Sou carta fora. Fora de toda definição e qualquer alcance de raciocínio. Sou faca afiada que corta, mel quente que alimenta e águia que reanima o seu vôo. Prossegue em mim a continuidade vital de ser quem sou. Como diria Drummond, “Não, meu coração não é maior que o mundo. É muito menor. Nele não cabem nem as minhas dores. Por isso gosto tanto de me contar”. Nada me sacia, nada me sustenta tão perfeitamente, como o sonho. Sou homem que acaricia uma criança, que chora vendo comercial de Tevê, que ama e liga pedindo para o amor voltar. Lanço fora às armas do orgulho, da prepotência e de qualquer outro gesto egoísta, que aprisiona o ser humano e o transforma em ser animal. Vida mesquinha é a vida de quem prefere colher morangos, morangos mofados. Vivo os meus dias, remodelando as cores de minha alma, curando as feridas e recebendo delas, toda lição de maturidade que a vida exige que eu traga. Sou um ser alucinado com a contemporaneidade, envolvente como a fumaça e reflexivo como o café das cinco. Sou o avesso da definição. Alimento-me na cadeira para contrariar a lógica de ser obrigado a comer à mesa. Nem sempre prefiro a cama para depositar o corpo cansado e a alma flutuante – sou o menino mais sujo deitado sobre o chão da Avenida, a mulher mais puta, de tantas esquinas por aí. Sou o pai que chega com o abraço acolhedor e cura muitos medos, sem trazer um analgésico no bolso. Alimento-me de outros sabores, amparo-me em outras margens e toco o inexprimível. Sou menino inquieto com a vida, guloso por seus sabores, intenso nos cheiros que afloram a manhã e enfeitam mais um dia que se cumprirá, aos poucos. Não são poucas as vezes em que me esforço para recordar o que um dia aprendi. Abro a porta da minha memória e não encontro o que procuro. Noto que aquele conhecimento se alojou em algum quarto que pouco freqüento e que, cansado de esperar a minha visita, foi dormir um pouco. Quartos que, por não serem visitados, vão perdendo à luz. Mas, mesmo no escuro, a informação sobrevive. Tenho um único medo. Medo de desaprender muito, conhecer demais e de esquecer fácil. Aproveito para ler Adélia Prado. Prado que parece montanha, onde as palavras se escondem preguiçosas e, ao mesmo tempo, lugar onde eu com a finita forma de ser menino, insisto em esconder pedindo para você me encontrar.
Rodrigo.
Rodrigo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário