quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Cora"São" terrenos ?


Todas as manhãs sai o semeador a semear sementes nos corações. Processo vital de colocar em cada pessoa a semente necessária para que ela seja feliz. Sementes que depois de acolhidas, se transformam em flores e frutos. Sementes que caem de forma poética no coração dos homens, e vão sorrindo ao encontro do solo fértil. A vida é assim: sementes que cotidianamente são lançadas no coração da gente, mas que necessitam de vida para cumprirem o rito de fecundação.
Existem pessoas que passam a vida inteira reclamando da seca na alma, mas não são capazes de regarem a semente que a Vida cede a cada manhã. Vida feliz é processo de construção. O fruto só é fruto porque um dia foi semente. Porque um dia recebeu o calor das mãos daquele que o semeou, depois soube esperar no silêncio para que se mostrasse no tempo certo, mostrando cor, sanor e fruto.
Pessoas amargas são aquelas que apressaram o rito da semente. A vida não se faz de forma instantânea. Raízes demoram, por isso que ser homem custa muito.
Que tipo de terra tu és? Solo fértil que acolhe o jantar poético da vida? Ou areia que acolhe a vida para não preservá-la?
Há também pessoas que são terras fertéis, recebem a semente da vida e não se tornam poesia porque não velam pelo o que possuem - vêm o ladrão e as roubam. Pessoas que não nos amam são expert nisso, entram em nossa vida para nos roubar o que de mais precioso temos: o nosso reconhecimento do valor que possuimos.
Corações que são um amontoado de pedras ... levam a vida carregando as decepões que tiveram ao longo do caminho, insultos, desamor e solidão ... pedras que não são lançadas fora para que a vida reinstaure. Viver consiste em cuidar do solo, e não reclamar da semente. É que às vezes, o problema não está no tipo de semente lançado, mas no tipo de solo que somos.

Quer ser feliz? Descubra o tipo de solo que tens sido ao receber o amor.
Não importa quantos amores estão enterrados em ti,
o que importa é a decisão de ressuscitá-los a partir de agora.

Rodrigo.

domingo, 26 de outubro de 2008

Sou feito de estrelas .


Quando criança gostava de deitar no chão e ficar olhando as estrelas. Eu sempre fazia essa ponte imaginária entre o meu coração e a diversidade de estrelas que haviam no céu naquela noite. Meu sonho era ser astrônomo, embora eu não gostasse de física ou de cálculo algum. Era interessante deitar no chão, esquecer o meu ofício de menino solitário e descobrir em cada uma, um jeito simples de me sentir preenchido, acompanhado. As pessoas que eu mais amava, eram as pessoas que eu trazia personificada em cada estrela. Nada me acompanhara além daqueles que eu trazia no coração e a dança que a minha imaginação completava quando ao colo de alguma estrela me via. Eu nunca tive uma casa na árvore, mas eu tive o meu coração na infinitude do céu, na dimensão incansável do brilho das estrelas. Eu girava a minha cabeça lentamente e ao céu eu brincava de sentir. Nem uma bola me trouxera tamanho prazer! Era a arte de criança que eu trazia, por maior vontade que eu tivesse em contar prá mãe ou pro pai, eles diriam que isso era loucura. Não adentrariam à festa que acontecia quase todas as noites quando eu deitava na terra e era elevado ao céu. Porque existem verdades que são tocadas apenas por aqueles que a experimentam. O que eu não acredito talvez seja aquilo que eu não toquei com os meus sentidos. O amor é assim - acreditamos em sua existência quando somos tocados pelo brilho que ele proporciona. Eu era pequeno demais para entender as coisas da minha mãe, e ela grande demais para compreender os meus sabores de menino. O mais interessante é que a lua nunca me atraiu - eu odiava quando ela aparecia e tomava conta do céu. Bom era ligar os pontos do zodíaco, rir com as três marias e rezar no Cruzeiro do Sul. Recordo-me que um pouco mais crescido, bambino, ganhei uma agenda toda colorida e cheio de desenhos, curiosidades e envolto a tantas coisas havia uma tabela da chuva de meteoros. Eu marcava o dia e esperava que desse meia noite para eu ficar velando o céu. Às vezes demorava para que uma estrela cadente passasse - não podia piscar, era em fração de segundos que ela desfilava com sua calda reluzente. Se demorasse 50 minutos, por mais cansado que eu estivesse e impaciente, quando ela interrompia a normalidade do céu com sua agilidade e beleza, meu coração esquecia que eu havia esperado por tanto tempo e se ocupava em festejar a beleza do momento. A presença dela curava e me devolvia o entusiasmo perdido nos minutos de espera. A vida também é assim. Por mais longo que seja o tempo em que a dor permaneca em nós, por maior que seja o tempo em que a solidão anule nosssos sonhos, a presença de alguém que nos ama inaugura um novo ser em nós - um novo tempo e reestabelece a nossa alma. Por isso que às vezes é preciso esperar. Mesmo que haja a demora, o inesperado poderá imergir em nossa vida trazendo um novo sentido. Eu era tão pequeno pra entender essas coisas, e colocar em palavras. As incansáveis noites deitado no terraço de casa com os olhos fitados ao céu, e as longas esperas na calada da noite para ver uma estrela cadente riscar o céu foram ancoradas em algum lugar, algum quarto do meu coração e me gerido mais homem, mais humano para que hoje você pudesse ter a oportunidade de conhecer o que em palavras, o que em anos e anos sobrevivera na pauta dos mais secretos sentimentos. Não sou feito apenas de sonhos, mas de estrelas.

P.s: post de Jan/08.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Ela, vital em mim.


Fui para o trabalho levando a pasta com as palavras dormindo. Voltei com elas me fazendo companhia, disfarçadas na poesia de Manoel de Barros.

Com a alma na terra de João, moldo esse barro-texto pela vida nos acordes da existência da Daniele. Mulher revestida pela fina camada da poesia. Mistura de Clarice e pintada em cores de Frida Khalo. Presença que rompeu com a sacralidade do tempo para provar que a poesia é inifinita em vida e em desejos. Viver com ela é pisar um jardim onde as flores são pequenas diante da cor que emana. Como a Daniele, menina que passa despercebida aos olhos daqueles que são superficiais, mas mulher que emana cor ao redor daqueles que a amam apenas pelo gesto de a tocarem pelo olhar. Daniele não é mulher de toque, é de encontro pela ante-sala do olhar. Eu só pudeconhecê-la melhor, depois que a enxerguei com o 6º sentido. É do tipo de mulher que não se agrada com pouco, ela deseja a essência...
É o tempo do seu aniversário, mas quem ganha o presente sou eu. Presença que se apodera da poesia de Adélia, humana que chora aos versos de Lispector, menina que brinca com os girassóis na poética de Caio Fernando de Abreu e alma que tranforma a pedra do meio do caminho de Drummond em diamante.
Gosto de aprender com ela, observar o silêncio da tarde que embala os pássaros só para dar lugar a noite. Tecido que me refaz cada vez que tenho vontade de desistir. Daniela é morada dos que encontram na arte a única forma de reacreditar nos reversos que essa vida possui.
Sua chegada em minha vida em 2005 foi estação que não se aponderou do poder de sê-la para ocupar mais um espaço, mas soube permanecer me amando de forma frágil. Daniela nã é um tipo de pessoa que ocupa as variedades saciáveis do ser humano. Primeiro porque poesia nunca se repete, é única e segundo porque por onde pisa, nunca deixa rastros iguais, além de existir, ela suscita me cura de forma poética.
Alma que não está ao alcance de nenhuma definição gramatical. As classes escondem o rosto de vergonha, são pequenas demais para acrescentar opinião sobre. Semântica intocável que Deus soprou no ventre de D. Bernadete e que nasceu em flores.
Falar de alguém que consegue modificar a vida, quando a entregamos o nosso barril, ela devolve com vinho da melhor qualidade.
É ter com ela meio dedo de prosa, que a gente aprende um oceano de poesia.
É ter com ela instantes de olhar, que a gente chora sobre a existência que sobreviverá, ainda que seja inverno.
Dani é jardim que se esconde sob as folhas do outono,
é força vital que reside nos botões aparentemente mortos ...
É vida que acende as estrelas de forma contínua,
ainda que elas sejam a única matéria que os solitários possuem como companhia.
Dani é a transubstanciação da água que rege a vida daqueles que necessitam de sua garoa, numa madrugada silenciosa ou numa manhã de verão.
Se ele precisou de um dia para vir ao mundo,
hoje o mundo precisa de todos os dias para recebê-la porque sua existência é infinita.

Feliz Aniversário, Dani.

domingo, 19 de outubro de 2008

Adjuntos que ensinam .


Compreender a vida como processo de transformação é necessário para quem pensa em não desistir. Felicidade não vem pronta, embalada com data de validade. É processo que se cumpre no cotidiano e que cresce de acordo com o tempo, água regada e folhas podadas.
Viver consiste em observar o que é necessário tirar e o que é necessário deixar fazer parte da nossa vida. Existem jardins que recebem uma pequena erva, que não se apodera em tamanho, mas que se arrasta para destruir. Pequenos acontecimentos e pequenas pessoas também são assim: chegam e em pouco tempo são capazes de retirar as cores que eram fortes em nós.
Existem outras presenças que inauguram um novo tempo e que ressuscitam os adjetivos, tecem os pronomes dando novas vestes e brindam com a primavera dando ênfase aos adjuntos adverbiais que socorrem o verbo quando o vê impossibilitado de expressar sozinho o que de tão intenso deveras expressar.
Adjuntos que chegam no momento oportuno e assim dão novo sentido ao verbo. É o mesmo que se dá quando alguém chega na vida da gente de forma tão intensa! Pessoas que poetizam sobre os nossos sonhos e somam essência em nós. Presenças que no silêncio intensificam o que existe de mais sagrado dentro do coração humano: o desejo de amar.
Foi assim que um dia eu descobri o amor entre os dois... Um completava o que era ausência no outro. Ad + juntos. E o processo da beleza da vida acontecia ali, no encontro entre os dois.
Sempre achei que não deveria receber o peso da definição como "regra". Cumplicidade não é regra - é questão de sobrevivência do amor.
Cumpro a minha vida cancelando as saídas daqueles que de alguma forma acrescentam em mim. Compro passaporte quando desejo chegar na vida de alguém pela vôo da amizade.
Quero aprender com os adjuntos que chegam, não tomam o lugar e nem a liberdade do verbo, mas que sinaliza presença e diz quando o outro não consegue dizer. Presença constante e necessária quando se deseja expressar a própria VIDA.
Se um dia eu conseguir ser adjunto na vida de alguém,
peço a Deus para que o ponto final não atue mais sobre o amor. E que o mesmo seja introduzido na vida daqueles que se sentem só - só assim nascerão novas manhãs regadas dos mais lindos tempos verbais. Enquanto para muitos a gramática é questão de morte - é ela que me ensina ser mais homem no constante processo de aprender amar.

