor pela vida, existe a perda de um tempo que não poderá ser resgatado. O trabalho pode esperar, amanhã ou depois ele virá do mesmo jeito, trazendo as mesmas preocupações - o que não será o mesmo, é o olhar do filho que depositará no coração a marca de um pai ausente, embora presente em casa todos os dias ao fim do dia.
Viver requer colheita de cada dia. O trabalho dignifica o homem a partir do instante em que ele é colocado no devido lugar. O olhar necessário, o diálogo caloroso no café, o agradecimento pelo existir, a presença necessária que modificará a vida do outro para melhor, a disponibilidade para saborear a vida, o gosto do café às 16h, o bom livro comentado, a poesia no bolso e a notícia do jornal periodicamente patilhada são indícios que existe vida sendo tecida na grande teia do hoje.
Há quem ensine tantas coisas, como conquistar o mundo, o melhor emprego, ou receitar o melhor antidepressivo, mas são poucos os que indicam os pequenos gestos que trarão cura para um coração solitário numa multidão. A ansiedade não combina com a leveza da vida.
As tardes deviam nadar nos corações, mas como declama o grande poeta Ésio Macedo Ribeiro: "As tardes nadam nas ruas."
As pipas deviam voltar às mãos dos grandes, porque cresceram demais e perderam o sentido maior da vida que é vivê-la em seus detalhes. São eles que produzem a grande diferença em nossa estrada. O sal que dá sabor à comida é um grande exemplo. Está diante de nós todos os dias, mas não percebemos o processo que ele cumpre diante da comida. O sal é pequeno, leve, não causa alarde e fica no canto mais escondido da cozinha - mas é ele o grande tempero, embora merecesse destaque no ambiente de casa. Assim acontece com a gente: preparamos o melhor prato, com os mais diversos tipos de comida, mas com a pressa, fica sem sabor. A vida requer tempero diário. A vida exige a ação contínua de priorizar as pequenas coisas que até então, parecem insignificantes e, que estão em último plano, ou guardada em algum canto de nós. Talvez o que eu julgue tão desnecessário hoje, seja o sabor que tem faltado à minha vida. Omitir o gesto de temperar o cotidiano é a maior perda que o ser humano pode sofrer. A comida sem sabor... já se perdeu, lance fora, pare um pouco, coloque as panelas no fogo e se prepare para experimentar o maior dos sabores: o da vida devolvida. Para ser feliz é só repetir o gesto!

Rodrigo .

domingo, 1 de março de 2009

O mundo maior é dentro .

Hoje acordei com vontade de abraçar algumas pessoas que passaram pela minha vida e, que de certa forma, não estão mais ao meu lado. Acordei com vontade de abraçar o meu irmão, hoje, amigo da "Menina de lá", de Guimarães Rosa. Talvez eles estejam brincando, ouvindo histórias e vendo a vida passar aqui embaixo, assim como o vento passa entre os nossos dedos e sonhos. Da mesma forma que um dia ele e tantas outras pessoas passaram por mim. Adélia já me ensinou em seus Prados - o que se ama fica marcado para sempre na memória. Com audácia e respeito, completo: para sempre no coração.
Por isso, coração humano é solo frágil e, o maior mundo que existe dentro de nós - pois o de fora é apenas poeira para cumprirmos o ritual do cotidiano, mas o mundo que deve girar sempre é o que carregamos dentro do peito. É o primeiro a ser salvo. Me esforço para ser sol, terra, chuva e abraço no mundo do outro. Tarefa árdua de ressuscitar aquele que não está morto fisicamente, mas que já desistiu de viver há bastante tempo! É a maior proposta do Cristianismo. A mais bela da religião da Vida.
A vida passa. A imaturidade é varrida com vassoura de piaçaba que a D. Vida artesanou de forma tão simples...
Presenças que depositaram em mim partes que foram entregues no momento certo para serem encaixadas. Sou ser humano com todas as peças possíveis, algumas dispersas no calendário, nos fatos não revisitados e na saudade adormecida. Vou me refazendo quando volto no tempo, retirando dele o aprendizado necessário para ser suportável viver comigo mesmo. Vida passada que se ergue com amores na memória e razões revisitadas. Ninguém me faz querer ser humano, tanto quanto o desejo de ler o que o verbo não expressa e nem conjuga por ser limitado. Quero o indefinido da palavra, o desejo da semântica, mas a sacralidade do nunca chegar. Eu quero viver. E viver, não é chegar nunca. É ir, sempre.
Sou grato pelo azul do céu lá fora, que reflete na tela do meu notebook a graça de celebrar a saudade em prosa, e chorá-la em poesia. Sou grato por ter saudade daqueles que passaram em minha vida e ocupam hoje o meu mundo interior, o fazendo melhor, salvo. Se passaram é porque não morreram, continuam a viver dentro de mim. Nem sempre a presença acaba com a solidão. Existem pessoas que se ocuparam demais e amaram de menos. Essas pessoas morreram e, foram sepultadas no mundo interior de outras. Àqueles que tenho saudade, ressuscitam diariamente em mim. Por isso sou um homem melhor, celebrando a partida de quem nunca se ausentou.

Rodrigo .

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

acordes da alma .


Definir é muito pouco para descrever alguém que voa como águia e que alcança voo rápido como o meu amigo. Presença que desfaz qualquer definição e tece no fino tecido vital a dádiva de cumprir o rito de sobrevivência. É preciso que os acordes estejam acordados ao som de sua voz. Hoje a vida celebra o aniversário de alguém que um dia foi capaz de passar pela minha cidade interior e fez morada em algum canto. Onde passa as canções são entoadas, a sinfonia de pardais de Salmaso canta, anunciando um novo dia. É dele a festa, mas o presente é meu: sua presença em mim. Homem tocado pela canção que dança ao vento; pés de peregrino que não se cansa de buscar o agudo da música e da alma. Moço envolto de letras partidas, refrões entoados no silêncio da alma; suburbano coração na voz de Chico, o Buarque.
Por mais vazio que seja o coração das pessoas, ao passar por ele, sempre levam alguma poesia no bolso e um sorriso no olhar. Rick é parque, é balão de São João, é festa de Iemanjá, é Concerto no meio dos desconsertos do coração da gente. É poesia que se cumpre vivendo, é pauta necessária de parada para quem quer saborear o gosto da vida. É acorde. É o tom mais alto. É asa que me transporta no som do coração. Homem que colhe as palavras no jardim da inspiração. Moço feito de saudades de onde veio. Moço criado para voar bem alto tendo o infinito como lugar definitivo. É homem que não termina, nem tem ponto final. Homem da pausa necessária, mas da canção seguinte. Rick é um menino que me alivia com sua poesia, é verso que chora, é clave que fala ao coração.
Que no passar do teu corpo, tua alma permaneça. És sopro no tempo, acorde que me acorda, corda que doa tom ao sentimento. Voz que amansa o ódio e que aguarda a canção que virá e que vira poesia ao fim do meu dia.

Feliz Aniversário!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Pressa de não ter pressa .


Certa vez, um amigo do grande pintor Van Gogh disse a ele: "Seus quadros ficam feio porque você pinta depressa." Van Gogh respondeu: - "Não sou eu quem pinto depressa. É você quem o enxerga depressa demais." Assim sou eu, árduo por olhar de forma demorada, contemplativa para não perder as belezas dos detalhes. Existem pessoas que enxergam depressa demais e se perdem dos detalhes mais bonitos que o outro tem à mostrar, mas que requer mestria e preparo no olhar de quem a encontra. Tenho absoluta certeza que muitos já me enxergaram com pressa - e foram exatamente as pessoas que não voltaram à minha casa, não sentaram à minha mesa e muito menos celebraram o amor ao meu lado. Pessoas que se foram porque não tiveram sabedoria em compreender o espaço necessário para me encontrarem. Por isso, vivo a vida buscando ser mais sereno no olhar o outro. Não sei o que virá. Eu sei o que enxergarei na medida da minha paciência. Amores também são assim: a gente tem a tendência de querer enxergar depressa e, na velocidade do olhar estético, a gente sepulta as flores da alma. Por isso que o amor depende de tempo, construção, cotidiano, chuva e sol para revelar o verdadeiro sentido de sê-lo. Querer encontrar alguém é diferente de apressá-la com o que queremos apenas enxergar. Por isso que grandes conquistas só se celebram na vitalidade do convívio e do tempo, sereno, sem pressa alguma.
Que eu seja capaz de aliviar os meus passos, acalmar o meu peito e acender o farol dos meus olhos para encontrar os detalhes, estes que serão responsáveis por eu amar de forma única cada pessoa que eu encontrar em meu caminho. E que a minha pressa seja apenas para me fazer mais homem e humano no detalhe de observar o essencial no outro. Eu quero a pressa de não ter pressa ao te encontrar.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Quase Impropérios .

O cheiro de mãe faz falta nos momentos de dores. Semana passada dentro do ônibus, lendo Adélia Prado, eu tentava me consolar da distância que havia entre eu e a minha casa. Enquanto eu era levado e cumpria o ritual do ônibus, reclinei a cabeça e tentava encontrar a minha mãe na poesia de Adélia ou em algum canto daquelas ruas de São Paulo, nas luzes acesas e nas janelas fechadas daqueles apartamentos que tomaram os lugares dos jardins. Lembro, eu chorei baixinho. Nas mãos a mochila cheia, e no coração a falta. No exato momento eu segurava nas mãos os seguintes versos:
"Quando eu tinha quinze anos minha mãe morreu. Foi o sofrimento mais lindo,
a verde vida num pasto tão bonito, eu belamente urrei,
bezerra sem sua mãe, apenas." Repetia esses versos e chorava.
Eu era menino sem destino, sozinho com toda sua formação acadêmica que nessas horas são leigas em salvar a vida, exposto a mendigar o abraço da mãe que talvez estivesse dormindo ou vendo TV em algum lugar da casa.
Necessitei ser olhado por minha mãe com olhos de amor, mas ela não estava ali.
Cruz pesada, noite fria, poesia nas mãos.
Saudade ancorada no peito de menino,
e prece silenciosa na boca.
Quando a falta é grande a alma tende a sepultar palavras.
Me senti menino machucado, ralado, cheio de terra nas mãos entre feridas. Ainda lia os versos: "Que bom é suar na tarde e gritar: mãe, cê tá aí, mãe?" Eu sabia que ela estava no mesmo lugar, e que a morte ainda não a levara. Mas eu também sabia que morte nem sempre é ausência definida, mas ausência declarada, ainda que numa noite no ônibus.
Eu apenas queria o direito de deitar no seu colo, e deixar que o seu olhar doce me restituísse como homem. Eu tava machucado demais para acender o lampião da alma e descobrir o valor que possuía - ação que ela sempre fez quando me viu longe de mim... ela vinha e me devolvia. E eu voltava a ser feliz de novo.
Naquela noite fria de São Paulo, eu descobri que eu também urrava no pasto social, sem a minha mãe por perto.
E foi assim que eu descobri, que minha mãe com seu jeito finito de ser mãe, revelava-me o amor com seu jeito infinito de ser poema em mim.

Rodrigo.
p.s > reprise.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Eu, nas linhas de uma carta.


Que a celebração da minha existência seja celebrada no amor e pelo amor. Sou humano e com a minha humanidade sou limitado. Homem que tomou o seu barco, o construiu com madeira forte, madeira que resiste ao tempo e aos ensinamentos. Madeira que suporta tempestades, que não racha ao ser envolta pelo primeiro vento. Sou homem que decidiu entrar no rio sem medo do que possa encontrar na terceira margem - é ela quem quero. Querer pouco é ser pouco. Eu sempre quero mais. O "mais" necessário para a cada dia me moldar na delicadeza da vida e na sabedoria do silêncio. Que a minha celebração seja realizada dentro de mim. Lugar sagrado onde as palavras se acomodam de forma poética e preparam, sempre, uma nova forma de me ensinarem a não desistir do amor.

( carta verídica. )

À ...
Primeiramente, quero agradecer pela disponibilidade em acolher em mim aquilo que é mais sagrado: o amor. Me sinto lisonjeado por tê-la em minha vida. E admirá-la em cada gesto. E respeitá-la. E confiar em suas mãos um pedaço da minha vida, ainda que doída. Como diria Caio Fernando Abreu : "Quem diria que viver ia dar nisso?"

Acredito na vida como estação. Lugar onde as pessoas chegam, nos olham e são capazes de modificar a nossa vida com a primeira presença. Algumas passam a vida inteira do nosso lado, mas não modificam nenhum sentimento. Há outras que nos arrebatam com o primeiro olhar. Foi assim que um dia ele modificou a minha vida: encontrando comigo e lapidando em mim os diamantes até então não tocados por nenhuma outra pessoa.

Só que a vida segue. As pessoas também. Num determinado momento eu tive que ser forte o suficiente para compreender que eu precisava seguir sem ele. Paguei o preço pela opção de vida - era preciso optar pela vida e ressuscitar-me da ausência que ele causou ao passar por mim. Inaugurou-se o tempo de inverno em mim, tempo em que a árvore vive para dentro e, eu precisei viver assim.

Ele deixou de morar diante dos meus olhos e do cheiro, para estar entre os meus textos, os meus sonhos, as minhas lembranças, as dores e os soluços no travesseiro .

Recordo-me do pai na Terceira Margem de Guimarães, o Rosa.
Não me esqueço do dia em que a canoa ficou pronta ... Eu queria era ir junto com ele : "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" ... Mas ele apenas ficou em silêncio. Demorei como o filho da história para compreender que ele estava no meio do rio e cada dia mais adentro ...

Cumpri o mesmo ritual que o filho,
todos os dias chegava na beira do rio, oferecendo os meus sentimentos, os meus abraços mas ele não acenava.
Eu ficava imaginando onde ele estava, o que vestia, onde ia, o que comia... "Não adoecia?" O que eu queria, era cuidar dele.
Eu imaginava o * em todos os momentos da minha vida!
"... Assim como, no agasalho da noite, no desamparo das noites de muita chuva, fria, forte..." Chamei tanto pelo nome dele, não como pessoas próximas a mim, como em Gumarães, mas sozinho, o que era mais doído não ter com quem partilhar o peso da dor. "A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. (...) nós todos aí choramos, abraçados".

O meu tempo sem esse homem também foi assim ... têm sido assim, feito de esperas.
O que virá? Eu também não sei.
Só não quero ser covarde desistindo de amá-lo. Ainda que o seu retorno demore ou não aconteça .
O que trago como ensinamento não foi o dia da partida, mas o que ele deixou inacabo em mim .