domingo, 15 de agosto de 2010

Moça Sol.


Hoje, 15 de agosto, poderia ser um dia qualquer, como esse post poderia ser um post qualquer, como se eu pudesse ser um moço qualquer, morando numa casa qualquer, num estado 'quase' qualquer como o Rio de Janeiro, mas amparado pelos braços abertos do Cristo Redentor. Aqui, um símbolo fez a diferença no final do parágrafo. Na minha vida, uma pessoa amplia o sentido que ela(vida) possui.

É o tipo de gente que se desdobra, ancora, acena, recebe, partilha, ouve, acende a fogueira, protege e também abraça por onde passa com o coração.

Há pessoas que passam fazendo barulho. Há outras que permanecem na sutileza da delicadeza.
E o mais bonito mora entre o que pode ser ou o que se espera significar. Gente fina que cabe nas frestas entre o belo e forma. Entre o espaço conceitual do existir com a finitude de exercer.

No balaio das palavras a encontro, e a partir dela, vou ampliando em mim o que não pode ser encontrado em qualquer um - A Moça Letreira é o tipo de companhia que acende a melhor lamparina, esmiuça a poesia sobre a mesa, e ali, nos convida diariamente para o banquete da Vida.

Hoje, poderia ser um dia qualquer, como eu poderia ser um qualquer, se ela - Moça Sônia - tivesse entrado na minha vida sem ter me feito 'melhor' e com efeito, tão feliz.

Neste dia, Moça Sol, sou Moço Lua a reluzir em ti, o que sem medidas tem oferecido a mim: luzes.

Feliz Aniversário!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Salve, Caio Fernando Abreu.



Salve a Casa do Caio Fernando Abreu_ Um 'projeto' necessário. Acesse o blog da Andréa e veja FOTOS INÉDITAS da casa onde viveu Caio F, no Menino Deus. Porto Alegre/RS.

http://wunschelrute.blogspot.com/

Créditos: Andréa.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

des, (a)gostos.

“O segredo é demorar o sofrimento, cozinhá-lo em lentíssimo fogo, até que ele se espalhe, diluto, no infinito do tempo”. Mia Couto

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Concebido pela palavra.




Heidegger, filósofo alemão, escreveu que só nos tornamos "ser" humanos quando a linguagem nos concebe. E a partir desse elo a inter-relação acontece.

Recordo-me do livro de Gênesis: "No princípio era o Verbo.";"E o Verbo se fez carne e habitou entre nós." Embora Heidegger, não trate de pressupostos teológico, percebo os laços que se entrelaçam neste tecido de significados que a vida humana possui.

A palavra, em sua essência, tem o bonito poder de bem dizer e mal dizer. Fomos formados, concebidos, e nascemos por causa de palavras envoltas de desejos. Como nos ensina Heidegger - o saber está ligado ao fazer.

Nossos pais vieram das palavras bem ditas de nosso avós. E nós, das palavras dos nossos pais. Talvez nunca tivessem ouvido falar dos grandes filósofos, nem de Heidegger, mas foram unânimes como servos da Palavra do Bem.

O bonito nesta vida, minha gente, é renovarmos, constantemente, esse ciclo natural de significados: nascemos dos melhores verbos, e estamos sendo humanizados, diariamente, por meio de palavras que germinam nossa essência.

Podemos ser humanos a partir do que colecionamos dentro da alma. É escolha diária.

Talvez seja por isso que a poesia tem poder humanizador. Não existe mentira diante de tal preciosidade. Só suportará o seu poder transformador, o leitor que for capaz de permanecer despido à sua luz.
Quem se aproxima de algum poema para dominá-lo, será amarrado pelo própria ignorância.
O poeta é servidor de sua Poesia.

Beiro à morte quando nego esse poder revitalizador, puro, infinito, teológico, sacro, epifânico que a palavra possui.
A alma da palavra é a generosidade.

Saí da faculdade achando que ela estaria sob o meu domínio. Puro engano! Porque só entrei na Vida, depois que ela, verdadeiramente, me dominou.

Não posso ser nada, sem antes ela Ser em mim.

domingo, 25 de julho de 2010

Sacolas e vazios.


Passamos os dias preocupados em armazenar o que não alimenta a alma. Vez em quando espio pessoas apressadas em recolher o tempo com seus afazeres.
Andamos com a sacola cheia e com a alma vazia. Ambos são importantes - mais ainda a alma - que é a casa para onde sempre voltaremos quando nos perdermos da própria essência = origem do Ser.

Só permita que a sacola tenha sentido, depois que a alma estiver acompanhada daquilo que o tempo não terá poder para cronometrar: o amor.

Conceitos passam. Sacolas também. Mas significados permanecem e resgatam vidas.
Se até agora fomos reféns dos excessos, que o amor nos dê a graça de sermos velados pelo essencial.

Como diria Adélia Prado: "A gente tem sede de infinito e de permanência."

sábado, 3 de julho de 2010

Morre Roberto Piva.



Hoje, a poesia chora sangue.



Paranóia


"Eu vi uma linda cidade cujo nome esqueci
onde anjos surdos percorrem as madrugadas tingindo seus olhos com
lágrimas invulneráveis
onde crianças católicas oferecem limões para pequenos paquidermes que
saem escondidos das tocas
onde adolescentes maravilhosos fecham seus cérebros para os telhados
estéreis e incendeiam internatos
onde manifestos niilistas distribuindo pensamentos furiosos puxam
a descarga sobre o mundo
onde um anjo de fogo ilumina os cemitérios em festa e a noite caminha
no seu hálito
onde o sono de verão me tomou por louco e decapitei o Outono de sua
última janela
onde o nosso desprezo fez nascer uma lua inesperada no horizonte
branco
onde um espaço de mãos vermelhas ilumina aquela fotografia de peixe
escurecendo a página
onde borboletas de zinco devoram as góticas hemorróidas das
beatas
onde os mortos se fixam na noite e uivam por um punhado de fracas penas
onde a cabeça é uma bola digerindo os aquários desordenados da
imaginação."



Ainda mais recente é o livro Paranóia, originalmente lançado em 1963 e republicado em 2009 pelo Instituto Moreira Salles. Nele, 19 poemas de Piva são ilustrados pela fotografia do artista plástico Wesley Duke Lee.

Relíquias_ Piva :

http://globolivros.globo.com/downloads/pdf/Pivafala.pdf (entrevista em PDF)
http://globolivros.globo.com/busca_detalhesautores.asp?pgTipo=AUTORES&pgNumero=1&idProduto=422 (Sobre Piva)
http://www.triplov.com/poesia/roberto_piva/index.htm (Piva_ com vontade)
http://www.revista.agulha.nom.br/ag38piva.htm (Uma super matéria)
http://www.revista.agulha.nom.br/piva.html (Jornal da Poesia_ Piva)
http://portalliteral.terra.com.br/blogs/roberto-piva-urgente (Vida_Piva)
http://nucleounisex.org/colunas/roberto-piva-literatura-e-homosexualidade-como-transgressao-mistica-e-resistencia.html (Super interessante)
http://www.google.com.br/images?hl=pt-BR&q=roberto%20piva&um=1&ie=UTF-8&source=og&sa=N&tab=wi (Imagens_ Roberto Piva).




Vídeo 1 :



Vídeo 2 :



Vídeo 3 :

domingo, 27 de junho de 2010

Entre as linhas do tempo.




Não choro. Apenas reacendo em mim o que a estação dos ventos trouxe: a minha infância ao lado do meu irmão a empinar pipas ao céu.
A tarde de hoje resolvera me presentear com algumas delas por aqui. Cores diversas com suas rabiolas a se enroscarem nas linhas da minha alma de menino.
Enquanto ele preparava a linha, escolhia as cores e os desenhos que seriam exibidos com orgulho entre os meninos da rua, eu ficava ao lado, pronto para me tornar sacrário do seu amor.

Nunca perdi a capacidade de admirá-lo. As cores escolhidas por ele, para alegrar o céu com suas pipas diversas, atravessavam o corredor dos meus olhos e me fazia mais feliz. É nessa hora que vivo a mais sublime das experiências humanas: a partir delas, se torna inevitável morrer de ausências.

O meu irmão me humanizou por meio de pipas deixadas no céu azul da saudade. E, que de alguma forma, são celebradas pelas que voam nas mãos de meninos desconhecidos.

Deus me devolve ele aos poucos, em fragmentos, em tardes de junho, fazendo-me redescobrir que antes de sua partida, ele soube deixar entre a lata e pipa, a lição de que o amor sobrevive ao tempo e à morte.

A mística que trago é a certeza plena de que o lugar mais alto que ele atingira, fora o céu da minha própria vida com a oração da sua existência em mim.
Se a chuva pingando desenterrou o pai, no poema de Drummond. Uma pipa no céu ressuscitara o meu irmão na comunhão dessas palavras.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago. "E agora, José?"


"Pela idade, há muito tempo que sou um velho. Mas só pela idade. Trabalho com a mesma vontade de sempre, a imaginação ainda não desertou de mim, compreendo melhor o mundo em que vivo, sou consciente do valor da vida, e, quanto à morte, ela chegará no seu dia, nem antes nem depois. Quem morre aos 20 anos, morre na sua velhice e não o sabia. Pense nisso."

José Saramago. (1922-2010)

"Imagino que agora, com a sua morte, esteja se repetindo a cena final do livro 'Caim', com Saramago pedindo para Deus prestar contas." João Paulo Cuenca

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Flatos poéticos.



O inverno passeia nas veias do outono.
Nessa invasão
me vejo exânime
a carregar, sobre os próprios ombros,
o que outrora perdera,
e a tremer sob o domínio invernoso.

Rodrigo

Café com Adélia Prado.

Faço do frio
que roça, como um gato,
entre as minhas pernas,
sentido
de
puro
Indizível.

Rodrigo

domingo, 9 de maio de 2010

Grinalda.




Quando eu ainda era moço, mais jovem, tive a graça de ter uma tia, morando em casa com a gente.

Eu passava horas a fio com ela: fosse no mercado, na varanda, observando as pessoas que passavam pela rua, ou no sofá a escutar as longas histórias do tempo quando a vaidade era coisa simples e não borrava a essência das pessoas.

Enquanto ela verbalizava, entre sorrisos e pausas... a minha memória dava vida às palavras e, no mesmo instante, a sua voz virava mar, e eu, com o meu barco sonhador, navegava em seu oceano de prosa.

Mãos calejadas, sinais e rugas por toda a face. Vez em quando, eu as puxava só para deixá-la inquieta. - "Sossega, menino", ao sorrir, ela repetia.

No entanto, eu sabia que, por entre as entrelinhas das linhas que compunham o seu corpo, havia um bocado de vida ancorada para ser repartida.

Eu pensava: como pode alguém tão riscado ser feliz? Eu era feliz vivendo só de perguntas. Bastava ela me amar para eu não precisar de respostas.

O cabelo parecia uma grinalda, cor de nuvem. A minha tia era uma noiva constante, que soube adentrar, cotidianamente - no altar da vida - para se casar com as coisas que o tempo não dilacerava.

Ela só podia ser santa, meu Deus! Sacrário da Vida.

A eternidade já morou comigo e se chamava Teresa.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O tempo e a lição.


Drummond é uma janela que me faz ser capaz de compreender a vida no possível que me cabe.
Pela manhã, caiu nas minhas mãos, um de seus poemas. Fitei-o com fome. E cada verso me visitou na carne e me consolou em algum canto da minha alma, que precisava de amparo.
Posso não viver de respostas. Mas as perguntas são necessárias e me acalentam no palco da minha condição humana.

"Bom dia: eu dizia à moça / que de longe me sorria./ Bom dia: mas da distância ela nem me respondia./ (...) Bom dia sempre: se acaso a resposta viver fria ou tarde vier, contudo esperarei o bom dia. (...) O tempo é talvez ingrato e funda a melancolia para que justifique o meu absurdo bom-dia. Nem a moça põe reparo, não sente, não desconfia o que há de carinho preso no cerne deste bom-dia."


O mais bonito do poeta fora a persistência de acreditar que o seu bom dia continha o sabor necessário para dar gosto à quem o recebesse. E, ele persistia com a saudosa saudação.
Na vida, às vezes, é assim. Damos o melhor que possuímos, mas o que de bom existe em nós, não é acolhido como esperávamos que fosse pelo outro. Com isso nos entristecemos e questionamos o nosso valor. Não! A vida pode ser bela no altar da pergunta, e também, raiz, quando existe a ausência de respostas.

É como o inverno: parece que as árvores estão mortas. Mas a vida que, aparentemente, não se vê na superfície, está florescendo por dentro, enraizando e fortalecendo o que é tão necessário para que elas continuem vivas. O tempo e a lição.

Como Chico Buarque nos ensina em canção: Basta um dia.
Eu precisei apenas de uma manhã c/ Drummond nas mãos, para compreender que é possível ser feliz, ainda que o outro não nos alcance com o poder de respostas. É que, às vezes, a própria pergunta nos basta.

Há pessoas que se alimentam de respostas. Há outras que sobrevivem do silêncio alheio para se enraizarem no amor.

domingo, 2 de maio de 2010

O batom vermelho.





Ele estava na mesa 62. Saíra do trabalho com o peito suado e eufórico para tomar um vinho, respirar aquela uva que sofrera tanto para dar sabor à sua noite, ouvir Jazz enquanto suas mãos percorressem a taça nua e fria junto ao seus lábios de homem-silêncio. Toda sexta-feira ele cumprira o mesmo ritual - ainda que as pessoas fossem as mesmas e a mesa de madeira preta, o acompanhasse em suas angústias de homem contemporâneo.

A cena era a mesma: acordes ao fundo do bar, e a sua alma dormindo no tédio. Vez em quando, alguns olhares novos surgiam, mas logo desapareciam entre a fumaça dos charutos franceses que os moços degustavam. Enquanto a fumaça dançava, aos poucos e de forma sensual, ela morria em questão de segundos, para assim, ser sepultada na pele e na roupa dos que choravam a vida.

Ele colecionara silêncios e pagava a conta. Quando os ponteiros marcassem duas horas da manhã, pegaria um táxi até a Rua Leblon, entraria em seu apartamento, retiraria a gravata e cairia na cama, sobre os pêlos do peito fartos de tanto calor, e assim descansava o corpo, vencido sob a pressão da temporalidade.

Na semana seguinte, cumprira o mesmo trajeto. Lá estava ele na mesa 62 colecionando ausências, beijando o melhor vinho e aliviando a fome de poder estar vivo no coração de alguma mulher.

Afastou a cadeira, repousou o copo frio sobre a mesa, e dirigiu-se ao banheiro entre as sombras e a escassez da luz que pairava sobre aquele mesmo bar. Quando voltou, notou que ao lado, na mesa 63, havia uma mulher bem vestida, acompanhada de Flaubert e profundamente provocante. Cabelos macios que ao vento dançavam envergonhadamente, e mãos delicadas a erguer uma taça do melhor licor que a casa possuía. Enquanto isso, um verso escapava dos seus lábios manchados de vermelho; ela fazia amor com a poesia que exalava daquele pequeno livro, "Madame Bovary", tão embalada por suas mãos brancas e delicadas de mulher...


Algo nela não o deixara em paz. As outras que passara sobre ele, eram notáveis, mas a mulher da mesa 63 era irreversível - a vida, a pequena porção servida no altar da minha mesa sempre posta para o amor chegar. Ela não precisaria de macho, mas de homem. A partir daquele momento, enquanto a contemplava, ela era motivo de celebração dentro de mim. E eu, o sacerdote do tempo, vestido com um túnica barroca, vermelha, cheirando à mulher amada, presidia o grande mistério do amor inesperado.

Um andar suspeito, um malefício feito, um batom de mulher atrevida. A noite tinha cheiro de felicidade. A vida segregada em solidão, a esperança vencida que o tempo resolveu romper. O mundo ficou mais estreito depois que ela resolvera tocar o livro, sem perceber que estaria me alcançando com seus dedos finos e decorados com um belo esmalte vermelho.

A mulher de traços finos e batom vermelho, era a personagem perfeita, pronta para atuar no meu enredo sempre trágico.
Ao vê-la bem perto de mim, amanheci, sem precisar adiantar o relógio e nem mesmo chegar em casa.

Batom vermelho sempre me pareceu vulgaridade, coisa que só fica bem na boca de mulher ordinária - mas o dela ordenou o meu sentimento e me fez ressurgir de mim mesmo.
Aos poucos, num suave movimento de homem surpreendido pela semântica da cor tão fatal, fui saindo de mim e me entregando aos encantos daquele olhar. Amor embalado, pronto para o consumo. E, naquele instante, enquanto eu a admirava, levaria para casa a primeira lição: coração de homem que não manda sangue para a ação dos braços não transforma o mundo.

O devaneio fora cortado pelo celular anunciado a ligação do meu taxista: - "Estou passando aí para te pegar." disse o velho companheiro. E ao sorrir, respondi: "O amor já me pegou e usa batom cor de sangue."

Eu era um homem feliz naquela hora estreita da vida. A pobreza do meu tecido de homem cansado, pôde ser socorrida com a arte dos bordados em vermelho, que só aquela mulher possuía. Era o amor brotando, com as ramas que tanto desejei.


As minhas ausências me deixavam sempre partir, mas naquela noite seria diferente. E foi.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Amanhã de manhã.



O que seria da primavera se o outono não cumprisse com o ofício de conscientizar as árvores das possíveis perdas necessárias?
É necessário perder para ganhar.
Folhas que se vão... e a natureza toda sendo despida dos seus apegos. É hora de despedir-se. Ainda que doa. Ainda que o estalo da solidão faça eco dentro de nós.
Assim é a vida. O novo precisa de espaço. Não se pode plantar um jardim num terreno lotado de lixo - é preciso limpeza do superficial, dos excessos e do mal cheiro. Passamos a vida inteira colecionando terrenos baldios, e com isso nos tornarmos pessoas amargas, infelizes.

A alegria só é plena quando os nossos apegos, secos e egoístas, são lançados ao chão e queimados.
O que precisa ser lançado fora da sua vida para que você seja feliz? Aprenda com o outono.
É uma paixão que não dá fruto? São amizades superficiais ou ressentimentos que não permitem novos sabores? Coloque todos eles sobre a mesa e escolha o necessário para seguir em frente. Só não se esqueça que a única pessoa que pode mudar a sua vida é você.

Observe a beleza dessa passagem. Prepare o coração para o amadurecimento. Fecunde suas raízes no inverno e, esteja preparado para o florescer de um novo tempo.

Rodrigo .

sábado, 20 de março de 2010

Projeto #vidatweet

Hoje foi ao ar a reportagem no Plug RPC sobre o #vidatweet.
Veja o vídeo:



Um projeto literário de microcontos de Rodrigo Rudi_RJ e Flávio Jayme_Curitiba!

Visite nosso site: http://vidatweet.blogspot.com/

Abraço!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Manoel de Barros.

Mundo Pequeno

(do livro "O Livro das Ignorãças")


I

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Sylvia Plath (DVD)


"Vi a neve no Smith pela primeira vez. É como qualquer outra neve, mas eis-me aqui, portanto, em meu quarto. (...) Não dá para me enganar e escapar à constatação brutal de que não importa o quanto você se mostre entusiasmada, não importa a certeza de que caráter é destino, nada é real, passado ou futuro, quando a gente fica sozinha no quarto com o relógio tiquetaqueando alto no falso brilho ilusório da luz elétrica. E, se você não tem passado ou futuro, que no final das contas são os elementos que formam o presente todo, então é bem capaz de descartar a casca vazia do presente e cometer suicídio."


Sylvia Plath.

domingo, 7 de março de 2010

Moço atemporal.



O Diogo é moço certeiro que já traz no nome poças plenas de palavras
em formas de canções.
A sua palavra têm o dom de acordar o mundo,
abrir os horizontes,
presentear o outro com o milagre da terceira margem,
um dia ensinado por Guimarães, o Rosa.

Palavras que ardem do coração do poeta e
acordam o mundo
com seu sabor de leveza.
Gesto que põe uma fala em tudo o que antes era mudo.
Claves que despertam os silêncios,
e mensuram o valor do amor,
no seu habitat atemporal em nós.

Por meio delas, o princípio do verbo
é recriado contrariando a ordem cronológica do tempo
e emprestando sabor à eternidade.

É moço do bem da palavra,
que sabe ceifá-la no tempo oportuno
e tecê-la
uma
a
uma,
com leveza e destreza
e, assim, revestir o mundo com os acordes
que acordarão a nossa essência.

É pássaro que recria novos cantos,
sempre ao doar o que possui de melhor.

Diogo é a existência em canção
que o vento canta.
Não há arte que suporte tamanha beleza.
É por isso que eu digo:
suas canções não me deixam dormir.
Ou porque clamam por fora,
ou porque clamam por dentro de mim.

Um só reparo nos teus versos,
deixa conseqüência na minha alma
de menino,
esta que soube compreender
que pássaros nascem das vozes,
e dos sabores daqueles
que passam pela nossa vida,
amando
em
canções.

Diante dele a gramática obedece,
a semântica acorda o reverso
e a arte arde
em algum canto do dia.

Diogo é moço que pára o tempo
só para colher poesia do vento.

Pois,
Enquanto ele canta,
a vida é recriada
a mesa é posta
e a celebração da vida, acontece.

* Trechos adaptados_ fábio de melo
Rodrigo Rudi .

sábado, 6 de março de 2010

curso de poesia.



Nunca frequentei curso de poesia,
era moda cara e só para gente grande.
Eu andava era na garupa da bicicleta vermelha
do meu pai.
Enquanto ele me levava para a escola -
no meio do caminho
eu colecionava silêncio
entre o vento e os pardais.
E, mesmo meu pai
sem ter nunca lido um poema
pode me ensinar a escrever
nas idas e vindas
entre as
batidas das latas avermelhadas,
o livro mais bonito de poesia -
que só hoje descobri
estar guardado dentro de mim.

Rodrigo Rudi .

ep. 1.



Enquanto eu rasgo
a semântica desse poema
as minhas mãos
s
a
n
g
r
a
m
sentimentos.

Rodrigo Rudi

quarta-feira, 3 de março de 2010

Entre rios e margens: você.




A vida está escondida na alma. Tenho a nítida impressão que é dentro da essência de alguém que podemos tocá-la de forma límpida e transparente. Amores e lições.
São bem poucas as pessoas que são capazes acender as luzes do coração da gente - o máximo que ocorre são "esbarrões" nas frestas que o cotidiano permite acontecer; vento silencioso que não causa alarde e nem traz acréscimo de vida.
Há outras pessoas que chegam de mansinho, transfiguradas no dom que lhe é peculiar e vai construindo terceiras margens dentro do nosso peito.

No grande remar que é a minha vida, tive a honra de encontrar alguém que marcou a minha vida de forma certeira. Começando a partir de várias classes gramaticais - substantivos que nomearam a minha nova vida, adjetivos que me fizeram reerguer a partir do que eu possuía de melhor, num momento de profundo calvário na minha vida...

No meio do rio, eu a encontrei. Moça das palavras silenciosas, do gesto terno, do amor doado por meio dos vastos sorrisos sinceros. Moça de Pietá - com todos os seus sofrimentos, pôde me segurar nos braços me devolvendo o dom da vida no abismo do silêncio e das saudades ancoradas.

Como um rio passa e o barco segue, assim fomos seguindo. Em alguns momentos eu não a via mais parto de mim, mas dentro das salas acesas da minha alma. Fez da palavra uma ponte para me visitar e nunca mais deixou de me fazer companhia.
Embora a distância concreta dificulte o nosso carinho constante, eu a encontro diariamente nos versos e reversos da mais viva poesia. Ela não passou. Apenas se transfigurou em poemas para permanecer sempre ao meu lado.

Depois de crescido, posso ver o quanto dela existe dentro de mim. E prossigo a remar e a recolher os pequenos bilhetes de amor que ela insistiu em deixar em mim, para que me sustentassem ao longo de toda travessia.
O seu amor e carinho se escondem por todos os cantos, e constantemente doam eternidade ao temporário em mim.

A vida é generosa e derrama no ir do meu grande rio, bem aqui, no silêncio dessa tarde chuvosa os ensinamentos mais raros que alguém pode deixar no outro por amor. Talvez você nunca soube que protagonizava tudo isso. Me pego a olhar as tuas fotos e busco revelá-la nessa descrição simples. Será o meu texto a revelação da tua grandeza ou a tua vida a revelação do motivo para eu persistir?

O que sei é que existe uma redenção no tempo. Broto miúdo de felicidade que, descobrindo uma fresta entre as nuvens de minha vida, quase sempre vem iluminá-la. O texto e o seu contexto, preceito hermenêutico que dilata o horizonte e o plenifica de sentido. Como Clarice L. dizia: "Há palavras que estão por detrás das palavras."

Em você, Roberta, reconheço a poética da existência. O reparo que um dia você soube deixar no meu caderno deixou consequência na alma. Eu e você. Cumplicidade absoluta e plena. Eu enrolando as dores e você enrolando as palavras, garimpando as semânticas nas margens necessárias e me ensinando a ser mais gente com o seu sabor de vida.

Já dizia o poeta: "Literatura é multiplicação de vida". E por entre os remos, um livro na mão, no meio desse grande rio, envolto de tantas margens, você é o mundo inteiro no pequeno espaço do meu existir.

Obrigado e parabéns!

Rodrigo .

terça-feira, 2 de março de 2010

Frestas.





Lá em Minas Gerais há uma expressão que diz: "Olhar pela greta da janela". Gretas são frestas. Pequeno espaço conceitual que divide aquele que espia e o que está sendo espiado, olhado, encontrado. Vezenquando eu ouvia isso em casa: "Filho, olha pela fresta da porta e vê quem está chamando..." O recado era claro: identifique primeiro quem é, depois, abra.

Minha gente, na vida é assim. Passamos o tempo inteiro pela experiência do limite. Frestas são limites que nos impossibilitam encontrar o outro de maneira completa. Posso espiar, sondar, consultar o que é preciso ser visto, mas enquanto eu estiver do lado de cá, o que se está além, não pode sentir o meu toque. E talvez, nem a minha presença.
Na vida passamos diariamente pelo mérito de olhar o que se passa distante de nós. Ver pela fresta é mais fácil. Não me compromete. E a experiência que poderia nos ensinar sobre limites e possibilidades, acaba nos aprisionando e passamos a vida toda a espiá-la.
Olhar apenas não é o mesmo que está inserido na vida. O olhar de consulta não garante a vivência a partir do que se vê. O primordial é dar os passos.

Conheço pessoas que passaram o tempo todo apenas olhando a vida passar. Pessoas que se acostumaram a olhares pequenos. Gente metade. Que sacrificaram a própria vida e sobreviveram de pequenos restos que era possível colher daqueles que tocavam a vida no cotidiano. Essa pessoa pode ser eu. Também pode ser você. Eu não sei! A única certeza que trago é que ninguém pode ser feliz sem a experiência de romper com as frestas. Viver por meio delas é aceitar rastejar aos pés do possível, mas não prová-lo.

Todo ensinamento sempre concede uma passagem de voo. As frestas, também. Quando se colhe o alimento para a alma, a fresta se torna galho para firmar o voo dos pássaros. Têm reclamado da vida? De que lado você está?

Ouso hoje em mudar o ditado: "Filho, saia da greta e vai abraçar a vida que te espera." O recado que transmito a você, primeiro passa por mim. Lembre-se: frestas são limites que devem nos impulsionar a compreendermos o valor ilimitado do amor.

Frestas não são casas. São passagens.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Lição de casa,

Clic antes de ler!







"A vida de um ser humano, é impossível. O que vemos, é apenas milagre; salvo melhor raciocínio." Guimarães, o Rosa.


Passei boa parte da minha vida, buscando milagres nos excessos do meu cotidiano. E, de forma árdua, às vezes, questionando a existência de Deus na hora da dor. Desespero? Não sei. O que sei é que em cada dúvida, Deus costumava brincar comigo de esconde-esconde nos versos dos grandes poetas, que mais tarde, estariam ao meu lado para o resto da vida.

Deus é assim: silencia na voz do vento, abraça no calor da tarde e dá sabor à vida por meio do bolo de fubá que as mães preparam no fogão de lenha. Deus brinca de sabor e habita nas mãos das mães cuidadosas com suas crias - quando Ele não está dando sal, nem sabor, eu o vejo ancorado no sorriso tímido do meu pai, que ao me olhar como filho, me faz renascer e acreditar no possível da vida.

Eu trazia como percepção de vida, uma admiração insondável pela tênue fração de viver, mas que não era para ser tocada por mim. A vida era grande demais para explodir no espaço conceitual do meu coração de menino pequeno - por isso, eu a admirava de longe, sempre contemplando a sua passagem na vida alheia. Quando me sentia fatigado, eu dormia e sonhava que ela era também para mim.

Com meus 27 anos, tenho recebido pequenas epifanias por meio dos poetas que me injetam vida. Vida esta que um dia, Deus resolveu guardar em diversos versos que chegariam até mim. Obtive a resposta que eu sempre fazia no momento de calvário: quando tocarei em milagres? De maneira simples e poética, Deus me responde por meio das palavras de um escritor que soube tocar o céu e a terra, e que mesmo depois de morto, me revelou que és vivo, e fora capaz de me retirar do sepulcro da ausência de mim mesmo. A vida do ser humano é impossível. E o que realmente vivo nesses vinte e sete anos de idade? Puro milagre. O milagre nunca viria, porque o próprio milagre sou eu existindo. A partir de agora, posso deixar marcas que poderão ressuscitar outras pessoas, que ainda sofrem pelas demoras de Deus. A resposta do Criador pode estar dentro de um livro de poesia, ou de um texto como esse, não sei. Só espero que você não desista antes de compreender que ela sobrevive ao tempo e ao silêncio e, pode brincar de esconde-esconde sem que você a perceba. O milagre da minha vida está diante do seus olhos e acaba de plantar em ti uma semente de paz. Pois sou filho do Verbo encarnado. Sou milagre do mesmo Mestre que canta nos Prados de Adélia, lá em Minas Gerais.

Deus é tímido e, por isso prefere a ousadia dos poetas.

Olho para mim, só para ver a vida passando aqui dentro. E para fora, para avistar Deus em galopes, pulando e sorrindo ao tocar as dormideiras à beira do caminho.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Fenômeno constante,


Hoje é festa no céu. A lua passará pelo ponto da sua órbita mais próximo da Terra. Será a maior lua do ano de 2010. Lua cheia no Perigeu. O mais bonito é pensar que ela, a grande lua, fora inspiração para tantos poetas e escritores que sangraram em palavras em noite de lua cheia. Fernando Pessoa dizia que a lua cheia era a imagem de Maria, mãe de Jesus. Os significados são imensos. As metáforas infinitas. O que desejo colher desse instante, são os diversos sentimentos que ela causa em tantos corações nesse instante de epifania luar.

A lua não é uma estrela, pois não tem brilho próprio. Ela precisa da presença do sol, ainda que distante para deixar nela, rastros de luminosidade. Enquanto existir o sol, ela poetizará o brilho dele na própria pele.
Fico a pensar na responsabilidade que temos diante dos outros. Ainda que eu esteja perto, ou não. O que sei é que provoco contraste, sendo bom ou ruim. Mas não posso passar por esse ciclo vital sem deixar rastros de luz. O amor é assim. O outro nos encontra apagados pela solidão e nos enche de luz ao chegar. E assim, reacendemos com os pequenos gestos de ternura que o outro despertou em nós.
Posso estar ao lado de alguém e não provocar luz, nem clarear caminhos e não poetizar com o meu brilho vindo da essência. Vã será a vida sem a missão de iluminar.
Assim como a lua, gostaria de também passar pelo ponto da órbita mais próxima de quem espera pelo meu amor.

Na órbita de qual pessoa, você precisa chegar mais perto com a sua luz? O fenômeno lunar será único, mas temos o poder de ressuscitá-lo a partir de agora, todos os dias quando colocarmos o nosso melhor na órbita de quem se encontra em plena escuridão.

Não existe poema mais forte nesse instante do que a minha vontade de ser mais homem e, melhor, causando o maior de todos os fenômenos humanos: o amor constante. Esse milagre pode começar bem aqui, dentro de nós.

A lua ganhou status e destaque no calendário, como maior lua do ano por estar mais intensa no brilho e maior no tamanho... E, nós? No que nos transformaremos se irradiarmos o brilho do amor o ano todo?

Não sei qual é a órbita necessária que precisa receber a sua presença. A certeza que trago em mim é a de que o amor pode iluminar os avessos mais distantes.
Hoje a festa é no céu. Amanhã pode ser dentro de cada um de nós. Ame. Ilumine. Seja maior no amor.

Rodrigo .

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

sentir,


maria gabriela llansol / o começo de um livro é precioso.


294

Eu estava habituada a vir para casa com um velho amigo
Que me punha a mão nos ombros. Eu raramente tropeçava
Porque dele irradiava o calor das macieiras e a paz das
Tílias. Era a árvore dos meus passos. E, regressando a casa,
Regressava à Paisagem que humana me fazia.




maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003

epifanias,





tenho pássaros nos olhos. como se ainda fosse muito cedo.



gil t. sousa
falso lugar
2004

Fé.



Stº Expedito foi meu intercessor para eu ser aprovado no concurso público! Eterna gratidão. Obrigado, Senhor.

Oração

Meu Santo Expedito das causas justas e urgentes, interceda por mim junto ao Nosso Senhor Jesus Cristo. Socorra-me nesta hora de aflição e desespero, meu Santo Expedito, Vós que sois o santo dos desesperados. Vós que sois o santo das causas urgentes, proteja-me, ajuda-me, dê-me forças, coragem e serenidade. Atenda o meu pedido. (Fazer o pedido).
Meu Santo Expedito ! Ajuda-me a superar essas horas difíceis, proteja-me de todos que possam me prejudicar, proteja minha família, atenda o meu pedido com urgência.
Devolva-me a paz e a tranqüilidade, meu Santo Expedito ! Serei grato pelo resto da minha vida e levarei seu nome a todos que têm fé. Muito obrigado.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Paixão é álcool.



