sábado, 25 de agosto de 2007

Gostoso de ler.

Eles.


Nos últimos dias, meus maiores companheiros têm sido Adélia Prado e Caio Fernando Abreu. Adélia, mulher fina, delicada, amante de Deus – guardadora de um rebanho simples, alma feminina do cotidiano – senhora que me revela Deus na luz que molha as frestas da minha janela, que me confidencia a beleza escondida nas refeições, no encontro dos cotovelos, mulher que tem a capacidade de adentrar o meu quarto silenciosamente e, deixar o meu coração disparado enquanto vejo a vida passar através da janela. Caio Fernando Abreu, homem feroz, insaciável pela vida e peregrino das indefinições. Homem do cheiro, do toque, da carne, da alma, do rapaz. Com ele, procuro Dulce Veiga, mesmo sentado na cama e folheando a página par desse enredo. Nada me sacia além de sua presença ausente em mim – chega sem eu perceber, põe inquietação em minha alma e vai embora, deixando apenas o vício, vício de amá-lo na indefinição de uma ficção atemporal. Ele me toca – me leva, me rouba e me deposita na cama a três, no beijo a três. Hoje, Caio esta fora do tempo, mas presente no ciclo vicioso daqueles que bebem o vinho doce e fatal da existência humana. Nem a droga me proporciona tamanho prazer. Caio me basta, mais nada! Todas as noites tenho ido para a cama com ele. E a gente, a gente faz amor.

A palavra é a droga mais terrível – velha, cheirando a mijo e presente antes que o verbo se tornasse carne. A palavra é a dama da noite, vestida de purpurina e com os venenos escorrendo em seus tempos verbais. Ela mata no pretérito, aniquila no presente e ameaça no futuro. Vestida de adjetivo seduz o homem, pós-seduzido ela nega, transmuda, fere. Ela mata como Hiroshima depois de desvendada. Mulher fina – pelo “a” nos saltos, homem barbudo com um machado nas mãos pelo “p” inicial. Droga que se reproduz silenciosamente, entra pela porta da frente – não se incomoda de ser lançada na estante, seu veneno depois de pronto, não cumpre validade. Assassina terna de Saussure, moça fina de bom gosto! Mas prostituta fatal – delirante – com a onomatopéia mais alta, o esmalte mais vermelho, a espera de quem devorar, seja no sol quente do meio dia ou em uma noite mais fria de uma data qualquer. Após o estrago, toma o seu banho, recolhe sua lingerie e vai parir o crime naturalmente na primeira página do Jornal mais famoso – Quem assassinou o Presidente? – e brinca na linearidade da interrogação.

Rodrigo .

domingo, 19 de agosto de 2007

"Não sou a areia onde se desenha um par de asas ou grades diante
de uma janela. Não sou apenas a pedra que rola nas marés do mundo, em cada praia
renascendo outra. Sou a orelha encostada na concha da vida, sou construção e
desmoronamento, servo e senhor, e sou mistério"

Lya Luft

Bom gosto...

"Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa é nada ser perfeito. É deslumbrar a noite tormentosa até cegar, E tudo ser em vão!"

Florbela Espanca

domingo, 12 de agosto de 2007

Celebrando Fraternidade!

Prevalece em meu quarto uma atmosfera musical que me revela histórias de outros tempos, trazidos pela voz de Mônica Salmaso. Mônica é diamante lapidado pelo fino martelo de Deus. Seu tempo não é pretérito, não é futuro nem presente. Sua voz, elegantemente depositada sobre os acordes que sustentam o meu discurso com meu amigo, Vítor – no nome trás a vitalidade que possui na essência... – é um misto de terra e céu, lugar onde graves e agudos resolveram celebrar fraternidade. Nada fere, nada sobra. Ela apenas segue o destino de abrir cavas interiores, a fim de que Deus, num gesto de ternura, venha abrigar-se em nós. Ela canta morrendo, cada nota parece ter um ar de despedida, alguma coisa que clama e que me desperta para o novo amigo. Nela eu descubro o já acontecendo. Recordo-me das sábias palavras de Jesus a respeito do sal. O sal dá sabor e Mônica é Salmaso. É mulher que tem tempero no nome. Tempero raro, que me transporta para a vitalidade do Vítor, que me alcançou na ponte do avesso. Mônica Salmaso regada de um amizade, são ingredientes que trazem em sim o alto poder de curar a nossa pessoa daquelas dores que não se localizam.
By Rodrigo .

sábado, 11 de agosto de 2007

RG.

