segunda-feira, 22 de março de 2010

Amanhã de manhã.



O que seria da primavera se o outono não cumprisse com o ofício de conscientizar as árvores das possíveis perdas necessárias?
É necessário perder para ganhar.
Folhas que se vão... e a natureza toda sendo despida dos seus apegos. É hora de despedir-se. Ainda que doa. Ainda que o estalo da solidão faça eco dentro de nós.
Assim é a vida. O novo precisa de espaço. Não se pode plantar um jardim num terreno lotado de lixo - é preciso limpeza do superficial, dos excessos e do mal cheiro. Passamos a vida inteira colecionando terrenos baldios, e com isso nos tornarmos pessoas amargas, infelizes.

A alegria só é plena quando os nossos apegos, secos e egoístas, são lançados ao chão e queimados.
O que precisa ser lançado fora da sua vida para que você seja feliz? Aprenda com o outono.
É uma paixão que não dá fruto? São amizades superficiais ou ressentimentos que não permitem novos sabores? Coloque todos eles sobre a mesa e escolha o necessário para seguir em frente. Só não se esqueça que a única pessoa que pode mudar a sua vida é você.

Observe a beleza dessa passagem. Prepare o coração para o amadurecimento. Fecunde suas raízes no inverno e, esteja preparado para o florescer de um novo tempo.

Rodrigo .

sábado, 20 de março de 2010

Projeto #vidatweet

Hoje foi ao ar a reportagem no Plug RPC sobre o #vidatweet.
Veja o vídeo:



Um projeto literário de microcontos de Rodrigo Rudi_RJ e Flávio Jayme_Curitiba!

Visite nosso site: http://vidatweet.blogspot.com/

Abraço!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Manoel de Barros.

Mundo Pequeno

(do livro "O Livro das Ignorãças")


I

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Sylvia Plath (DVD)


"Vi a neve no Smith pela primeira vez. É como qualquer outra neve, mas eis-me aqui, portanto, em meu quarto. (...) Não dá para me enganar e escapar à constatação brutal de que não importa o quanto você se mostre entusiasmada, não importa a certeza de que caráter é destino, nada é real, passado ou futuro, quando a gente fica sozinha no quarto com o relógio tiquetaqueando alto no falso brilho ilusório da luz elétrica. E, se você não tem passado ou futuro, que no final das contas são os elementos que formam o presente todo, então é bem capaz de descartar a casca vazia do presente e cometer suicídio."


Sylvia Plath.

domingo, 7 de março de 2010

Moço atemporal.



O Diogo é moço certeiro que já traz no nome poças plenas de palavras
em formas de canções.
A sua palavra têm o dom de acordar o mundo,
abrir os horizontes,
presentear o outro com o milagre da terceira margem,
um dia ensinado por Guimarães, o Rosa.

Palavras que ardem do coração do poeta e
acordam o mundo
com seu sabor de leveza.
Gesto que põe uma fala em tudo o que antes era mudo.
Claves que despertam os silêncios,
e mensuram o valor do amor,
no seu habitat atemporal em nós.

Por meio delas, o princípio do verbo
é recriado contrariando a ordem cronológica do tempo
e emprestando sabor à eternidade.

É moço do bem da palavra,
que sabe ceifá-la no tempo oportuno
e tecê-la
uma
a
uma,
com leveza e destreza
e, assim, revestir o mundo com os acordes
que acordarão a nossa essência.

É pássaro que recria novos cantos,
sempre ao doar o que possui de melhor.

Diogo é a existência em canção
que o vento canta.
Não há arte que suporte tamanha beleza.
É por isso que eu digo:
suas canções não me deixam dormir.
Ou porque clamam por fora,
ou porque clamam por dentro de mim.

Um só reparo nos teus versos,
deixa conseqüência na minha alma
de menino,
esta que soube compreender
que pássaros nascem das vozes,
e dos sabores daqueles
que passam pela nossa vida,
amando
em
canções.

Diante dele a gramática obedece,
a semântica acorda o reverso
e a arte arde
em algum canto do dia.

Diogo é moço que pára o tempo
só para colher poesia do vento.

Pois,
Enquanto ele canta,
a vida é recriada
a mesa é posta
e a celebração da vida, acontece.

* Trechos adaptados_ fábio de melo
Rodrigo Rudi .

sábado, 6 de março de 2010

curso de poesia.



Nunca frequentei curso de poesia,
era moda cara e só para gente grande.
Eu andava era na garupa da bicicleta vermelha
do meu pai.
Enquanto ele me levava para a escola -
no meio do caminho
eu colecionava silêncio
entre o vento e os pardais.
E, mesmo meu pai
sem ter nunca lido um poema
pode me ensinar a escrever
nas idas e vindas
entre as
batidas das latas avermelhadas,
o livro mais bonito de poesia -
que só hoje descobri
estar guardado dentro de mim.

Rodrigo Rudi .

ep. 1.



Enquanto eu rasgo
a semântica desse poema
as minhas mãos
s
a
n
g
r
a
m
sentimentos.

Rodrigo Rudi

quarta-feira, 3 de março de 2010

Entre rios e margens: você.




