quinta-feira, 28 de agosto de 2008

No silêncio de Pietá.


A vida explode nos acontecimentos. É ela que não dorme. Vida que vela na eterna continuidade de brincar de "cutucar" os fatos para que eles acordem e se dirijam a nós. Tá feito, entregue - pacotes de coisas boas, outros de decepções, mágoa, tristeza e até mesmo morte.
Sempre quando me encontro com um desses pacotes nas mãos, recordo-me que é tempo de aprender. É mais uma vez a Vida colocando em minhas mãos, ainda que a duras penas, o giz e o quadro negro para ditar o que ainda eu preciso aprender. Na experiência com a dor ao me visitar, me volto para a imagem de Pietá... Diante de tamanho sofrimento corro o risco de me perder de mim mesmo, de perder a minha identidade em meio a poeira e ao vento que anunciam a tempestade que está por vir. Início de dor é como início de chuva, sempre manda o vento e as nuvens escuras para que abram caminhos para que ela possa vir e dançar onde quer que deseja passar.
A imagem de Pietá me fascina ... é como se ela fosse um altar onde me ofereço para holocausto. Choro quando a contemplo. Me desfaço em pequenos flash que aguçam a dor em mim. Quando a gente sofre ao lado de quem conhece a dor, a dor se torna menor porque o outro também a carrega. É a dor partilhada, distribuida como alimento ainda que a mesa esteja sem toalha e não haja bancos para sentarmos. É a união favorável para sentar no chão e ali se entregar em silêncio profundo - reino que não vigora as respostas, mas que pari a cada segundo um filho da dúvida e ele grita ao nascer, posso ouvir os ecos que não saem dos meus ouvidos.
Aos pés de Pietá não existe a lógica da razão, mas o travesseiro do consolo. Me prosto diante de um mulher que carrega nos braços a própria morte. Enquanto ela segura firme o depósito do seu amor, eu suporto dentro de mim um filho morto - filho este que a vida negou com sua honestidade e que fora cruelmente trocado por outros vales, escuros. Pietá segura nos braços o próprio amor doado e agora ali, recolhido em sangue e morto em seus braços. Fico pensando nas frases exprimidas, agonizante nos ouvidos do seu filho o chamando pelo nome... Ela que o ninou em tantas madrugadas, o segurou embalando sonhos e sentindo o coração do pequeno menino batendo como canção em louvor à Vida, ali, frio e machucado, cárcere do corpo vazio ... ele já não habita mais ali. Quando um filho morre, a mãe tem o poder de trazê-lo para o ventre novamente, lugar que um dia saiu e que volta para ser gerado eternamente na lembrança de cada dia - ele estará dentro dela, ainda que em forma de saudade.
O meu filho é o amor. Ofereço e às vezes o encontro morto em meus braços, o mataram, zombaram dele e viveram como se ele nunca estivesse existido para o outro. O meu filho morto em meus braços é o amor que há poucos dias brincava com os sonhos, desenhava projetos na areia com o pequeno dedinho de filho novo, dormia mais feliz e respirava em paz com a certeza que de o sol viria em poucos horas. O meu filho que colhia flores e que encontrava poesia na calçada, agora aqui, junto ao meu peito diante da imagem de Pietá.
O que gera vida em mim é a continuidade do ressurgimento que o amor provoca em nós. Pietá só não estava deitada com o filho, porque o filho estava dentro dela em pé, a segurando para a mãe não se entregar ao chão... O que gera vida em mim é o meu filho devolvido, ainda que morto em meus braços, mas vivo dentro de mim, sussurrando dentro dentro da minha alma que é apenas uma tempestade. Que os ventos logo passarão para eu me levantar e recolher o que realmente valerá a pena continuar ao meu lado. Ainda que ele tenha sido devolvido morto em meus braços, eu o ressuscito dentro de mim, gerando-o para doar a quem um dia for capaz de passar pela ante-sala da paixão e me encontrar no espaço do amor.
Ficarei aqui, até um dia em que uma nova estação seja capaz de trazer alguém que provoque as dores do parto em mim e assim, eu dê a luz ao amor que sairá de mim para acreditar novamente no ser humano e nele fazer morada.
Com Pietá, celebro o silêncio tão necessário nesse momento de calvário.

Rodrigo.

sábado, 23 de agosto de 2008

Quando a dor me calou .


Aí vem você e me diz que não me quer mais... como se não fosse nada. Como se fosse a coisa mais normal do mundo. De repente todas as conversas que trocamos já não tem mais valor e eu fico simplesmente perdido, sem saber o que me aconteceu. Rolo compressor. Você sempre teve o dom de me deixar desnorteado. Eu tento te seguir e construir uma lógica, mas não consigo. Não tento mais te entender. Eu tento, no máximo, é ver como me enquadro nessa loucura que chamamos de amor. Eu te amo? Não consigo responder esta pergunta. Sinto a falta de algo para concretizar esse amor. O quê? Uma chave de acesso. Uma possibilidade de contato. Você me ama? Você tem a capacidade de responder isso? O que é o amor? A possibilidade da convivência? Ou seria ele algo maior... algo que te tira do chão? Não... isso é paixão, a porta de entrada. Pois é, paixão eu sinto e muita. Não de uma maneira gratuita, já passei da fase de me apaixonar de qualquer maneira. Eu sinto uma paixão que foi sendo construída passo a passo. Com alicerces fortes e muita expectativa. Sinto uma paixão que me deixa com milhões de borboletas no estômago e que os médicos insitem em chamar de gastrite. Sinto uma paixão que é, no fundo, irracional.... eu sei... nós sabemos... E, porque isso agora? Porque essa exposição pública de motivos? Não sei. Medo, talvez... medo de que as pessoas não saibam que eu passo por isso agora. Afinal, é necessário divulgar a felicidade... ela é tão rara nesses dias... tão rara. Medo, também, porque, as vezes, eu faço muita merda. Eu sou chato, eu sei! Eu sou pegajoso, eu sei! Eu sou carente... mais do que qualquer coisa, eu estou carente... Eu sei! E, ao mesmo tempo, existem momentos em que eu penso que não deixo claro o suficiente o quanto algumas coisas são importantes pra mim. No fundo, no fundo... eu não sou complexo. Eu sou simples... o dia que você olhar nos meus olhos com tranquilidade, você vai ver. Um dia... Mas enquanto isso eu tenho esse pesadelo. E é ele que me dá medo...Nele, vem você e diz que não me quer mais... como se não fosse nada...






Blue Suede Shoes
Chris Garneau

i hope you don't go away
i still have some nice things to do and say
i don't laugh when i can
i don't feel like a very good man
but you, you know me well
and wouldn't it be swell
to find nothing blue about me and you
your blue suede shoes
you left them on mine last night
after the wine and the fight
but we're a dime in a well
they're hard to find
those, they're mine
just thinking about me and you
your blue suede shoes
you left them on mine last night
its alright
i do, i take care of the love
cause red rockets fly if you don't
i'm always gonna worry about this
but you'll tell me its okay chris
i can't tell you why babies cry
out lies they wont keep us alive, no
i hope you don't go away
i still have some nice things to do and say
like we're a dime in a well
they're hard to find
those, they're mine
just thinking about me and you
and your blue suede shoes
you left them on mine last night
but its alright
ill try to laugh when i can
ill try to be a better man

[ http://pequenoinventario.blogspot.com ]
MAXimo sempre, sempre!

sábado, 16 de agosto de 2008

A garupa.


A maior religião é a VIDA. Promovê-la é uma ação contínua do Criador. Gera-se a vida na arte, na literatura e no cotidiano de Adélia Prado:



"No cemitério é bom passear. A vida perde a estridência, o mau gosto ampara-nos nas dilacerações."


Não se andam nele, mas tropeçam no exagero de anular a vida em brilhos com data de validade - luz que não permanece, nem encalça os pés. Forma desregrada de matar a arte humana pela omissão. Gosto de pensar nas coisas esquecidas, objetos que não se ocupam em representar alguma utilidade, por isso vivem, são o que são sem ter que representar nada para o outro. O telefone quebrado é o que ele é, nada mais. Recordo-me das inúmeras vezes que eu fazia cara feia para ir à escola. Eu não gostava de estudar. Era só meu pai retirar a bicicleta vermelha do almoxarifado de casa e eu estremecia: era quase a hora de ir para a escola. A mãe chamava para o banho - forma silenciosa de lavar o corpo das poeiras que o quintal de casa abrigavam, poeiras e sonhos. As poeiras iam, os sonhos ficavam em mim. Eu não gostava era de pentear os cabelos, doía. Ficava todo engomadinho e tinha que comer logo se não perderia a hora da aula. Lá fora, a garupa da bicicleta forrada com papelão parecia rir de mim - talvez seja por isso que nunca gostei de bicicletas vermelhas... O percurso da ida até a escola era longo, mas curto demais para quem nunca queria chegar. Aos prantos eu descia e entrava na filinha - mãozinhas no ombro do amiguinho, todos sorrindo e eu ali, olhando para trás e dando tudo para voltar na garupa vermelha. Eu reconhecia o seu valor no momento em que não estava mais nela. Mais tarde, recolher as lancheiras, devolver o crachá com o nome e uma figura do Tio Patinhas sorrindo idiotamente para mim. Não importava, eram sinais que anunciavam que a hora de ir embora se aproximava - outra filinha idiota (não é só adultos que enfrentam fila, mas gurizinhos também.). No portão eu avistava a bicicleta vermelha e logo o meu pai, aí meu coração descansava de alívio. Na ida aquela bicicleta representava uma prisão diária, dura e com hora marcada; mas na volta, quando os meus olhinhos a identificava no meio de tanta gente, era para o meu coração um alívio, lugar de descanso e de amor. Ela indicava que meu pai estava por perto... Na vida também é assim - existem caminhos que são tortuosos para trilhar, momentos de dores difíceis de serem enfrentados. É preciso subir na garupa e deixar que Deus guie... Só depois uma explosão de significados acontecem. É na volta, no descanso, na serenidade que se compreende que a vida trás em nós as marcas profundas dos seus sabores... Um dia a bicicleta vermelha deixou de ser a metáfora do sofrimento e se configurou em amor. Hoje eu sei o motivo de me sentir tão amparado naquela garupa... hoje eu sei que ela não era uma bicicleta qualquer, ela era a bicicleta do meu pai. E o meu pai era uma das formas mais belas que um dia Deus resolveu criar para me amar! Lá não havia uma bicicleta esquecida. Havia um pai que me esperava. Aqueles que te amam são os únicos capazes de te esperar, ainda que você demore para voltar...


Rodrigo.

domingo, 3 de agosto de 2008

Solidão acompanhada .


É a primeira noite que a saudade me arde como fogo e me devora como o tempo ... O tempo age de forma silenciosa, mas deixa marcas no coração da gente. O que existe em mim é um espaço conceitual, substantivado como um abismo onde a cada minuto que a vida debulha, ele vai ficando maior, maior e se exibindo para mim assim como o vento se exibe ao sol. Cama vazia, roupa recolhida no armário que vezenquando cheiro para detectar algum perfume que a água não tenha levado. Se hoje eu pudesse me transformar em outra coisa, certamente eu seria a tua cama quente, nesta hora você está sobre ela, para que ainda que no silêncio eu sentisse a tua pele em mim. Me esconderia na maçaneta do teu quarto, no vidro do elevador, e nas calçadas que rodeiam tua casa, apenas para te sentir um pouco mais perto, pois não importa a matéria da aproximação, o que importa sou eu me sentir menos distante daquele que eu amo. Fico repassando os dedos nos objetos que um dia você tocou só para eu me sentir tocando na ponta do teu dedo ou acariciando a palma das tuas mãos. Você me faz falta.
Lá fora é noite, no meu coração também. O que importa o sol, as flores, a garoa, se você não está ao meu lado? O que importa a cama quente, mas vazia? Eu deixei de ser um no dia em que me partilhei com você. Eu tento te recuperar nos pequenos objetos que passaram por você e que vieram comigo ... mas você é muito grande para ocupar qualquer um deles, eles não suportariam.
Olho para mim e reconheço o meu sentir solitário. Nunca antes partilhado e agora tão exposto aqui, contado para todo mundo. Em cada telefonema, em cada olhar, em cada gesto de ternura, em cada abraço, em cada amor quando íamos para a cama existia um pedaço-chave que recolhíamos e guardávamos no mais íntimo do coração. A chave que um dia nos unirá para sempre. Sou o espaço da tua inabitação. Sou a saudade que te evoca e traz de volta e lhe permite uma criativa forma de continuar a viver em mim. "Se pela força da distância tu te ausentas, pelo poder que há na saudade voltarás."

p.s: eu te amo!