Sou carta fora. Fora de toda definição e qualquer alcance de raciocínio. Sou faca afiada que corta, mel quente que alimenta e águia que reanima o seu vôo. Prossegue em mim a continuidade vital de ser quem sou. Como diria Drummond, “Não, meu coração não é maior que o mundo. É muito menor. Nele não cabem nem as minhas dores. Por isso gosto tanto de me contar”. Nada me sacia, nada me sustenta tão perfeitamente, como o sonho. Sou homem que acaricia uma criança, que chora vendo comercial de Tevê, que ama e liga pedindo para o amor voltar. Lanço fora às armas do orgulho, da prepotência e de qualquer outro gesto egoísta, que aprisiona o ser humano e o transforma em ser animal. Vida mesquinha é a vida de quem prefere colher morangos, morangos mofados. Vivo os meus dias, remodelando as cores de minha alma, curando as feridas e recebendo delas, toda lição de maturidade que a vida exige que eu traga. Sou um ser alucinado com a contemporaneidade, envolvente como a fumaça e reflexivo como o café das cinco. Sou o avesso da definição. Alimento-me na cadeira para contrariar a lógica de ser obrigado a comer à mesa. Nem sempre prefiro a cama para depositar o corpo cansado e a alma flutuante – sou o menino mais sujo deitado sobre o chão da Avenida, a mulher mais puta, de tantas esquinas por aí. Sou o pai que chega com o abraço acolhedor e cura muitos medos, sem trazer um analgésico no bolso. Alimento-me de outros sabores, amparo-me em outras margens e toco o inexprimível. Sou menino inquieto com a vida, guloso por seus sabores, intenso nos cheiros que afloram a manhã e enfeitam mais um dia que se cumprirá, aos poucos. Não são poucas as vezes em que me esforço para recordar o que um dia aprendi. Abro a porta da minha memória e não encontro o que procuro. Noto que aquele conhecimento se alojou em algum quarto que pouco freqüento e que, cansado de esperar a minha visita, foi dormir um pouco. Quartos que, por não serem visitados, vão perdendo à luz. Mas, mesmo no escuro, a informação sobrevive. Tenho um único medo. Medo de desaprender muito, conhecer demais e de esquecer fácil. Aproveito para ler Adélia Prado. Prado que parece montanha, onde as palavras se escondem preguiçosas e, ao mesmo tempo, lugar onde eu com a finita forma de ser menino, insisto em esconder pedindo para você me encontrar.

Rodrigo.

domingo, 5 de agosto de 2007

♪ Música que dá saudade...



♪ Avião sem asa, fogueira sem brasa, sou eu assim sem você. Futebol sem bola, Piu-piu sem Frajola, sou eu assim sem você. Por que é que tem que ser assim se o meu desejo não tem fim. Eu te quero a todo instante nem mil auto falantes vão poder falar por mim. Amor sem beijinho, Bochecha sem claudinho, sou eu assim sem você. Circo sem palhaço, namoro sem amasso, sou eu assim sem você. Tô louca pra te ver chegar, tô louca pra te ter nas mãos. Deitar no teu abraço, retomar o pedaço que falta no meu coração. Eu não existo longe de você a solidão é o meu pior castigo. Eu conto as horas pra poder te ver mas o relógio tá de mal comigo... Por quê?Por quê? Neném sem chupeta, Romeu sem Julieta, sou eu assim sem você. Carro sem estrada, queijo sem goiabada, sou eu assim sem você. Por que é que tem que ser assim se o meu desejo não tem fim. Eu te quero a todo instante nem mil auto falantes vão poder falar por mim. Eu não existo longe de você e a solidão é o meu pior castigo. Eu conto as horas pra poder te ver mas o relógio tá de mal comigo. ♪


Adriana Calcanhotto - Fico Assim Sem Você

Meu aniversário!


