
Não choro. Apenas reacendo em mim o que a estação dos ventos trouxe: a minha infância ao lado do meu irmão a empinar pipas ao céu.
A tarde de hoje resolvera me presentear com algumas delas por aqui. Cores diversas com suas rabiolas a se enroscarem nas linhas da minha alma de menino.
Enquanto ele preparava a linha, escolhia as cores e os desenhos que seriam exibidos com orgulho entre os meninos da rua, eu ficava ao lado, pronto para me tornar sacrário do seu amor.
Nunca perdi a capacidade de admirá-lo. As cores escolhidas por ele, para alegrar o céu com suas pipas diversas, atravessavam o corredor dos meus olhos e me fazia mais feliz. É nessa hora que vivo a mais sublime das experiências humanas: a partir delas, se torna inevitável morrer de ausências.
O meu irmão me humanizou por meio de pipas deixadas no céu azul da saudade. E, que de alguma forma, são celebradas pelas que voam nas mãos de meninos desconhecidos.
Deus me devolve ele aos poucos, em fragmentos, em tardes de junho, fazendo-me redescobrir que antes de sua partida, ele soube deixar entre a lata e pipa, a lição de que o amor sobrevive ao tempo e à morte.
A mística que trago é a certeza plena de que o lugar mais alto que ele atingira, fora o céu da minha própria vida com a oração da sua existência em mim.
Se a chuva pingando desenterrou o pai, no poema de Drummond. Uma pipa no céu ressuscitara o meu irmão na comunhão dessas palavras.