A vida está escondida na alma. Tenho a nítida impressão que é dentro da essência de alguém que podemos tocá-la de forma límpida e transparente. Amores e lições.
São bem poucas as pessoas que são capazes acender as luzes do coração da gente - o máximo que ocorre são "esbarrões" nas frestas que o cotidiano permite acontecer; vento silencioso que não causa alarde e nem traz acréscimo de vida.
Há outras pessoas que chegam de mansinho, transfiguradas no dom que lhe é peculiar e vai construindo terceiras margens dentro do nosso peito.

No grande remar que é a minha vida, tive a honra de encontrar alguém que marcou a minha vida de forma certeira. Começando a partir de várias classes gramaticais - substantivos que nomearam a minha nova vida, adjetivos que me fizeram reerguer a partir do que eu possuía de melhor, num momento de profundo calvário na minha vida...

No meio do rio, eu a encontrei. Moça das palavras silenciosas, do gesto terno, do amor doado por meio dos vastos sorrisos sinceros. Moça de Pietá - com todos os seus sofrimentos, pôde me segurar nos braços me devolvendo o dom da vida no abismo do silêncio e das saudades ancoradas.

Como um rio passa e o barco segue, assim fomos seguindo. Em alguns momentos eu não a via mais parto de mim, mas dentro das salas acesas da minha alma. Fez da palavra uma ponte para me visitar e nunca mais deixou de me fazer companhia.
Embora a distância concreta dificulte o nosso carinho constante, eu a encontro diariamente nos versos e reversos da mais viva poesia. Ela não passou. Apenas se transfigurou em poemas para permanecer sempre ao meu lado.

Depois de crescido, posso ver o quanto dela existe dentro de mim. E prossigo a remar e a recolher os pequenos bilhetes de amor que ela insistiu em deixar em mim, para que me sustentassem ao longo de toda travessia.
O seu amor e carinho se escondem por todos os cantos, e constantemente doam eternidade ao temporário em mim.

A vida é generosa e derrama no ir do meu grande rio, bem aqui, no silêncio dessa tarde chuvosa os ensinamentos mais raros que alguém pode deixar no outro por amor. Talvez você nunca soube que protagonizava tudo isso. Me pego a olhar as tuas fotos e busco revelá-la nessa descrição simples. Será o meu texto a revelação da tua grandeza ou a tua vida a revelação do motivo para eu persistir?

O que sei é que existe uma redenção no tempo. Broto miúdo de felicidade que, descobrindo uma fresta entre as nuvens de minha vida, quase sempre vem iluminá-la. O texto e o seu contexto, preceito hermenêutico que dilata o horizonte e o plenifica de sentido. Como Clarice L. dizia: "Há palavras que estão por detrás das palavras."

Em você, Roberta, reconheço a poética da existência. O reparo que um dia você soube deixar no meu caderno deixou consequência na alma. Eu e você. Cumplicidade absoluta e plena. Eu enrolando as dores e você enrolando as palavras, garimpando as semânticas nas margens necessárias e me ensinando a ser mais gente com o seu sabor de vida.

Já dizia o poeta: "Literatura é multiplicação de vida". E por entre os remos, um livro na mão, no meio desse grande rio, envolto de tantas margens, você é o mundo inteiro no pequeno espaço do meu existir.

Obrigado e parabéns!

Rodrigo .

terça-feira, 2 de março de 2010

Frestas.





Lá em Minas Gerais há uma expressão que diz: "Olhar pela greta da janela". Gretas são frestas. Pequeno espaço conceitual que divide aquele que espia e o que está sendo espiado, olhado, encontrado. Vezenquando eu ouvia isso em casa: "Filho, olha pela fresta da porta e vê quem está chamando..." O recado era claro: identifique primeiro quem é, depois, abra.

Minha gente, na vida é assim. Passamos o tempo inteiro pela experiência do limite. Frestas são limites que nos impossibilitam encontrar o outro de maneira completa. Posso espiar, sondar, consultar o que é preciso ser visto, mas enquanto eu estiver do lado de cá, o que se está além, não pode sentir o meu toque. E talvez, nem a minha presença.
Na vida passamos diariamente pelo mérito de olhar o que se passa distante de nós. Ver pela fresta é mais fácil. Não me compromete. E a experiência que poderia nos ensinar sobre limites e possibilidades, acaba nos aprisionando e passamos a vida toda a espiá-la.
Olhar apenas não é o mesmo que está inserido na vida. O olhar de consulta não garante a vivência a partir do que se vê. O primordial é dar os passos.

Conheço pessoas que passaram o tempo todo apenas olhando a vida passar. Pessoas que se acostumaram a olhares pequenos. Gente metade. Que sacrificaram a própria vida e sobreviveram de pequenos restos que era possível colher daqueles que tocavam a vida no cotidiano. Essa pessoa pode ser eu. Também pode ser você. Eu não sei! A única certeza que trago é que ninguém pode ser feliz sem a experiência de romper com as frestas. Viver por meio delas é aceitar rastejar aos pés do possível, mas não prová-lo.

Todo ensinamento sempre concede uma passagem de voo. As frestas, também. Quando se colhe o alimento para a alma, a fresta se torna galho para firmar o voo dos pássaros. Têm reclamado da vida? De que lado você está?

Ouso hoje em mudar o ditado: "Filho, saia da greta e vai abraçar a vida que te espera." O recado que transmito a você, primeiro passa por mim. Lembre-se: frestas são limites que devem nos impulsionar a compreendermos o valor ilimitado do amor.

Frestas não são casas. São passagens.