"Prossegue em mim este encanto de saber-me só. Este olhar solitário sobre a pia onde repousa apenas uma escova de dente. Nenhuma boca me acompanha, nenhum hálito me assedia na cama. Sou o propósito comum, absorvido pela carne que me tece. Por vezes a inspiração vem me ver. Vestida de tristeza se aloja nem canto do quarto e insiste a me ditar poemas. Neles, a alma pode se lenir, num abstrair-se sereno, inevitável, quase religioso. A intensidade rítmica do poema e seus algozes vai favorecendo à alma em cacos um constante restituir-se nas palavras. Verbos que se ajeitam na curva da dor, pronomes que se entranham no vácuo da mágoa e adjetivos que acariciam os restos de alegria. Este é o cenário interior do poeta, lá, onde o poema não escrito espera as dores da contração poética. Filho, que no silencio da carne, espera o milagre gráfico que o fará concreto, palavra. Tudo mais são confluências ontológicas, sombras de inspirações alheias, encontros marcados pro final do dia, partilha casta que não gera assombros, epfânia. HOJE é a festa da minha nova idade, novidade que continua continuando, sem inovar, feito rio que corre sem se mover, movido pela força de ter que ir, sem poder ficar. Assim o tempo, a vida e eu. Persegue em mim este encanto de saber-me indo. Este não parar, não poder ficar, contínuo indo, constituindo-me para sempre findo. Esta abnegada forma de viver morrendo, crescendo e de ser feliz. A arte é um ensaio do eterno. No findo, o lindo se mostra, projeta-se para fora do tempo e se ossifica de alguma forma. Adorada condição primeira de saber-me cera que se dissolverá. Feito luz que se alojou na fresta, quero assim sem pressa, no eterno me abrigar. Por isso quero a música, a palavra, o cotidiano. Lugares que desafiam o tempo e sua abrupta forma de correr. Com eles eu vou mais devagar. Neles eu encontro a pausa, a esposa e a revelação divina. Neles eu descanso a alma que não tem pressa, porque é eterna. O corpo, marcado pela condição de ser finito, vive a ansiedade de perder o tempo, o ônibus e a definição de seus músculos. Alucina-se na temporalidade do êxtase e degusta a vida frutificada em seus diversos sabores. Ele sabe o quanto é bom viver! Enquanto isso, não exatamente no tempo em que digo isso, a alma esmera-se em dar-se a si mesma como experiência fundante e absolutamente bela. Alimenta-se de outros sabores, ampara-se em outras margens e toca o inexprimível. Fala outra língua e é afeita ao não conceitual, ao transcendente e ao absoluto.Mas ama o corpo. Não o despreza, mas o impregna com detalhes do seu fundamento. Sensibiliza-o e o prepara para a arte. Religiosamente o ensina a rezar, tocar o eterno e a sentir os sabores por outras vias. Ela o ensina dançar, ter ritmo, postura elegante. A alma é a educadora do corpo, pedagoga que o guia pela mão. Andam juntos e se amam em suas diferenças. Não têm o mesmo tamanho. Alguns corpos imensos abrigam almas pequenas, minúsculas. O contrário também é verdadeiro. Corpo e alma se alimentam de diferentes substratos. Há também os corpos torneados aprisionando almas mancas. E corpos disformes possuidores de almas elegantes. É que quando a alma não tem a primazia, o corpo tende a sufoca-la, entorpecê-la. Vive como corpo, apenas. Vê o que vê, toca o que toca, sente o que sente e sabe o que sabe. Vive apenas para envelhecer, colecionar idades, erguer paredes e contar dias no calendário. Quando as duas realidades caminham juntas, o corpo tende a ganhar novos significados. A alma que não envelhece, torna-o mais sensível para as realidades que não passam. Ela o impregna de novas cores, novas disposições. Não sei porque estou me dispondo a descrever a realidade humana de maneira tão fragmentada, positivista. Somos um mistério único no ato de sermos corpo e alma. Tudo mais é mera especulação sem fundamento.Talvez eu esteja falando disso porque hoje é o meu aniversário. Aniversário do corpo ou da alma? Acho que é do corpo. Foi ele que nasceu um dia. Não sei. O que sei é que no aniversário do meu corpo quero mesmo é a comemoração da alma." Fábio de Melo
Rodrigo .

sábado, 4 de agosto de 2007

Derramando palavras II.

