sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

A beleza da dor .


Acordei com dores. Queria ao menos compreender o processo da dor. Mas não há entendimento cabível ou satisfatório no momento em que me sinto o ser humano mais esquecido do mundo. Não venha me dizer que isso não é verdade e nem tente querer me curar com suas filosofias sobrenaturais. O mestre, aquele que veio nos ensinar sobre o amor também um dia se sentiu sozinho no Monte das Oliveiras quando os apóstolos não velaram com ele... Noite fria, vento cortante no rosto que se misturava às lágrimas do coração de Deus.
O dia está bonito e o sol cumpre o ritual de temperar o dia com calor e cor. E o vento trabalha arduamente para trazer os cheiros exalados dos abraços dados e das diversas coisas que ele toca. Na vida também é assim, um cenário pronto para a nossa atuação. Deus faz o cenário, ilumina, troca as luzes, reinventa... mas somos nós que atuamos para que o espetáculo da vida aconteça. O que sei é que somos preparados para atuar somente na alegria ou quando tudo na vida flui bem. Acredito que hoje, Deus queira me ensinar um novo jeito de deixar marcas no meu cotidiano que é hoje e não voltará amanhã. As marcas ficarão em mim, mas o dia de hoje, amanhã, será lembrança.
As minhas dores sinalizam que algo em mim precisa ser curado, compreendido, aliviado.
O que existe de mais sagrado em nós geralmente é guardado e por isso dói. A gente teme mostrar para o outro a dor, como se também ele não carregasse a própria cruz dentro de si mesmo. Fantasiamos a vida demais, minha gente. Beleza não é apenas sinônimo de alegrias - beleza também simboliza dor. A dor só contribui no processo de amadurecimento quando a gente passa a compreender melhor o que dói e o porquê dói. Apartir da descoberta profunda de quem somos, e da forma que estamos atuando nesta grande celebração que é a vida, é que compreederemos o valor que temos quando a dor aloja em algum quarto da nossa alma. Só assim a vida explode dentro de nós, porque já não é preciso representar a estética da alegria, porque antes de ser estética ela é profunda, enraizada em nós. Só assim que nos sentiremos menos sozinhos e mais encontrados. O ser humano não tem bola de cristal para adivinhar quem somos se antes não nos revelarmos. Quer ser mais amado? Reconheça quem é você. E descubra o ser humano lindo que é você apartir das coisas belas que possui e das precariedades que te faz mais gente, mais humano. Só assim você poderá atuar na vida outro de uma forma que ele jamais esqueça, amando. Ressuscite nele o que ele tem de melhor e mostre a ele que as dores são necessárias para a lapidação da essência e do amor. Quanto mais a dor nos ensinar, mais humanos seremos diante da vida.
Um jardim florido não é resultado imediato da escolha da beleza. Um jardim florido precisou ser podado, adubado, enfrentou tempestades, pragas, ventos e mesmo assim não desistiu de ser um jardim. Ele soube esperar e aproveitou as manhãs mansas para se reerguer ao calor do sol.
Se há tempestades em minha vida, haverá o sol pela manhã.
Se há dor no meu peito, é Deus indicando que virá o ensinamento.
Não desista de acreditar em você.
Por mais que a solidão por hora me visite, por mais que o peito sangre... como diz Adélia Prado: "Tudo o que sinto esbarra em Deus."Não abra a tua janela para enxergar o que o outro tem conquistado. Abra a tua janela e perceba as flores do amor e da dor que enfeitam o seu dia. Acolha o que o dia te oferecer. O necessário de hoje é o bastante para não passarmos o dia em vão. A vida renasce, acontece, explode em poesia quando pequenos raios de luz reluzem do mais profundo da sua alma, apaziguando a dor e recolhendo dela pequenos rastros de amor.
A dor que existe dentro de mim, a falta que existe dentro de você é infinitamente menor diante do amor personificado que somos nós.
Por hora posso até me esquecer, mas o esquecimento jamais apagará o meu valor.

Rodrigo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Resquícios de amor.


Se eu pudesse colocá-lo em minha cama, cobrí-lo e dizer o quanto você é importante para mim, eu pararia o meu mundo só para te servir. Existem tardes que o vento dança ao sol, rasgam o meu pronome e me indefini na pauta de existir! O sol à espera do meu cansaço na varanda - deito sobre ela e com seu abraço quente, um pouco de consolo ele me traz. Tudo é dor. Tudo é amor. Tudo é saudade!
Gemo em doçura, gemo em amor. Que não seja eterna esta tua inesperada forma de romper o meu cotidiano e nele espalhar seu perfume revelando a tua ausência. Não me recolha no silêncio do teu peito para depois me abandonar na chuva ou numa noite como esta, com estrelas brilhantes, mas com calçadas frias e de janelas fechadas. Você só habita em mim em forma de ausência. Um dia Drummond me ensinou e eu aprendi. O que sei de mim, pela força da saudade, por vezes, me esqueço. Sou alma tocada pela semântica dos anjos - alma que um dia amou e que ainda está presa no fado pesado desse corpo que um dia fora tocado por suas mãos. Você está em mim porque o meu corpo esteve em ti. O que a mentira toca é destruído e não suporta o tempo... O que o amor toca é gerado, tecido, multiplicado e por fim revelado.

Rodrigo .

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Ando amando mais.


Foi o primeiro dia de aula. Escola nova e eu à espera de conhecer quem seriam os meus novos alunos. Multidões de crianças aglomeradas... era a vida acontecendo dentro da precariedade do mundo. O bem existe e ele está no mundo dos pequenos. Subi as escadas e logo entrei na sala que eu ensinaria nos dois primeiros tempos. Um garotinho sentado comportávelmente no canto esquerdo me desconsertou com o olhar - era doce e resgatador. Todas as coisas negativas que me disseram de uma sexto ano do ensino fundamental foi por terra quando recebi o olhar terno e sereno daquele menino. E no olhar, ele sorriu para mim. Com o seu olhar, eu aprendi antes mesmo de ensinar. Ele não precisou dizer nada, apenas mergulhei no olhar do garotinho que sentado esperava aprender. Talvez ele seja pequeno demais para compreender que ele me ensinou a primeira lição: a gente só ganha o coração do outro utilizando a pedagogia do amor.
Nem o meu sorriso por mais lindo que fosse, embrulhado em laços de gratidão, pagaria o resgate da gentileza que ele suscitou em mim. Pequenos gestos que acendem o lampião da vida. Pequenos detalhes que ajudam a consertar o mundo e enfeitam com os melhores arranjos a grande orquestra que é a vida. Eu descobri no olhar e no sorriso do meu aluno que o mundo tem jeito e basta um sorriso para ressuscitar a bondade que por vezes fica escondida embaixo de tantos lixos do egoísmo, tristeza e reclamações. Eu aprendi que eu não preciso consertar o mundo falando - eu posso curar a vida, olhando com os olhos do menino Deus chamado: meu aluno.
Confesso que eu não saí o mesmo daquela sala de aula. Ele teria mil razões para ficar sério, caladinho e por vergonha do novo professor que talvez fosse bravo, rude, ele nem olhasse para mim. Mas não! Foi a primeira vez que nos encontramos e ele soube preparar bem o solo: me olhou, me encontrou e sorriu para mim. Não tenho a menor dúvida: aquele menininho me ganhou com um gesto tão simples, mas enraizado num amor tão puro. Não teve jogo, ele soube ser ele. E o foi.
Por hora me envergonho de não ter sido eu para conquistar tantas pessoas que eu queria mais perto de mim - a gente faz isso quando não reconhece o valor que se tem. Aprendi a lição. Aprendi a consertar o mundo. Aprendi que a única forma de ser encontrado é mostrando quem eu verdadeiramente sou... e assim serei amado de forma inigualável porque eu dou aquilo que eu tenho de melhor dentro de mim.
O que ele tinha a oferecer de melhor em si, foi o suficiente para ele me ganhar. Confundindo qualquer sintaxe e ultrapassando qualquer adjetivo. Seu gesto se eternizou em mim de forma atemporal. Sua amizade será eterna em mim. Pedaços de vida que se encontram no altar da existência, celebrando para sempre o Amor.
Quem um dia soube fazer o bem apenas com um olhar, quanto mais o fará quando por as mãos a serviço da vida.
O mundo tem jeito e alguém como este meu pequeno aluno já começou a consertá-lo.

