quarta-feira, 30 de abril de 2008

Mesa posta


O amor é um susto. Chega na calada da noite, no imprevisto das horas, no encanto da ausência e na saudade que evoca a presença. O amor é um susto, chega no sorriso belo de um rosto entre a multidão. Sorriso que chega sem vir, se insinua sem tocar. Presença que insinua mais que propõe... O amor tem que ser admirado pela distância porque ele não suporta a jaula que colocamos nele. Ele fora feito para a liberdade - como um pássaro; seu canto só é bonito quando ele está livre.
Amor é chuva de madrugada quando ao tocar o teclado no computador, a gente cria a possibilidade de tocar as pontas dos dedos do outro. Admiração não tem nome, amor sim. É silêncio que grita no compasso de uma dança sensual. É presença que invade a temporalidade e arranca o véu de qualquer forma de representação. Amor este que se esconde nas curvas de um sorriso e fica esperando um alma com o cansaço nos olhos, mas com a esperança no peito só para lhe roubar um beijo quando passar.
Amor é acolhida nas horas de abandono. É fala que cobre com uma camada fina de brisa o coração da gente.
O amor não precisa de janelas abertas, nem de portas destrancadas. O amor nasce da precariedade. O amor se instala numa fresta e ali desenvolve o necessário para ser visto, mesmo que ainda seja um grão a amanhecer.
O sorriso do Tadeu é palavra pouca que diz muito. É frase dita na hora certa e que vale livros inteiros. E hoje busco a frase de cada momento sempre que retorno ao seu sorriso que me desconserta em tanto amor.
Homem que não perde a poesia quando a chuva cai, mas a faz poema!
Tadeu é o poema que me espera na esquina - poema adormecido que ressuscita aos poucos quando sente as primeiras vibrações dos meus passos. Eu vivo assim, dependendo de poemas que sobrevivem à chuva, à dor e ao sol. Se eles estão ali, ancorados em algum canto a espera da minha adoção lírica, é porque resistiram e são fortes diante do vento que arranca poemas fáceis não enraizados na essência.
O que quero é o olhar de Deus refletido nos olhos do Tadeu. Isso sim é felicidade sem medida.
Depois que conversamos me senti feliz, inteiro na pequena parte que me cabe.
Menino que rouba a terceira margem de Guimarães, me convidado pra ceiar na quarta...
Homem que me encabula com sua simplicidade, assim como Adélia em seus Prados. Moço que me pega pelas mãos e reinaugura em mim um novo pensamento atrás do que fica o pensamento, à lembrança de Lispector.
Menino cheio de uma força misteriosa repetindo as minhas poesias no lábios e me tecendo uma contínua maneira de continuar...
Pessoa que desejo amar com profundidade. O que hoje cabê em minhas mãos é apenas um bilhete de ônibus a ser cumprido.
Tadeu, vida esmiuçada entre as entrelinhas das palavras. Olhar distante que me olha querendo chegar, coração que deseja despejar o cansaço para que eu os devolva re vestido de uma luz que só quem verdadeiramente ama possuí.
Preciso retirar as sandálias para pisar neste solo onde ele se faz presente. É solo sagrado, e qualquer poeira me dispersaria de sua beleza reveladora.
Venha de onde vier, mas venha. Há sempre um quarto preparado para quem não tem onde dormir. Há sempre uma mesa posta, ainda que na madruga.
Meu coração não tem muros, não tem portas, mas tem abrigo.
Que o poema que é você, seja capaz de revelar a cada instante a poesia que é tê-lo perto de mim.

Rodrigo .

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O silêncio de quem soube amar.


Era um dia bonito, as cores do céu revelando a poesia existente na pauta do cotidiano... flores dançando ao som do vento que embalava todo aquele dia em puro extase de amor. A vida esmiuçada, pronta para ser comida, devorada por corações sonhadores que por ali passassem. Foi num lugar atemporal que conheci a Ká... envolta de sonhos e profunda em emoções. Sua ternura confundiu a minha morfologia e me fez compreender melhor a minha sintaxe padronizada. Presença que somou adjetivos à nova estação em mim - era o meu coração depois de uma estação fria, recebendo os primeiros raios de calor dessa mulher.
Vivemos atemporalmente nos portos das canções e da poesia. Espaço não conceitual de confissões e lapidações: era o amor dela explodindo na missão de ser protagonista do amor - e felizmente eu era pauta para essa atuação.
Depois de um tempo, a separação por motivos da contemporaneidade, mas nada que nos fizessem morrer do coração um do outro. Depois o reencontro - o sol ainda era quente e muito intenso. Mas era um tempo de provas em sua vida ... a Ká cumprira o tempo todo o ritual de recolher os caídos e devolver a identidade daqueles que estavam perdido. Um ser humano marcado pela essência. Entrava em lugares proibidos, quebrava as tradições morais e depositava ali, as asas incansáveis de anjo. Trocou verdades porque sinceridades e sofrimentos. A Ká na pauta da minha vida, foi e sempre será irreverente. Ela olhava nos olhos dos fracassados e lhes restituía a coragem perdida. Segurava nas mãos daqueles que estivessem cansados e os convencia que ainda lhes restavam forças para chegar. Em um dia me encantei com ela. Um dia chegou, me desconsertou com seu jeito de mãe e amiga, esposa e mulher e entrou pela porta principal da minha vida e eu nunca mais a deixei sair. Somos íntimos na curva da sabedoria, e cumplices na esquina do saber. Eu a amo por dar nova cor à minha vida, mesmo em dias nublados...
Ela me ensinou que a vida é linda, mas dói. Foi assim que assisti num pequeno espaço de tempo o seu papel de Maria na subida do calvário... Foi se as canções e a poesia da dor precisava se cumprir. Pedras que pesavam e machucavam os pés - o mundo parou. E ali, eu acompanhava a subida de uma mulher forte com o homem que mais amava nos braços. Mãos sangrando, corpo cansado e dilacerado pelo despojamento, mas com o olhar ressuscitado pela fé em Deus. Enquanto seu corpo morria junto a sua poesia que agonizava nos braços, a vida dançava e confundia a minha gramática: era momento de aprender. Mulher das dores sem nome - mãe que soube recriar o mundo apartir do próprio seio. Mulher de pietá, que segura nos braços a canção que fizera um dia feliz e hoje adormecia de forma velada em seu peito. A crueza do momento é uma proposta ao silêncio. Arranca-me do mundo das palavras, das respostas prontas e faz-me sentar ao chão, ao lado da esposa e mulher, para que eu possa ouvir sua respiraçao ofegante de dor.
Presença que um dia arrancou-me dos meus livros, da minha licenciatura dogmática e convidou-me a sujar-me na terra do calvário, onde o sangue do marido misturava-se às lágrimas da própria mulher que ali entregara a vida por ele.
Ká e seus versos. Ká e suas dores. Ká e sua lição de vida.
O meu sofrimento perde a sua força quando eu o coloco ao lado dessa menina tecida pelo tecido da dor. E nisso já está a ressureição daquele que um dia se fora - ele ressuscita nesses versos e atualiza a sua presença na sabedoria que colho.
Mulher que me ensinou que diante de estações tão doídas, a gente pode descobrir caminhos para uma nova estação. Elas existem e são preparadas nas madrugadas do Coração de Deus.
Canções de felicidade foram ninadas no dia em que nos conhecemos...
Canções de ninar dolorosas foi cantanda silenciosamente pelos lábios da Ká quando embalou o seu amor nos braços...
E hoje eu canto um canção de ação de graças com os anjos, agradecendo a Deus pela poesia que brota quando a gente se olha pelas páginas de um enredo que é mais forte que a morte - sua própria vida.

Eu amo você, Ká.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Revelando presença .


A felicidade mora na curva, na esquina, no inesperado. No meio digital às vezes a frieza revela a impossibilidade de tocar o calor da alma, mas com você foi ao contrário ... toquei a essência, superando qualquer tipo de frieza ou calor. Toquei o profundo. Quando comecei a teclar com ele, parecia uma magnetismo. Envolto de teclas e imagens e mensagens, a sinfonia da vida celebrava os melhores acordes em nossa presença. O mundo parou e a canção mais delicada das asas dos anjos ecoaram ...
Era um olhar prendendo o outro. A alma possuindo uma visão até então desconcertante, pensei. Fui acolhido com algumas indagações e uns sorrisos. Passei pela indagação e colhi o sorriso que viera em minha direção. Entre as mãos vazias e o meu coração repleto de ternura, resolvi usá-lo para corresponder a uma presença até minutos antes desconhecida para mim . Já não havia a ausência, era a presença dele que se rompia na sacralidade da vida humana. A cada conversa, a cada olhar, eu encontrava nas desfigurações implícitas do Rick, as desfigurações da minha própria alma ... Todas as minhas dores e os meus cansaços pareciam perder força quando o sorriso de Rick invadia a minha alma e acendia as luminárias da minha existência. O coração simples, a timidez quase poética e o jeito manso de dizer que viver vale à pena quando se ama e é verdadeiro. Naquele instante o Rick me fez visitar até então lugares dentro da minha alma que eu não havia pisado ... era a presença de um amigo me devolvendo para eu mesmo! Lugar onde não prevalece as regras da éstetica, mas da essência. Com seu jeito pacato e arteiro de ser, ele me pegou pelas mãos e me levou para conhecer as novas formas de arte que um coração pode sustentar: a arte de ser melhor como pessoa humana. Ele me suscitou uam vontade até então adormecida em mim : a vontade de ser o seu herói, mesmo com rosto de menino, mas com um coração experienciado na escola da dor e da vida. É que quando a gente sofre, o sorriso que nasce é mais verdadeiro. Queria ter o direito de levá-lo comigo, de passear com ele, comprar doces, desenhar com as nuvens e contar as estrelas ... vontade de soltar pipas e deixar que ele vencesse só para eu vê-lo sorrindo. Coisas que só quem colhe o os grãos do cotidiano com alguém que descobrem o amor fragmentado. Queria o direito de fazê-lo dormir, comprar-lhe brinquedos, contar-lhe histórias, levá-lo sempre comigo.
Depois que ele foi embora do MSN eu me peguei sentindo saudades daquele sorriso.Queria vê-lo de novo. Queria descobrir de onde brotam tantos encantos!
De onde vem a beleza de Rick? Não sei. O que sei é que naqueles olhinhos cheios de viço, Deus resolveu me olhar. Se hoje eu pudesse ter um filho, eu escolheria o Rick.
Moço que tece a vida com a fina lã da arte, que dança ao vento com sua voz de profeta e que ensaia em forma de amizade o amor na vida da gente.
Rick é uma orquestra, que reune os mais finos detalhes para soar a mais bela presença em mim.
Rodrigo .

domingo, 20 de abril de 2008

Uma explosão de epifanias .


“E de novo me vens e me contas do mar aberto, das costas de tua terra, do vento gelado nos invernos, sem nenhuma baía, nenhuma gaivota sobrevoando rasante o cinza das águas para mergulhar, nessas águas de que me falas quando me tomas assim e me levas para histórias ou caminhadas sem fim, não há verde nem é claro, o sol não transpõe as nuvens, e te imagino então parado sozinho entre a faixa interminável de areia, o vento que bate em teu rosto, as mãos com os dedos roxos de frio enfiadas até o fundo dos bolsos, o vento e novamente o vento que bate em teu rosto, esse mesmo que… Não me olha agora, raramente, teu olho bate em mim e logo se desvia, como se em minhas pupilas houvesse uma faca, uma pedra, um gume, teu rosto mais nu que sempre, à beira-mar, com esse vento a bater e a revolver teus cabelos e pensamentos, e eu sem saber que me envolve agora quando teu olho outra vez escorrega para fora e longe do meu, numa mistura de preguiça e sensualidade expostas, e quando teu olho se afasta assim, não sei para onde, talvez para esse mesmo lugar onde te encontravas ontem, à beira do mar aberto, onde não penetro, como não te penetro agora, e tão dissimulado te espio que nunca me percebes assim, te devassando como se através de cada fiapo, de cada poro, pudesse chegar a esse mais de dentro que me escondes sutil, obstinado, através de histórias como essa, e em tudo que me contas pensando, suponho, que é teu jeito de dar-se a mim, percebo farpado que te escondes ainda mais, como se te contando a mim negasses quase deliberado a possibilidade de te descobrir atrás e além de tudo que me dizes,é por isso que me escondo dessas tuas histórias que me enredam cada vez mais no que não és tu, mas o que foste, tento fugir para longe e a cada noite, prometo a mim mesmo nunca mais ouvir, nunca mais ter a ti tão mentirosamente próximo, e escapo brusco para que percebas que mal suporto a tua presença, então me invades outra vez com o mesmo jogo e embora supondo conhecer as regras, me deixo tomar por inteiro por tuas estranhas liturgias, a compactuar com teus medos que não decifro, a aceitá-los como um cão faminto aceita um osso descarnado, essas migalhas que me vais jogando entre as palavras e os pratos vazios, torno sempre a voltar, talvez penalizado do teu olho que não se debruça sobre nenhum outro assim como sobre o meu, temendo a faca, a pedra, o gume das tuas histórias longas, das tuas memórias tristes, cheias de corredores mofados, donzelas velhas trancadas em seus quartos, tornarei sempre a voltar porque preciso desse osso, dos farelos que me têm alimentado ao longo deste tempo e choro sempre quando os dias terminam porque sei que não nos procuraremos pelas noites, contudo me enveneno mais quando não vens e ninguém então me sabe parado feito velho num resto de sol de agosto, escurecido pela tua ausência, e me anoiteço ainda mais e me entrevo tanto quando estás presente e novamente me tomas e me arrancas de mim me desguiando por esses caminhos conhecidos onde atrás de cada palavra tento desesperado encontrar um sentido, que me permita esperar por um atalho onde não desvies tão súbito os olhos, onde teu dedo não roce tão passageiro no meu braço, onde te detenhas mais demorando sobre isso que sou e penses que sabe que se aceito tuas tramas, e vomitas sobre mim, e depois puxa a descarga e te vais, me deixando repleto dos restos amargos do que não digeriste, sangrando e gemendo, a implorar de mim aquele mesmo gesto que nunca fizeste, e nem sempre sei exatamente qual seria, mas que nos arrancasse brusco e definitivo dessa mentira gentil onde não sei se deliberados ou casuais afundamos pouco a pouco, e depois nos jogasse completamente nus, sem nenhuma história, sem nenhuma palavra, nessa mesma beira de mar das costas da tua terra, e de novo então me vens e me chegas e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque é assim que és e unicamente assim é que me queres e lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba assim, nem agora, nem aqui.“

[Caio Fernando Abreu in "À beira do mar aberto" / Trecho][ foto: daniel RJ. ]

sábado, 19 de abril de 2008

O menino que perdeu a pressa .


