domingo, 4 de novembro de 2007

Fragmentos!



É inevitável ultrapassar os limites que o tempo nos impõe, sem sair com arranhões.



“Essa morte constante das coisas é o que mais dói. (...)
Depois de todas as tempestades e naufrágios,
o que fica de mim em mim é
cada vez mais essencial e verdadeiro.”
(Caio Fernando Abreu)



Viver é um constante morrer. O tempo vai passando e os portões enferrujando – as casas virando história de gente grande e nós deixando cascas onde quer que toquem, onde quer que pisem. Esse jeito peculiar de morrer não deixando de respirar, de fazer a barba, de tomar banho, beber café todos os dias é o ato mais doído quando perceptível. É que nem sempre as pessoas tendem a enxergar o que perderam, mas sobrevivem para conquistarem o que bastará alguns dias para tornar-se apenas uma história recolhida no retrocesso da saudade. Eu vivo para morrer e na perda, receber o que ainda não havia tocado. O vento que me toca e me assedia – a chuva que me banha e me deixa gripado, talvez seja um jeito que o Eterno resolveu de me recolher aos poucos.
Já é noite e chove. Através da janela, insisto em esperar até que você venha – quebrando a virgindade da rua vazia e molhada, gritando meu nome e correndo com passos largos em direção ao portão, ainda fechado. Só posso tocar o que o vento e o tempo não levaram. Ainda chove. As luzes de mercúrio velam o rito da solidão do asfalto e alcançam o palco da sua ausência em mim – nele atuo sem máscaras à sua espera. Neste quarto vazio a luz negra do abajur me assedia – como uma cigana sem identidade pronta a me lançar no destino. Inevitável é a dor – o desassossego. Desfaço-me em cheiro que necessita do teu cheiro – em carne que necessita do calor da tua carne, do teu suor em mim reinventando verbos e encerrando o tempo em nós.
Cada vez que você não vem, é o tempo necessário para a morte recolher um pouco de mim – fragmentos envelhecidos – esquecidos na conjugação do verbo “esperar”. Mas morrer não é o fim, é um constante nascer que o enredo do tempo recolhe de mim e deposita nos teus sonhos.
Meu discurso: preciso que termines dentro de mim.

Rodrigo Rudi *



__________________________________________________________________________________________
(* letrado do último período de Letras, maluco, estagiário e pensando que é gente).

Nenhum comentário: