domingo, 30 de novembro de 2008

Ausência preenchida .


"Esta falta que me causas é como dor que não se localiza. Falta não sei onde e não sei o quanto. Espaço não configurado, não conceitual, imensurável. O que sei de mim, plea força da saudade, por vezes, me esqueço. É como labirinto não sinalizado por onde recolhos pedaços, fragmentos de mim. Levaste a senha da minha inteireza e desde esse momento me assombro de tanta ausência.
Consolo-me na observância silenciosa dos teus segredos que em poucas frases legaste. Há nelas uma fragilidade se esvaindo pela cavidade do tempo. É impossível negar. É teu ressuscitar sereno, ampliando a tua ausência em mim. Roubas o que sou e me tornas a sepultura de onde sais. Sou o espaço da tua inabitação. Sou a saudade que te evoca e te concede uma criativa forma de continuar. Pois a saudade é uma forma de ficar."

Fábio de Melo

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Amor que ressuscita .


Era apenas mais uma mulher na fila para ser atendida pelo gerente do banco. Mulher de traços finos, aparentemente sorridente e morta por dentro. Há um mês ela havia sepultado seu único filho de 28 anos de idade, morto num acidente trágico de carro. Com poucas palavras confessou a dor de estar ali para encerrar uma conta bancária deixada por ele. O filho não comunicou que sairia naquele momento e foi.
Eu olhava para aquela mulher que eu nem sabia o nome e velava com ela o filho "aparentemente" morto no olhar e nas lágrimas retidas que ela segurava com as mãos no rosto. Eu me senti como João, o único seguidor de Jesus que ficou aos pés de cruz junto com Maria. As palavras cessam, e a dor acende o seu tecido fino no lampião da tragédia. Naquele momento a minha única vontade era retirar do coração, daquela mãe, o sentimento de pleno abandono e solidão a que se encontrava. O filho era único. O marido falecera quando ainda era jovem - teceu a vida e os sonhos ao lado do filho, vendo-o crescer, educando, se preocupando, não dormindo enquanto ele não chegasse em casa e tendo orgulho de vê-lo com seus 28 anos.
Eu não tive voz necessária nem consolo cabível na confissão dolorosa de uma mãe que havia sepultado o seu filho.
Ela dizia: "É um amor diferente. Não é igual ao amor de irmão, nem de marido ... é amor de mãe para fiho..." Eu chorei, ainda que na alma, chorei silenciosamente. Queria abraçá-la, aconhegá-la em meu peito e dizer baixinho: chora, chora mãe... eu vou te proteger por ele.
Espero que essa mulher, batizada nesse texto, como Senhora das Dores, seja forte para ressuscitar o próprio filho a cada dia dentro do coração e da alma.
Lágrima de mãe e saudade são orações capazes de retirá-lo de toda perda e fazê-lo reviver em seu ventre. Mães que perdem os filhos são capazes de ressuscitá-los pelo amor.
O filho que estava ali, externamente nessa vida passageira, agora ali, sacralizado no seio de uma mãe que esperará o amanhecer para encontrá-lo vivo N´ela. Eu não conheci o rapaz, mas te asseguro: ele não morreu. Sua presença é notável nos lábios e no olhar dessa mãe que o traz tão ninado na alma - ele se foi para muitos. Mas para ela, não! Essa mãe descobrirá dia-a-dia que o amor é mais forte que a morte ... e que a ausência do corpo não representa a ausência da existência.
Ele já não faz parte do tempo cronológico - se tornou atemporal no coração da mãe, que o levará em todos os lugares que passar, deixando rastros de ressureição com o seu testemunho de amor.
Ela começou hoje, a passar por mim, me trazendo o filho tão vivo no olhar e os ensinamentos tão silenciosos a me ofertar.
Compreendi o motivo dele não ter avisado que saíria ... de alguma forma ele voltaria, e voltou.
Estava ali a ressurgir sereno na confissão amorosa de sua mãe.

Rodrigo.

domingo, 16 de novembro de 2008

estação favorável .


Eu queria ter o destino nas mãos. Mas não posso, sou humano que vive sob o fado das estações da vida. São elas que inauguram ou que sepultam os momentos diante de mim. Eu queria o destino, mas eu tenho a chave. Posso abrir para receber as estações das flores, colher o vento ou trancar a porta que dá acesso ao meu coração. Vida e estações - estradas necessárias para o meu fazer humano.
A vida com suas surpresas. O menino com os seus sonhos.
Assim, acolhi as estações das flores em minha vida há uma semana. Sementes que germinaram no coração do Pai e que foram entregues a mim em forma de presença.
A diferença está na qualidade do ramalhete. Não são flores artificias ... são flores que receberam muita água, enfrentaram muita tempestade, noite de pleno vazio e resistiram. Flores que compõe a sinfonia da Vida - a vida sobreviverá, sempre.
Eu já conhecia o campo, a beleza de cada uma, mas não conhecia a raiz. "Inverno é um tempo em que a árvore vive para dentro." Não as conheci nos invernos que elas haviam enfrentado.
Quando a percebi sobre a minha vida, eu amei cada pétala.
Quando somos apressados de mais na vida das pessoas, corremos o risco de enxergarmos apenas o superficial. Com esse ramalhete tem sido diferente. Eu o recebi, tomei-o nas mãos e o depositei sobre ela, até que ele se enraize dentro de mim.
Não quero correr o risco de me deixar levar pela superfície. Ele é mais. E levá-lo para casa é a forma definitiva para eu amá-lo cotidianamente.
No silêncio das estações, nas sensações que ela traz ao coração, no ramalhete entregue ao meu coração de menino, está a presença silenciosa de alguém que chegou para florescer a minha vida.
Não posso reclamar do que vivi, nem lamentar o que eu não tive. Foi necessário cada momento vivido. Vejo cada parada na beira da estrada como ensinamento - vejo esse presente de Deus em minhas mãos de menino, como forma definitiva de esperança. Flores que se trasformam em sementes que me acompanharão sempre: crescerá o que eu semear.
Talvez seja por isso que muitas pessoas apenas "esbarraram" em mim. Fora necessário para que o seu lugar fosse preservado enquanto ele era sonhado e tecido pelas mãos de Deus.
E juntos, seguimos atados: água, solo e sementes.
Que o nosso jardim seja regado pelo Autor da Vida e, celebrado por aqueles que sempre torceram por nós.
Você não vive por mim, mas sustenta o meu viver.
Eu te amo.

Rodrigo .

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

E agora, você?


Acordei para trabalhar e havia apenas a quinta-feira cumprindo o seu passar pela via da minha vida. Coloquei na mochila alguns livros e eles permaneceram dormindo e não causaram nenhum alarde na semântica do meu dia. Apenas um fugiu. Poesia reunida de Drummond. Partilhei com os meus pequenos de forma doce e poética a existência de um tal Drummond, nascido em Itabira, mas que poderia ter nascido em tantos outros lugares - era apenas um detalhe, mostrei coisas mais interessantes, como a pauta que Drummond usava para tecer de forma lírica a sua poesia, leve e marcante como as asas de uma borboleta.
Um dos poemas escolhido: José.

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
O poeta questionou de forma única o tipo de escolha que José faria diante de uma história ancorada na derrota. E agora, José?
Poeta que cumpriu o papel de colocar a vida diante de José e pedir resposta. Passado que passou e que deixou fragmentos de um agora necessário. Eu lírico que descreveu todo processo de perda que vivera José, não para mostrar o mal que havia feito, mas para acordá-lo. Dores paralisam. Fiquei pensando nas minhas. Fiquei pensando que esse José também pode ser o Rodrigo, o João, a Marta, a Gorete, e tantos outros nomes que abrigam seres humanos que se vêem no limite. Dores que nos retiram da superficialidade, que acalmam as ondas que insistem em batizar o nosso barco sem rumo e sem travessia.

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
... está sem paz, está sem amor, está sem o pai, a mãe ou aquele a quem sem ama... E agora, José? Rodrigo, Darlan, Marcos? ... Alguém já disse que a insistência das perguntas é para acordar José. "Diante do sofrimento, não temos o direito de dormir."
Acordou o José,
Me Acordou, e agora já não consigo dormir. São perguntas fortes em mim.
Acordei para ensinar, e quem saiu com a lição de casa foi eu.
Drummond me tirou da cadeira de professor e me colocou no banco de aluno. Só que a escola não era a que entrei pela manhã, é a que encontrei quando saí daqueles portões - a minha própria vida.
Insensibilidade nos faz perder na vida. Dureza também. José não sabia sofrer. E eu ainda tenho aprendido a lhe dar com a dores. O único caminho que havia para José trilhar, seria a volta para dentro de si mesmo. E é o mesmo caminho que a poesia de hoje me colocou - dentro de mim . Lugar preferido por aqueles que desejam voltar a viver, recomeçando.

Rodrigo .

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Dores que chegam .


Dor é sempre dor. Chega quando menos esperamos, na calada da noite, na ousadia do dia ou na quietude da tarde. Não importa o horário, nem o tempo, prevalecendo na casca do substantivo e causando novos rumos da vida dos humanos. Casa com janelas abertas, sol ensaiando ao vento os melhores sentidos, e a dor de mala batendo à porta. Não escolheu a casa do vizinho. Veio de longe, chegou no sol do meio dia e insiste em anunciar a sua presença no portão da alma. Existem dores que chegam, modificam a rotina da casa e ensinam ... Há outras que trazem dias, semanas, meses ou até anos de mofo - janelas fechadas, brinquedo esquecido na varanda, cartas no portão que fora abraçado pela ferrugem e elas fazendo de refém os que ali habitam. Há outras dores que levam embora em pouco tempo aqueles que ai moravam. Roubam seu rosto, sua paz e transformam os habitantes da casa em corpos vazios, a alma já não habita.
Dores são visitas que chegam sem avisar. Não telefonam, nem escrevem ... mas surpreendem. Dores que ensinam, amadurecem, matam ou enlouquecem quem as recebem. O maior medo que tenho é de avistá-la no portão da minha casa e deixar que ela me distancie do valor que possuo.
Dor mata quando não cuidada. Dor apaga sonhos, derrete faces, sangra almas e deposita todos os sonhos no cárcere do olhar - lá, onde será o único lugar que ainda restará algum brilho: são os sonhos aprisionados e morrendo aos poucos, ainda que pedindo socorro no silêncio.
Ninguém precisa sorrir quando a dor visitar, mas as pessoas não tem o direito de desistir da vida quando a dor chegar. Dores são como estações ... chegam, celebram a vida ou a morte em nós e deixa o legado de escolha: passei por aqui, deixando a escolha de continuarem ou de desistirem.
Hospedamos uma grande dor que chegou em 1994, se hospedou aqui por 3 anos e levou o corpo do meu irmão em 96.
Por que apenas o "corpo"? Porque foi uma dor que levara apenas o cárcere que ele habitava tantuando-o na minha alma, e o ressuscitando no coração do meu pai e o devolvendo no colo da minha mãe, de onde um dia ele surgiu. A única ação que a estação da dor jamais poderá fazer é retirar de dentro do coração aquilo que um dia o amor tocou. "Porque tudo aquilo que um dia o amor tocou, se eternizou em algum canto de nós."

Rodrigo .