Esquadros – Adriana Calcanhoto. Gosto dessa canção e, do efeito que ela causa em mim. Como dizia Caio F. “existe sempre alguma coisa ausente”. Essa música é o corpus de tal verdade. Gosto muito de sair; saídas banais, mas saudáveis como ir ao supermercado, à padaria e andar sem ter hora pra voltar. É divertido olhar as cores que em certos momentos do dia, afloram pelas ruas, nos muros ou em algum ângulo da esquina.

Talvez olhar seja uma forma de buscar o ausente – aquilo que falto à gente! Ando procurando decifrar o que em mim é ausência. Ah! Sinto falta de tanta coisa! Uma delas seria a novidade de ter meu irmão de volta; gostaria de vê-lo sorrindo, suado, voltando do trabalho ou contando a nova conquista de emprego. Encontro-o na arte. É o portal, o lugar onde a gente encontra com o ausente, com o inatingível. A morte de alguém que a gente tanta ama, talvez seja isso: comprar um passaporte para o mundo das artes. São telas, rabiscos, vultos, esquinas, cores que revelam o que o coração da gente desejar.

Ouvi alguém dizer que a vida é a preparação para o luto. Será? Não sei. O que sei é que agora visto uma calça comprida, trajo roupa de algodão e trago no peito uma camisa da Renner, laranja. O q sei é que tenho fome e, quando a fome chega, nada é mais valioso que um pão com manteiga com alguns goles de café. Nem o ouro tem valor em nível de.

Olho pela janela. Percebo o sol abraçar o monte. É uma forma de se despedir a poucas horas do inicio da noite. Cada qual compreende o seu tempo e se despede com alegria... Queria entender isso! Pessoas que partem cedo demais e outras que vivem uma eternidade! Devíamos viver o necessário – de forma igualitária. Sem menos e nem mais tempo para ninguém.

Gosto de andar pelas ruas que um dia vivera em festas. Paro, olho e tento decifrar em algum objeto enterrado sob o asfalto, a lembrança do olhar, dos prazeres, das conversas, das divagações ali vividas. Quando eu encontro um objeto “velho”, eu transpasso a lei de condena-lo a lixo e, adentrando o mistério da saudade, evoco constantemente o jeito mais simples de conhecer, de indagar, perguntar, quem um dia traçou história sobre ele?

Derramando palavras. Não sei onde elas cairão e nem que tipos de reciclagem farão com elas. Quero apenas o direito de permanecer diante do meu teclado e nele obedecer à lei de um menino que trás saudades no peito.

Não corra o risco de perder sua vida, perdendo-se.
Quanto mais identificares suas raízes, suas dores e seus sabores, saberá o valor que como Homem você possui.
Um Homem que não tem raízes, não tem histórias...


Rodrigo .

Derramando palavras I.

Aproveitei a noite anterior para ler Machado de Assis – “A mão e a luva”. Estou ansioso para ler o final. Guiomar, personagem do enredo, mulher paparicada pelos cuidados da madrinha, cercada de luxo e, ao mesmo tempo de um ego que não a deixa se envolver amorosamente.

Estevão, homem ancorado nos sentimentos do passado. Bem, não pretendo fazer um resumo da obra – fora de pretexto. Lendo essas histórias me soam como algo surreal, imaginário. Algo como tecer um conto de fadas e acreditar nele. O ser humano tem essa tendência; de amar o ilusório. Sonho nem sempre é ilusão e, ilusão é bem diferente de sonho. Percebo até que ponto o homem pode chegar a se arrastar por um amor. Eu sei que os tempos mudam, que as cidades crescem e os meios se afloram, e os séculos avançam como uma águia com fome e sede. Na leitura, por hora me senti como Estevão, não revogando um amor antigo, mas sentindo na pele o que é amar alguém que de certa forma, não merece o meu amor. Antigamente os amores eram mais sagrados. As promessas eram realizadas, os diálogos curtos, mas profundos, tocantes, quase vidro fino que, se apertasse um pouco além viraria cacos. Uma palavra bem dita para não ferir e, ornamentar os sonhos que o casal tivera. Cenário? A não ser o portão de casa com hora marcada para entrar ou a sala, lugar de conversar e apenas um toque de mão. O amor era sagrado e sacramentado nas relações.