Eu não sei se o meu querer causa alarde ou se a vida é que é rápida demais. Sou um menino cansado com as expectativas, elas decepcionam ! Mas inconformado com a lentidão desnecessária. Os dias são vitais em mim - fora deles a minha atuação não acontece, e nem tampouco os meus sonhos.
Andar é uma forma consertante de recolher o que está à vista e reparar a falta que agoniza dentro de mim. Eu descobri que ainda estou sendo feito. Por isso eu perco a pressa e na mansidão recolho os lírios mais ternos que enfeitam a minha alma para eu amar mais - porque o amor que existe dentro do meu peito de homem, ainda é pouco. Sou um menino que desacelera no caminho para compreender o solo pedregoso da vida e das dores que ela oferece. Talvez eu não ganhe tempo, mas colho ensinamento.
Hoje se esqueceram do aprendizado e se lançaram à superficialidade da pressa. Comportamento que não combina com a colcha de retalhos que é a vida. A cada novo dia exigindo das mãos do artesão o cuidado e os olhos atentos para que nenhum pedaço ou detalhe fique de fora desse emaranhado de cor.
O meu querer é o necessário de hoje para eu aprender, e me entregar ao sono com ar de menino que acordou, brincou com a semântica da vida, e extrapolou a morfologia que ressuscita as cores na pauta do cotidiano.
Quando eu perco a pressa, sou capaz de me deitar no chão da existência e acordar mais completo. Porque há partes de mim espalhadas pelo chão das esquinas da vida. Lugares em que passei correndo e não percebi a graça de desacelerar os meus passos para recolher os ensinamentos que estavam ali para serem recolhidos e acolhidos.
A perca da pressa não me deixará rico, mas me proporcionará um sorriso que me socorrerá no cansaço.
Sou um menino que guarda no olhar todos os detalhes da vida. Porque aprendi que ela só tem sentido, quando for recolhida em detalhes - e recolhendo a vida, por hora eu também recolho um pouco de mim.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Recriando a vida .


O tempo vai passando e a gente não dá conta do estado em que a alma fica. Vamos colecionando dores, amores não correspondidos, rancores desncessários no coração e a vida vai perdendo as cores diante de nós. É o ápice da tristeza profunda em nós. Olhamos para dentro de nós mesmos e não enxergamos as luzes da varanda de nossa alma... só há bagunça - poeira que ensaia cotidianamente o amargo em nós. Só há resquícios de luz - pequenos feixes que não são nossos, mas que ensaia a solidão na pauta ferida nas páginas da própria história.
Pessoas são como cacos de vidro: brilham ou ferem.
O que sei é que elas passam, mas o brilho permanecerá se existir amor ou as feridas sangrarão se não houver encontro. Por isso eu tenho medo de atuar na vida do outro sem deixar rastros de alegria. Sem ser clean, transparente. Cada pessoa é um porto em suas diferenças - por lá passo, invoco a alegria, celebro a plenitude do processo de convívio, mas quando essa pessoa de alguma forma não me servir mais, eu a lancarei para fora da minha vida. Depois de um certo tempo, percebo a minha alma frustrada e deposito naqueles que estão ao meu redor a responsabilidade de preencherem os buracos que um dia fora feito ao excluir parte de mim no outro.
Relacionamento é doação. Mesmo que eu não perceba eu me dou para o outro em pequenos fragmentos. Doações que não são devolvidas, mas respondidas. A gente se esquece que em cada palavra, gesto um pouco de nós se esvai...
Depois de uma vida inteira a gente olha pra dentro de si e percebe que a vida não teve adjetivo algum que revelasse tamanha beleza que ela é em seu princípio. A omissão pode até oferecer algumas regalias, mas deixa marcas para sempre. E para que a vida não termine sem que as pessoas descubram em você um ser ama, será preciso arregaçar as mangas e ter a coragem de lavar o quarto que você alugou dentro de si para o egoísmo morar. Isso requer humildade e é por isso que a vida só tem valor quando existe o perdão. Porque ele é o único portal que revela a falha de sermos humanos e nos aponta a opção de recomeçarmos.
A gente vive colecionando verdades que nos afastam do outro. Mas a gente esquece de desaprender para compreender o mistério da vida. Como diria Manoel de Barros: "Quando a gente aprende muito, a vida perde a poesia."
É a vida que ensina, puxando o cordão da saudade e revelando o armário desarrumado que existe dentro de nós.

Rodrigo .

sexta-feira, 11 de abril de 2008

para você.


Hoje é sexta-feira. Trabalhei a semana toda e nem notícias suas eu tive... Acordei cedo todos os dias, arrumei algumas coisas, retirei o pó de alguns livros, varri a casa, lavei os vidros da janela, mas não consegui limpar o excesso da ausência que você deixou em mim desde o dia em que se foi...
Acordo todos os dias como se você estivesse aqui tão perto de mim. Preparo o café, sento na cama e espero alguns minutos só pra imaginar que não posso entrar no banheiro porque você o ocupa pra fazer barba, tomar o banho. Os minutos estão maiores - quase não levanto para bater à porta e meu peito sangra quando escontro a pia seca, o barbeador no mesmo lugar que você deixou quando fez da última vez a barba... Se eu demoro a levantar-me é porque descobri uma forma de você continuar existindo em mim. Quando me deparo diante da luz acesa e do espaço inabitado por você, minha alma afunda na imensidão da luz e grita silenciosamente sua presença.
O café cumpre e toda a casa cumpre o mesmo ritual todas as manhãs: o velamento da morte em mim depois que você partiu ...
Você não morreu, quem morreu um dia foi eu quando você deixou de voltar e de me abraçar. Você ancorou nas ramagens mais infinitas da vida, lá onde a falta não existe e nem o desassossego incomoda, mas o lugar onde somente a espera se realiza.
Enquanto caminho em sua direção, vou te reiventando em mim para eu sobreviver.
Os teus presentes estão todos comprados. O teu cheiro no travesseiro me consola todas as noites em que me deito e com lágrimas me desafaço... Vem o teu cheiro, recolhe a minha pequenez e aos poucos ao ninar me faz adormecer na finita dor de cada dia.
Antes de você partir, você deixou um pouco de si em tudo o que tocou. Por isso que identifico sua presença vezenquando nas coisas que somente o amor pode encontrar. Aí me desfaço em saudades e me torno uma fonte a jorrar amor doído. Amor falta - solidão acompanhada.
Eu não sofro para que a tristeza faça morada em mim, não. Eu choro para que o amor seja lavado e renovado nessa terna forma de se perpetuar em mim e de celebrar em você, a luz resplandecente do amor... amor este que um dia nos uniu nas diferenças e nos dignificou na essência. Fazes-me falta.
Vezequando abro a gaveta e cheiro a tua roupa bem dobrada. Vezenquando eu choro e no choro eu abraço a minha alma em flechas por possuir um amor atemporal. Amor capaz de vencer a morte, ultrapassar a ausência e ancorar em você, onde quer que esteja.
Eu aprendi com você que tudo aquilo que o amor toca, não morre.
Por isso eu ressuscito cada vez que recordo que um dia você também me amou.
E subitamente prolongo os meus minutos na cama ao amanhecer, o esperando sair do banheiro, porque descobri nesta noite de sexta-feira, sozinho em casa, que eu te livrei da morte desde o primeiro dia que eu comecei a te amar.

Dorme com os anjos... Dê beijos neles por mim!
Amanhã, amanhã, amanhã sentarei mais tempo na cama só pra te esperar.

domingo, 6 de abril de 2008

O sorriso .


Sorrir dá trabalho quando a VIDA se transforma em mentiras. Recordo-me dos meus primeiros anos de escola. Primeiro eu olhava para a professora - nela eu precisava identificar o sorriso, mesmo que não surgisse dos lábios, mas estivesse ancorado em algum canto da face... que fosse no olhar, no canto da boca ou no modo de dizer o meu nome. Era só ela sorrir que ela me ganhava e, o meu coração assustado de criança, descansava nos traços e no sorriso de minha professora.
Sorriso é porta de entrada. Quando a gente quer que alguém adentre nosso peito, damos o passaporte do sorriso. Pode vir. É só trilhar o caminho que o meu sorriso proporciona e se deliciar com as belezas ternas do meu coração. Há um lugar bem aqui, que só entra pelo acesso do sorriso.
Fico a pensar nos rostos tristes... Semblantes que não participam das estações das flores, e nem do verão. Vidas secas, ancoradas na dor e na precariedade da vida humana. Não há sorriso em nenhuma parte do rosto. Só encontro marcas de dores existentes - a quantidade não saberia dizer, mas são muitas. Sorrisos escondidos em algum canto, sorrisos adormecidos em sepulcros de feridas que não receberam a luz de um outro sorriso, para que assim eles ressuscitassem na face dos que algum dia foram visitados pela dor.
O sorriso é uma das formas de amar mais lindas que eu conheço. No sexo a gente celebra o encontro de dois corpos que se desejam. Mas no sorriso a gente faz amor também, apenas contemplando.
As pessoas tristes são os túmulos dos sorrisos que um dia foram abafados, mas não definitivamente mortos. Pois a única maneira de ressuscitar o sorriso de alguém é ressuscitar em nós para o outro, o gesto do amor.
Que as luzes acendam...
Que as estrelas brilhem...
Que os corações sejam tocados...
E que o mundo seja mais bonito quando você conseguir ressuscitar um sorriso na curva da dor.
Desconfie de sorrisos que nascem fáceis, eles não costumam ser verdadeiros.

Quanto maior o sofrimento, mais verdadeiro o sorriso quando nascer.

Rodrigo .

( pAra miNhA priMa LaysLa. e pRa minHa amiGa JussaRa. )

terça-feira, 1 de abril de 2008

Feridas que nos roubam .


Talvez a sua visita neste BLOG seja por coincidência. Uma presença que irrompe a normalidade. No silêncio deste blog a luz é acesa quando se percebe a presença humana. É como atravessar uma rua, dobrar esquinas a procura de um ponto seguro. Compreendo que não tem sido fácil a sua busca. Um dia alguém lhe roubou e hoje você procura por si em outros. Talvez viva apartir de regras que são ditas por outros... porque você mesmo já não pode colher os cacos luminosos que a vida risca em você. Há uma ferida, uma falta, um dor, uma busca.

A luz está acesa.
Você veio.
Você está aqui.

Eu sei o quanto te custa a conviver desse jeito. Tudo é alheio, nada parte de si. Recordo-me das vezes que encostava as mãos na parede ou na mesa para sentir se eu realmente estava ali. Era do toque que eu precisava naquele momento. São ventos que chegam e destroem o que construimos... derrubam vasos, mesas, jarros de flores, sacodem as cortinas, quebram as porcelanas e com o seu zunido canta a dor em nós, primulgando feridas. Situações que você se entrega e o vento derruba os sentimentos mais sagrados que você depositou na pauta da vida. Quase não se percebe o alarde, mas definitivamente o estrago é devastador. Louças que não foram apenas quebradas, cortinas que não foram apenas sacodidas e borradas pelo vento - mas sentimentos que foram rasgados, feridos.
Casa destruída, móveis manchados, cortinas rasgadas... cacos de vidro espalhados ao chão. E o vento sugado para dentro de si - silenciosamente pronto a demolir sua essência e confundir o verbo que é vital para você continuar.
Cuidado com os ventos.
Cuidado com as pessoas.
Cuidado com os humanos.
Somos imprevisíveis como o vento. Há pessoas que não são capazes de encontrá-las e instaisfeitas, estragam a vida do outro. Mas também, existem outras que nos devolvem, apontando o jardim que trazemos dentro de nós.

Não colecione as feridas, nem carregue as pedras que um dia te jogaram. Por mais difícil que seja, raspe o que precisa ser raspado, lave o que precisa ser lavada e abra a janela porque daqui a algumas horas virá um novo dia e é justamente ele a oportunidade que Deus te oferecerá para você se descobrir em si mesmo. Que a dor seja essa ponte entre o aprendizado e a lapidação de si. Deixe a esperança dar um beijinho nesse dodói, vai ?
Uma ferida pode doer, mas não pode retirar o seu valor como pessoa humana.


Rodrigo .