Rodrigo.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Plantar, colher e viver.


O que me sustenta é a colheita que eu faço da vida. Revelações do cotidiano que se tornam frutos repletos de espinhos. Minhas mãos sangram aos recolhê-los e trazê-los ao peito - já não durmo sozinho, pois a vida recolhida descansa sobre o meu peito de menino. Existe um chão a ser pisado, uma história a ser contada e sempre um segredo a ser revelado quando se ama. Chove e esse pingo do lado de fora da janela me batiza por dentro, eu preciso renascer, ser lavado e levado ao lado seguro da vida - é lá que as pessoas são sem ter que representar algum papel ou ensaiar doses de uma vida utópica. Eu sou eu. Cheio de marcas e dores, mas pleno em sabores. Assim também são os frutos - marcados pela violência do campo ou pelas mãos ásperas do trabalhor que a ceifa. Porém permanentes em sua essência.
Tem gente que passa pela vida e quando se depara com os sofrimentos, se fecham ou se transformam em outra pessoa... Se tornam rudes, tristes e fecham qualquer janela que o sol seria capaz de entrar. Deixam de colher as flores em suas diversas cores e ignoram os frutos rasgados pela brutalidade dos acontecimentos, sem compreenderem que não importa a casca ferida, a essência mora no mais profundo de qualquer face dilacerada por alguma dor. Talvez o sofrimento não traga novos sonhos, mas ele é incapaz de retirar o que o amor depositou na alma. O medo da dor é muita das vezes o medo de descobrirmos quem realmente somos e qual é o nosso limite.
Gosto mesmo é de olhar pra quem já sofreu. São olhares que dispensam as palavras porque as perguntas e as respostas já foram vividas e experimentadas no seu devido tempo de plantio, tempestades e colheita do que sobrou. Quando cessam as palavras, nascem os olhares. Dor e ausências são matérias cotidianas. A alegria também. Projeto válido para quem deseja o fundo e não se contenta com a primeira conquista e nem pára no primeiro sofrimento. Aquilo de que foges hoje, amanhã terás de temer ainda mais.
Só quem tem amor à própria vida será capaz de semear sementes no campo que fora alagado e destruído pela tempestade. Não importa se ela destruiu o que havia sido plantado - o que importa é a terra fértil que continua ali, pronta para receber as novas sementes que germinarão vida, amanhã. A dor espalha a sujeira e confunde os sentimentos, mas a essência jamais poderá ser atingida. Somos eternamente férteis para o amor.

Rodrigo .

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

A vida em miúdos.


A vida e seus cuidados. Terna forma de continuar a existência existindo em partes - no todo esmiuçado. Amor que tece a alma em linhas retas que juntas aquecem. Parte por parte cumprindo o ritual da existência. Manhã que se ergue preguiçosa acordando desde o trabalhador até o desgraçado. Raios de luz que gritam, entram em qualquer beco e comunicam que a vida está acesa - vêm vivê-la. A dança sensual de uma tarde em delírios nas promessas cumpridas para o início da noite, cartões trocados, telefonemas à espera e ramalhetes endereçados. O ritual da vida está pronto. Ao cumprir os deveres, a tarde deita sobre o mar e sonha e, sonhando desperta o vento. Noite que chega apagando as luzes do despertar e deixando o velho lampião a andar pelas ruas acendendo as tochas e recolhendo os sonhos dormidos: o amor passou por ali.
Noites que nascem em prantos. Noites que despertam os poetas adormecidos, noites que ressuscitam os vivos...
"Não tenhais medo" já dizia o Mestre. Queira o amanhecer, reinaugure sua tarde se a manhã não trouxe flores, e celebre tua noite em sonhos de paz. Não viva se desculpando para não viver, porque o fracasso pode ser semente, mas a serpente da falta de perspectiva o seu próprio suicídio.
Não dependa de elogios para sentir-se melhor, nem remova o teu passado para dizer que não poderá avançar - o passado é um balaio de sementes boas ou ruins: as boas, replante, as ruins queime no esquecimento.
O maior pecado do mundo é você desistir de si mesmo. Sua ausência é irreparável ao mundo. Não existe serpente, por maior que seja, que o Amor à Vida não seja capaz de matar. E viver é escolher. E se o sofrimento vos visitar, lembre-se: É a dor chegando com sua lousa e giz, pronta pra ensinar...