Por que hoje não? Gostaria de acreditar neste sonho. O amor tornou-se ilusão. As uniões rápidas e descartáveis, os olhares sedutores como passaporte para a cama. Os amores roçam, mas não entrelaçam, não formam um elo, não se encontram. As relações se tornaram cansativas, apelativas e vazias. Infelizmente a essência dos humanos, também. Vive-se numa sociedade com mais recursos, mais dinâmicos, acessíveis e, porém bem mais solitária.

Ouvindo um filósofo – Gilles Lipov. num programa de TV, canal Futura, ele defendia a tese de que existem coisas na vida que não pode avançar e nem acompanhar o progresso. São coisas que necessitam de tempo para serem o que são. Coisas que aspiram um percurso demorado para se aperfeiçoarem e, essas coisas jamais poderão acompanhar o avanço globalizado. Creio eu, que o amor seja uma dessas coisas. Amor instantâneo pode não dar certo. O amor precisa de cuidados, de apreciação, tempo, água, adubo, calor, ventania... E essas coisas não acontecem de uma só vez. No século XX, numa sociedade contemporânea existe a “urgência do presente” mas infelizmente o “mal-estar da sociedade”.

Não quero roubar o seu tempo derramando palavras com receita mágica de como conseguir alcançar êxito no amor e, muito menos fazer do meu espaço, que é um lugar tão simples, de posto de auto-ajuda. Não é Santa Casa de Misericórdia, não senhor (a)! E muito menos Paulo Coelho, do qual, não tenho estima alguma. Quero apenas dizer que na vida, nem tudo que vem fácil, fica. Não sejamos a personagem Guiomar da História, nem o apaixonado Estevão, nem o acessível Jorge... Sejamos nós mesmos, sem hipocrisia, máscaras ou qualquer outro meio que, empoeiram a verdadeira face do ser humano. Sejamos construtores do nosso próprio enredo e merecedores do nosso próprio entendimento.

Quinta-feira!

Quinta-feira

Acordei querendo arrumar toda casa.

Já ouvi alguém dizer que quem deseja arrumar muita coisa por fora, é porque por dentro necessita de arrumação, concordo. É que nem sempre a gente consegue identificar a raiz da nossa dor. Tem dores que me visitam quando menos espero. Chegam de mansinho e se alojam em algum canto da minha vida. Anunciam sua presença quando despertam algumas dores em mim. A dor por um lado me trouxe uma realidade nova – a realidade sem cenários, uma vida sem fantasias e sem hipocrisia. Sei que não é gostoso deitar mais cedo para chorar, pior ainda é não ter sono e se sentir o cara mais solitário do mundo. O silêncio é o meu grito mais alto.

Li num blog de um amigo que “a vida acaba quando não se enxerga a todo instante”. Como morrer num instante desses, se enxergo a partir da dor tantas coisas? Nesses momentos penso naqueles que se suicidaram... Jovens, mulheres, homens que infelizmente não souberam sofrer a dor agarrada aos únicos rastros de luz. Eles gritavam em silêncio – ficaram em seus quartos várias vezes, comiam sem sentir o sabor da comida – não tinham se quer vontade de fazer algo, mas faziam. Era o “ciclo seco” que se instaurava na vida de cada um, como num dia disse Caio Fernando. O suicídio ia acontecendo cada vez que essas pessoas não conseguiam sofrer sem tirar um grão de mostarda do bem. Eu sei que é difícil e, quase impossível... Porém é preciso, para não morrer.

É preciso enxergar a todo instante... Existem virtudes que há em mim que somente no momento de dor é mostrado. Qual é a experiência que a dor tem lhe trazido? Quando ela voltar, você será capaz de identificar o que existe de valioso dentro de ti? Espero que sim. Não me uno como um ser humano passivo no sofrimento, mas como alguém que sofre buscando sempre lapidar diamantes que até então, não foram vistos.

Rodrigo.