domingo, 29 de julho de 2007

RIO


"Tantas mortes, não existem mais dedos nas mãos e nos pés pra
contar os que se foram. Viver agora, tarefa dura. De cada dia arrancar das
coisas, com as unhas, uma modesta alegria; em cada noite descobrir um motivo
razoável para acordar amanhã"

Anotações sobre um amor urbano. (C.F.A)
Cheguei cedo do RIO. Não fui assistir aos jogos do PAN não! Resolvi me distrair, respirar... Quando cheguei dentro do ônibus, lembrei que não havia levado livro algum na mochila, droga - se bem que, quando a gente lê muito em viagens, a gente corre o sério risco de perder o livro que é escrito a cada minuto, frente aos nossos olhos - Como diria Caio, "ando meio clack". Bem, às vezes péssimo e mal humorado. Tento compreender certas coisas na vida, mas não entendo. Por mais esforço que faça e, por mais bom menino que eu seja.
Não quero pensar muito. Prefiro me distrair nos sonhos que me sustentam, nos amigos que me encantam e na pessoa que me ama. Vou aproveitar para ler alguns livros; quando estou triste, estranho, clack, nada melhor que um bom autor para aliviar minha existência. Tarefa difícil essa, não? A tarefa de existir. Me drogo, vomito e como Caio (no bom sentido). Amo esse homem! Grande escritor, humano e profundamente poético. Se ele estivesse vivo, marcaria muitos cafés para aprender o que ele entendia tão bem: a vida e o preço alto que pagamos quando cumprimos o ritual de Ser humano. Viver tem o seu desafio, sabe? Gosto de pensar em Drummond - com o poema - "Consolo na praia"...
Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
(...) Mas, e o humour?

Like an angel...

"O cheiro do teu corpo persiste no meu durante dias. Não tomo banho. Guardo,
preservo, cheiro o cheiro do teu cheiro grudado no meu. E basta fechar os olhos
para naufragar outra vez e cada vez mais fundo na tua boca. Abismos marinhos,
sargaços. Minhas mãos escorrem pelo teu peito. Gramados batidos de sol, poços
claros. Alguma coisa então pára, todas as coisas param. Os automóveis nas ruas,
os relógios nas paredes, as pessoas nas casas, as estrelas que não conseguimos
ver aqui do fundo da cidade escura. Olho no poço do teu olho escuro, meia-noite
em ponto. Quero fazer um feitiço para que nada mais volte a andar. Quero ficar
assim, no parado. Sei com medo que o que trouxe você aqui foi esse meu jeito de
ir vivendo como quem pula poças de lama, sem cair nelas, mas sei que agora esse
jeito se despedaça. Torre fulminante, o inabalável vacila quando começa a brotar
de mim isso que não esta completo sem o outro".

Caio Fernando Abreu.

Sobre o Amor ...

"Amor que é amor dura a vida inteira. Se não durou é porque nunca foi amor. O amor resiste à distância, ao silêncio das separações e até às traições. Sem perdão não há amor. Diga-me quem você mais perdoou na vida, e eu então saberei dizer quem você mais amou. O amor é equação onde prevalece a multiplicação do perdão. Você o percebe no momento em que o outro fez tudo errado, e mesmo assim você olha nos olhos dele e diz: "Mesmo fazendo tudo errado eu não sei viver sem você. Eu não posso ser nem a metade do que sou se você não estiver por perto."O amor nos possibilita enxergar lugares do nosso coração que sozinhos jamais poderíamos enxergar. O poeta soube traduzir bem quando disse: " Se eu não te amasse tanto assim, talvez perdesse os sonhos dentro de mim e vivesse na escuridão. Se eu não te amasse tanto assim talvez não visse flores por onde eu vi, dentro do meu coração!"Bonito isso. Enxergar sonhos que antes eu não saberia ver sozinho. Enxergar só porque o outro me emprestou os olhos , socorreu-me em minha cegueira. Eu possuia e não sabia. O outro me apontou, me deu a chave, me entregou a senha.Coisas que Jesus fazia o tempo todo. Apontava jardins secretos em aparentes desertos. Na aridez do coração de Madalena, Jesus encontrou orquídeas preciosas. Fez vê-las e chamou a atenção para a necessidade de cultivá-las. Fico pensando que evangelizar talvez seja isso: descobrir jardins em lugares que consideramos impróprios. Os jardineiros sabem disso. Amam as flores e por isso cuidam de cada detalhe, porque sabem que não há amor fora da experiência do cuidado. A cada dia, o jardineiro perdoa as suas roseiras. Sabe identificar que a ausência de flores não significa a morte absoluta, mas o repouso do preparo. Quem não souber viver o silêncio da preparação não terá o que florir depois...Precisamos aprender isso. Olhar para aquele que nos magoou, e descobrir que as roseiras não dão flores fora do tempo, nem tampouco fora do cultivo. Se não há flores, talvez seja porque ainda não tenha chegado a hora de florir. Cada roseira tem seu estatuto, suas regras...Se não há flores, talvez seja porque até então ninguém tenha dado a atenção necessária para o cultivo daquela roseira. A vida requer cuidado. Os amores também. Flores e espinhos são belezas que se dão juntas. Não queira uma só. Elas não sabem viver sozinhas...Quem quiser levar a rosa para sua vida, terá que saber que com ela vão inúmeros espinhos. Mas não se preocupe. A beleza da rosa vale o incômodo dos espinhos... ou não."
Lindo... né?

Hoje eu não sei dizer.


"Hoje eu não sei dizer. Só sei sentir. Há dias em que as palavras não são capazes de traduzir o sentimento. E por isso a solidão se instaura. A sensação de estar só é a mesma de não saber dizer.Talvez seja por isso que só as pessoas que verdadeiramente se amam são capazes de suportar o silêncio... Ficar calado é uma forma de dizer sem conceituar. Os conceitos são formulações fáceis, o silêncio não. Descobrir o que o silêncio diz requer mestria, observação minuciosa.É bom não saber dizer...Bom mesmo é ser compreendido, mesmo quando não sabemos dizer...Amar é uma forma de crer em silêncio!"
Já dizia o poeta...

Queira a profundidade!

"Não diga as coisas com pressa. Mais vale um silêncio certo que uma palavra errada. Demora naquilo que você precisa dizer. Livre-se da pressa de querer dar ordens ao mundo. É mais fácil a gente se arrepender de uma palavra que de um silêncio.Palavra errada, na hora errada, pode se transformar em ferida naquele que disse, e também naquele que ouviu. Em muitos momentos da vida o silêncio é a resposta mais sábia que podemos dar a alguém.Por isso, prepara bem a palavra que será dita. Palavras apressadas não combinam com sabedoria. Os sábios preferem o silêncio. E nos seus poucos dizeres está condensada uma fonte inesgotável de sabedoria.Não caia na tentação do discurso banal, da explicação simplória. Queira a profundidade da fala que nos pede calma. Calma para dizer, calma para ouvir.Hoje, neste tempo de palavras muitas, queiramos a beleza dos silêncios poucos. "
reprodução.

A Terceira Margem do Rio


Guimarães Rosa




Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.


Texto extraído do livro "Primeiras Estórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 32, cuja compra e leitura recomendamos.

Chamada perdida!

Hoje não acordei tão bem. Dia nublado, preguiçoso e bom para ficar na cama. Antes das 8 h o celular toca...

To de férias da faculdade. Passei pro último semestre! Lógico que depois de muito estudo, preocupações e uma vida ferrada que leva um estudante universitário. Minha cabeça não para de girar, pensativo com estágios, aplicação de projetos e atividades. Talvez não seja muita coisa, até porquê só estudo! No momento não tenho aluno algum pra aula particular. Espero que Papai do Céu me envie alguns alunos porque preciso de um cash para pagar o provedor da internet e voltar com o meu acesso 24 h. Se existem algumas coisas que eu não vivo sem, posso dizer que uma delas é o meu PC. É nele que eu leio, olho fotos de amigos, pessoas que eu amo e, que moram distante de mim. É nele que eu baixo minhas canções prediletas. Canções que rasgam a minha alma e deixam vazar a essência que brota dessas frestas. Meu PC é como um filho pra mim. Filho que ainda hei de ter, literalmente. É diante dele que fico a pensar na vida e, crio assim uma filosofia para o dia e talvez para a semana. Nele vejo tanta gente bonita! Leio tanta coisa linda e conheço tanta gente que o meu MSN está lotado. Embora existam aqueles que “somem” eu deixo por lá por um bom tempo e depois resolvo excluir.

Engraçado, a gente perde muita coisa nessa vida. E a vida passa! Eu tenho muitos amigos na vida real, amigos de faculdade, amigos de comunidade, amigos de infância, mas nunca me senti tão sozinho. Não sei se essa solidão seja provocativa, ou se realmente eu não tenho a coragem de me dedicar aos meus amigos. É curioso perceber que ultimamente tenho odiado atender telefones! Meu peito chega a doer quando o telefone toca, não me sinto bem. Quase sempre deixo meu celular tocar, tocar, tocar e não tenho um pingo de vontade em atender. Preciso de coragem para receber chamadas! Estranho isso, mas é o que eu tenho passado. Talvez eu preciso relaxar mais... Ando muito tenso, ansioso e ao mesmo tempo triste! Não é depressão, não. Relaxa!

A semente morre para nascer. Talvez seja por isso que eu morri em muitas coisas! Eu preciso assumir a nova estação e, aos poucos compreender que é preciso anular muita coisa do passado como experiência adquirida e olhar para o futuro, para o hoje, o vendo como uma nova chance, um dia a mais para uma mudança feliz. A gente não ganha desistindo, a gente conquista, lutando.

Sempre quando meu aniversário se aproxima, fico assim: clack, como dizia Caio Fernando. O segredo é pensar em coisas boas que conquistamos! É pensar em coisas perfeitas que conquistaremos!

Em minha vida há tantas chamadas perdidas. E ao mesmo tempo, tanto números discados.

Quero uma câmera nova, algumas roupas e grandes amigos!
Quero ganhar no concurso de redação que resolvi participar; se eu tirar o 1º lugar vou pra Paris. Ah, já pensou? Também ta valendo um computador, do outro. Que seja Deus o piloto, com Ele minha passagem já estará comprada! Hehehe! ...

Após o sinal, deixe o seu recado na caixa de mensagens e, estará sujeito a cobranças.
Piiiiii! ...

sábado, 14 de julho de 2007

Minhas epifanias.


Sempre gostei de escrever, embora fosse preguiçoso. Quando o Blog nasceu e estourou na internet, entrei na onda e comecei a partilhar muitos momentos que eu estava vivendo. Com ele fiz grandes amigos e, outros que apenas passaram. Não traio em dizer que os amigos que ficaram, valeram a pena! Eu era menor, adolescente quase jovem descobrindo a vida, os sentidos por meio de uma janela virtual. E ele era muito importante para mim. Por mais que eu tentasse escrever bem, coordenar a norma culta, eu era bem oculto.
Já chorei muito, esmagando o meu silêncio trancado no meu quarto. Escrevia desabafos, saudades, encontros, marcas e os desafios próprio de quem tocavam sem saber, o mundo dos sentidos que Sócrates camuflava. Escrevi por um bom tempo! E ele ainda existe, no cemitério dos Blog´s. Tentei reativa-lo algumas vezes e nada. Custei para entender que tem certas coisas na vida que cansam. E tentar reaviva-lo seria uma forma de me esconder novamente em suas linhas e pautas. Não! Não era esse o caminho. Vezenquando passo por ele, olho, relembro e deixo uma flor. Também existem coisas na vida que vão embora sem a pretensão de voltar. E ele o foi.
Havia terminado o colegial, estava trabalhando e vivendo uma vida de grande consumo. Cansei de consumir! É sério, havia cansado. Não demorou muito para surgir o mundo do Fotolog, além de escrever, postaria uma foto qualquer. Foi a revolução! Escrever e ao mesmo tempo anexar aquela foto preferida. Foi uma pena, porque grande parte dos “escritores” anônimos como eu, abandonaram o blog para se dedicar ao mundo novo do Fotolog. Confesso que é bem legal, mas para uma escrita bem curta e que, provavelmente poucos lerão. O visual é mais atrativo que a escrita, ou não. Penso que era.
Entrei para a faculdade, conheci um mundo gigante de filosofias, verdades e mitos. Não vou negar que me tornei realmente mais “culto” como diriam por aí. Só faltou o óculos porque a montanha de livros que foram surgindo para eu ler, pesquisar, estudar virou um precipício inimaginável. E não discordo que aprendi muito, mas desaprendi muito também. Na época do blog eu escrevia sem me preocupar com a morfologia e até mesmo com a sintaxe, com a lingüística e tantas definições que vieram para por rédeas nas palavras. É um assunto legal, mas complicado (a gente fala disso em outra oportunidade, okay?) Detesto estrangeirismos, mas usei para entender melhor o que eu quero dizer. Voltando, eu escrevia como criança. Escrevia sem limites. Hoje, adulto talvez, mais maduro, compreensível e com alguns pêlos de barba sobre a cara, e com um pacote de perguntas sobre a vida, o ser humano, a sexualidade, o amor e a paz, fico surpreso diante de tanta responsabilidade. Eu não sabia que a gente só crescia quando a responsabilidade fosse o grito maior em nós.
Bem, depois de ler tantas vezes o blog spot intitulado “atrás do que fica atrás do pensamento” do Leonardo, grande amigo de Governador Valadares, que foi buscar sua paz inquieta do outro lado do mundo, gerei o desejo de criar esse blog.
A gente investe bem quando sente que é a hora certa. O contrário se transforma em cansaço. Na vida é preciso fazer a escolha certa. Nem sempre acertaremos, mas é preciso arriscar.
Ontem, “... um dia frio, um bom lugar pra ler um livro...” , como canta Djavan, sentei no sofá da sala e ali, tomava o meu café. Sabe que por hora, o coloquei no chão, sobre o tapete e fui escolher um Cd legal pra ouvir. Fui até meu quarto, o peguei e voltei para a sala, coloquei a canção e deitei no outro sofá. Deitado, e aos poucos sendo mutilado pela canção, eu descobri que eu existia. Foi quando olhei para o lado, e bem ali, havia um copo com resquícios de café e um lugar vazio. Eu havia passado por ali. Eu havia modificado aquela realidade, mesmo que de uma forma tão simples, mas profunda. Um copo de café esquecido me devolveu a verdade sobre a minha existência. Pude entender que estou bem mais crescidinho e levar a vida em tons reais é um desafio necessário. E talvez seja no conflito que a vida faz crescer... Termino com uma frase de um amigo tão sábio, poeta e profundamente humano que disse bem assim: “Vida que se reparte, é arte, parte que se cumpriu”.

Minhas epifanias é apenas uma forma, um jeito de descobrir que nada é em vão, nem mesmo as tardes que me ardiam dezembradas.

Rodrigo Rudi