Rodrigo

sábado, 16 de fevereiro de 2008

A espera .


( Ao som de Andrea Bocelli - Melodramma. )
Recordo-me das inúmeras vezes em que eu te esperava chegar... Ficava parado na esquina, atrás de um muro bem alto e largo só para você não me ver. Vezenquando minhas mãos ficavam raladas de tanto enconstar sobre ele só para tentar te enxergar melhor. O muro era cinza, mas os meus sonhos não.
Eu tinha medo de te sufocar, trazendo nuvens pesadas em sua estação. Você sorria quando saía no portão de casa e acenava para alguém - eu tudo via. Você entrava no carro e logo seguia seu destino. Eu não, eu era um homem parado à sua espera. Por mais que você não conhecesse os meus sonhos, eu conhecia os teus. Eu vivia porque te esperava - não havia outro motivo para explicar os meus pêlos crescendo e o meu olhar pesando sob a tarefa árdua de me tornar maduro, humano.
Eu sempre passava em frente do portão de sua casa ou ficava olhando da minha janela a sua casa, só para me recordar que você existia e era tão real em mim - sem que ninguém percebesse, eu deixava flores... Engraçado que no primeiro dia você comentou com a vizinhança achando que era um ritual de "macumba" ou a distração de alguma mulher que havia sido tão amada e que esquecera o pequeno atalho do amor no chão... O que ela havia recebido já estava consignado em seu coração, não precisava das flores. Então, você recolhia as flores "esquecidas" e depositava no jardim de sua casa um pedaço de mim. Cada flor que embalava nos braços, você embalava um pouco de mim.
No outro dia as flores não estavam mais lá, e eu era bem menos em mim porque eu estava em processo de me eternizar em você. As flores murchavam, mas o meu meu amor não.
Vezenquando quando a saudade apertava, eu chorava. Pegava o telefone e discava com as mãos trêmulas à espera de sua voz do outro lado. Não havia força para a voz, só a dor no processo de recolher saudade e regá-la em lágrimas. "Dor-semente" que só brota no processo de espera.
Os meses passavam. Os anos também. Desejos e saudades eram lançados um por cima do outro num quarto escuro que o meu coração possuía. Só eu tinha chave, só eu velava. Era lá que eu deitava no chão com os braços abertos quando a dor me consumia e as forças que me mantinham em pé desapareciam. Lágrimas-anjo que me banhavam no leito e sofriam comigo em plena solidão acompanhada.
A pessoa que eu mais amei nunca foi minha, mas nunca deixou de estar comigo.

Rodrigo .

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Humanamente herói.


Eu sou um herói que acorda cedo com medo de perder a hora... Sou um herói que pede o colo da mãe quando a dor é maior do que eu. Eu não sei voar, nem tenho asas e não possuo super poderes - sou um herói com uma bomba relógio que bate tum-tum dentro do peito. A cada batida preciso correr contra o tempo para amar. Não existe tempo para as amarguras, rancores desnecessários. O que existe é o apelo pela vida conjugada em seus diversos tempos verbais. Se eu feri alguém no passado, que eu seja herói para curar essa ferida no presente. Se eu não amei o necessário para mudar o mundo, que eu ame o suficiente para me tornar mais humano.
Eu sou um herói que gosta de bife e batata frita.
Um herói que demora no banho, mas um herói que não ultrapassa o limite do respeito e é ilimitado na forma de amar.
Se hoje eu sou um herói é porque eu vi um outro herói muita das vezes deixar o ovo frito no prato dizendo que não estava com fome porque aquele ovo, era o único e, mesmo com fome ele deixava para mim - nas curvas do cotidiano, na clareza das atitudes e na silenciosa forma de cuidar de mim, a vida teceu o meu pai e o chamou de herói.
A minha heroína lavava roupa no tanque, cozinhava aipim, fazia café e arrumava a minha mochila para eu ir à escola. Ela nunca vôou, mas possuia poderes de marcar a minha vida com amor... Poder este que eu não via nos heróis da tevê.
O mais bonito de reconhecer com esses meus 25 anos é que não sou um herói pronto - pois o único super poder que trago é a herança amorosa dos meus pais, chamada: o poder do amor. Com ele não posso voar, mas consigo ser atemporal na forma de reparar a insensibilidade das pessoas no mundo.
Qualquer forma de amor, cura. Eu não sei quais são os heróis que você teve em casa, nem quais os super poderes que sempre quis tê-lo para ser feliz. Acredito que mesmo no pouco, na falha, no cansaço, eles revelaram algum ato de heroísmo, não detonando os inimigos, mas te preservando da fome, comendo a farinha para deixar o pouco de feijão para você...
Qual tipo de herói você quer ser? Momentâneo ou eterno?
Têm pais que criam heróis fortes para competirem, mas ocos para amarem.
Já ouvi muita gente, comunguei de tantas teorias, admirei os grandes mestres, filosofei, invadi a terceira margem de Guimarães Rosa, chorei com Adélia Prado, me aventurei com Caio Fernando Abreu, mas AMAR eu só consegui aprender ao lado do meu pai e da minha mãe.
Hoje preciso ser mais ousado que Guimarães Rosa... A forma de heroísmo dos meus pais eu compreendi fazendo o exercício de enxergar na quarta margem, pois a terceira margem não foi suficiente para abrigar o amor que explodia cotidianamente nos gestos do meu pai e no sorriso de minha mãe.

Rodrigo .

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Janelas .



A felicidade é como o sol, abraça e aquece. Ela acontece sempre, mas eu tenho a total liberdade em escolher abraçá-la ou fingir que ela não veio. Já encontrei com pessoas que só reclamavam da vida. Ainda existe pessoa que reclama, reclama, reclama e não se esforça para abrir o coração para recebê-la. São pessoas que esperam uma felicidade surreal, utópica e do tamanho do caminhão das casas Bahia. Aposto que se não acordarem, morrerão com o acúmulo de cegueira. Viver a parte que me cabe da alegria que é infinita é o meu papel - posso ser feliz quando reconheço que a felicidade não é somente minha, ela se divide e me dá a parte que me cabe. Por egoísmo, corro o risco de não desfrutá-la no tamanho cabível a mim. É que nem quarto escuro. Não preciso quebrar toda a parede ou retirar o telhado para a luz entrar, basta apenas o necessário de espaço para uma janela - aí os raios entram e clareiam. Na minha vida também é assim. Talvez eu ainda esteja só porque eu exigi o todo, e felicidade não funciona sem partilha. Por isso que os relacionamentos não duram, e os casamentos vão por água a baixo... Um quer o outro por inteiro e não suportam querer dividi-los com a família, o trabalho e os amigos. É que às vezes um colo de mãe vale muito mais que um colo de uma esposa. Quero dormir com a certeza da janela. Ela pode ser pequena mas transmite o necessário para iluminar meu quarto e trazer o brilho da luz. E na vida também é assim - eu não preciso quebrar o teto ou derrubar a casa para sentir o calor da luz e saber o quanto ela é fundamental... como homem preciso acolher a alegria como pequenos raios que chegam em mim mas encontram a janela da minha alma tracada. Se há frio na alma é porque existem trancas no coração. Eu quero acordar mais cedo, para que a felicidade que ainda mora do lado de fora da minha vida, entre.

Rodrigo .

Imagem .




Não quero nunca desejar a morte, a não ser por santidade, como a chamou Francisco: irmã."



Coração disparado - Adélia Prado.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Existe uma falta.


Existe uma falta. Um buraco no peito que sangra - jorra saudade. O que você anda fazendo com o meu coração? Você acha pouco ter me abandonado numa tempestade?
Aquele dia era frio e o vento cortava os meus lábios. Cada palavra que você dizia cortava pedaço de mim, e eu sangrava.
Tão fácil voltar como anjo preto e ficar apenas aí, parado na porta ou encostado nessa janela que me abrigou meses à espera da sua volta! Não peça para eu deitar nesta cama com você. Pare de se insinuar... Pensei que você tinha mudado, mas não... chega, invade os meus sonhos, deita na minha cama como um anjo e nas asas esconde um machado.
- Ei... já não basta os pedaços de carne espalhados pelo quarto, as escadas banhadas de sangue e de porta retratos? Não me olhe assim, eu preciso viver cara! A vida passa pela vidraça - dança na minha mente, e ao som de Tori Amos me leva sempre... Sai da minha cama, sai?! Por favor. Eu preciso dormir. Põe tuas roupas, guarde essas asas, são lindas, mas mortais. Enquanto eu estiver acordado eu posso tirá-lo daqui. Você sabe que posso...
- Eu sabia que você viria.
- Por que?
- Porque ontem eu chorei.
- Então venha dormir no meus pêlos...
- Vai embora. (suspiros)
- Ou o quê? Você quer que eu não durma?
- Tudo bem... você têm direito a uma frase, abra essa boca maldita e diga o que você quer dizer. Digaaaaaa! Digaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Você não percebe como eu sofro?
- Eu chorooooo!
- Tá bom, calma calma, pxiiiiiiiiiiiiiiu...
- eu digo: Você pode até me tirar da cama enquanto estiver acordado, mas eu prometo morar nos teus sonhos quando você estiver dormindo. Porque tudo àquilo que um dia a gente mais amou, se eterniza em algum canto de nós.

Rodrigo.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Voe.


"...depois de todas as tempestades e naufrágios o que fica de mim e em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro."

Caio Fernando Abreu


Tive acesso a um arquivo pessoal de 4 anos, histórias e fotos ancoradas nas imagens e nos pequenos textos. Eu sempre aproveitei o passado como forma de aperfeiçoamento para o futuro. Porém, existem marcas que não me ajudam em nada - pelo contrário, atrapalham. Têm gente que vive do passado, chora, lamenta mas não é capaz de erguer um nova história e cantar um novo canto. Bem sei que não é fácil. Mas é possível. O coração humano depois de ferido e cansado, foge, teme o novo e vai perdendo o brilho original do amor. Gostaria de voltar no tempo e consertar coisas que fiz, pessoas que eu magoei, abraços que não abracei, sorrisos que neguei e lágrimas que escorreram por mim. Mas não posso! Enquanto junto as partes deste grande quebra-cabeça que é a vida, entendo o enredo do amor e nele me inscrevo para uma nova tentativa. Eu quero e serei melhor.
Os gestos que neguei e as ausências que velei são reflexos dos sonhos que trago no peito. Sou um homem sendo feito, não acabado. Enqüanto a multidão ergue a bandeira do sangue e do samba, da canção e da máscara, eu ergo a canção da verdade e retiro qualquer fantasia que maltrate o meu coração e me faça menor. Existem pessoas que sobrevivem do pouco do que sonharam para elas... eu sobrevivo do sonho que escrevo no cotidiano da minha existência.
Queria olhar nos olhos dos cansados, dos desiludidos e dizer que viver é ainda a melhor resposta para qualquer saída. Que viver bem é a melhor resposta para àqueles que não nos querem bem.
Hoje eu quero voar, reencontrar sentimentos, perdoar os meus erros e seguir...
Quero abraçar quem posso,
pedir perdão ao coração que alcanço,
e tentar ser melhor no amor em nome daqueles que magoei e hoje não tenho mais a oportunidade de ir ao encontro.
A melhor forma de curar a própria alma é curar a alma do outro.
A melhor maneira de recomeçar a vida é compreender as perdas como dores necessárias para o crescimento.
O amor é o par de asas que me transporta para o infinito da vida...
Porque a lágrima de tantas noites é hoje o sorriso deste texto.


Rodrigo.