A vida está dentro ou fora de nós? Há uma busca incansável de realização pessoal ao encontrar o par perfeito. Só se permite o fio da vital felicidade ao ser olhado pelo outro como descoberta preciosa.
Nos avessos das passagens rápidas estão os machucados profundos. É ferida mansa. Não causa alarde ao se instalar, e corrói em silêncio. A paixão é o álcool que queima para destruir. Amor é colcha de retalhos - o sentido é construído no decorrer da vida de quem a tece, e contempla o necessário para alimentar a alma e florescer o corpo.

Sartre já dizia: "A vida corre o risco de ser uma paixão inútil." Inútil e vã quando não se vivi o mundo interior como experiência primária de encontro. Tenho encontrado pessoas que desejam encontram o mundo, mas não foram capazes de descobrirem o mundo que existe dentro delas. Viajam para tantos lugares, mas não descobriram a riqueza de fazer um tour dentro do próprio limite e das infinitudes que possuem. É ilusório fazer uma ponte para atravessar até o olhos do outro, se antes, não construir essa ponte para dentro de si.

O mundo tem sinalizado caminhos prontos. E a paixão têm sido a patrocinadora dos desencontros. "Pano quente" não entra no dicionário do amor.
O que mais me impressiona são meninos e meninas com 15, 17, 18 anos já desiludidos da vida por terem experimentado o lado precoce dos sentimentos. No entanto, os adultos não escapam à escala. Homens que conquistaram o melhor emprego, a melhor casa, o carro do ano, andam com as melhores roupas e são desconhecidos de si mesmos. Não há preço ou riqueza que pague o valor que temos ao sabermos quem somos.

Homens que são cidades inteiras de sombras.
A luz existe, é preciso procurá-la.
Na fantasia que se cria, há um forte risco de voltar a ser criança abandonada, solitária e machucada, na plataforma mais vazia da estação como um dia escreveu Rubem Alves.

Only If

When theres a shadow, you follow the sun.
When there is love, then you look for the one.
And for the promises, there is the sky.
And for the heavens are those who can fly.

Chorus: Coro:
If you really want to, you can hear me say
Only if you want to will you find a way.
If you really want to you can seize the day.
Only if you want to will you fly away.

Only If
Enya

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Tremor interior.



Há tremores em mim. Há tremores diante da ausência que o outro me causa. No entanto, preciso estar em silêncio para sentí-los. Para cada pessoa a sua manifestação é particular. Alguns se sentem abalados pelo namorado que se foi, a mãe pelo filho que perdera, a esposa pelo marido que descobriu o cheiro da morena, o filho que viu o pai construir um barco e mirar uma terceira margem. Os tremores são diversos, e as sensações de quem o sente também.
Todo processo de vida passa pelo fio da preparação ao trágico - ainda que não seja nítido em nós.

Existe perda a todo tempo. Se ganha, perdendo. A criança que deixa o calor e proteção contínua do ventre da mãe, sendo rompida com o nascimento; o marido que experimenta a ausência amorosa da esposa quando a rotina é mais forte; a pipa que antes gigante nas mãos delicadas do menino, hoje é banal e pequena diante do olhar rápido do homem engravatado que nem mais olha para o céu.

Eu não sei qual é o seu tremor. O que sei é que ele vêm. Não têm hora e nem data certa. São tremores que podem derrubar o que é máscara em você. O que é superficial em mim. E desabar o que não estiver solidificado no amor.

Recordo-me de alguns tremores que vivi em 2009. Depois do susto, da precariedade do momento, da confusão mental, do medo constante, da tristeza à porta, percebi que ainda restara a decisão de sua última ação em mim: juntar o que em mim não estava firme e reforçá-los com um outro jeito de olhar o momento presente ou me entregar à lamúria. Escolhi a primeira. Só posso me enraizar a partir do amor decidido. Tremor no interior do coração humano é convite para refletirmos o que está precisando de base firme em nós.

Ter essa concepção é tarefa diária. É colcha de retalhos que só existe depois de um tempo árduo da tecelã. É juntar os pedaços, é passar a melhor costura, é compreender as diferenças das cores para a perfeição final. É uma aula de sociologia.
O mundo anda tremendo. E o seu interior? Quais são os abalos que constantemente o despertam para o melhor?

Drª Zilda Arns sofreu, com a perda da filha, um grande tremor que a despertou para a solidariedade. Quais são os tremores que precisam acontecer em nossas vidas para despertarmos para o amor?

Parte do mundo tremeu e levou consigo vidas enraizadas na missão do amor. Homens e mulheres que o tremor nunca poderá apagar. Serão mais que memórias. Viverão na condição de ressuscitados por meio dos gestos de amor que ensinaram àqueles que continuarão o semear.

Podemos até viver com as marcas da tragédia. Mas elas nunca poderão nos impedir de reconstruírmos o melhor que trazemos em si.


A minha prece e o meu silêncio.
Rodrigo

novo?


O ano é novo no calendário, mas pode ser velho dentro de um coração que não amanhece.