Rodrigo .

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

grilhões .


Hoje uma amiga me visitou. Fazia tempo que eu não a via. Sua chegada em minha casa foi extremamente de silêncio. As grandes verdades nascem do silêncio. As sementes também são assim - promulgam abismos e quando não há mais vento, nem o cantar dos quatro cantos, eis que ressurgem. Ouvi apenas os passos silênciosos e o meu nome veio embalado na caixa do vento, com um laço vital. Fiquei com aquela caixa nas mãos... não abri, não porque eu não tinha vontade, mas por estar tão embalado com a presença de alguém que um dia me ensinou a "ser" humano.
As nuvens riscavam a imensidão do céu, e o vento não parava de assediar o que encontrava pela frente. Enquanto ela me possuía na sala, a vida cumpria o papel de tecer o cotidiano, ali, dentro da sala e fora... O vento fizera amizade com a casa, e por hora brincava de ciranda ao redor do meu quintal, soprando segredos nas janelas - estes, nunca revelados.
Eu chorava em cada frase, em cada resposta de perguntas silenciosas e que um dia foram plantadas em algum lugar. A minha amiga trazia um sorriso na face e as marcas da vida nas mãos.
Me recordo do seu vestido. Era tão lindo, e possuía um catavento que girava, girava cada vez que seu coração batia - sem ela me dizer, percebi que aquele catavento, reunia todos os batimentos da alma e era movido também pelos batimentos do meu: o vento era forte por dentro. Achei que ia voar, mas num momento ela me segurou pelas mãos firme e o vento foi me despindo com toda força... eu podia sentir suas mãos ásperas em mim - eu sentia frio, e chorava. O meu corpo havia sido arrebatado pelo olhar daquela mulher. O meu olhar era pequeno demais para alcançar os dois ângulos ... o de dentro onde eu estava e o de fora, onde meu corpo repousava quando recebeu aquela mulher. Não havia mais vestido branco, nem vento assediando as janelas fechadas em casa; tudo era imensidão e nascimento. Me restara apenas o vestido. Este que não era um vestido qualquer, era o vestido que minha mãe usava justamente no dia em que ela me acolheu como pietá e me devolveu em essência. Ela nunca foi médica, mas sempre curou as minhas maiores feridas.
Em seguida, ouvia gritos de parto ecoando tão forte como se ouve a mãe quando perde o seu filho. Não eram gritos do catavento, eram dores promulgadas dentro de mim. No momento em que percebi que eu estava morrendo, foi que eu renasci. Eu havia perdido aquela caixa e adormecido nos pés daquela torre, com o girar do vento lá no alto velando por mim. Meus resquícios estavam ali, mas o que estava dentro da minha caixa era a minha essência. Eu não renasci no vento, apenas ganhei novas asas, e assim encerguei o cadeado aberto. Corri tanto, tanto, tanto que voltei a amar de novo. Era a vida sendo reinaugurada em mim. Ficaram os ecos do cadeado sendo aberto, este que não será fechado enquanto o poder do amor for maior em mim. As grandes verdades nascem do silêncio. Os grandes homens nascem de cadeados reabertos.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Quase impropérios .


O cheiro de mãe faz falta nos momentos de dores. Semana passada dentro do ônibus, lendo Adélia Prado, eu tentava me consolar da distância que havia entre eu e a minha casa. Enquanto eu era levado e cumpria o ritual do ônibus, reclinei a cabeça e tentava encontrar a minha mãe na poesia de Adélia ou em algum canto daquelas ruas de São Paulo, nas luzes acesas e nas janelas fechadas daqueles apartamentos que tomaram os lugares dos jardins. Lembro, eu chorei baixinho. Nas mãos a mochila cheia, e no coração a falta. No exato momento eu segurava nas mãos os seguintes versos:
"Quando eu tinha quinze anos minha mãe morreu. Foi o sofrimento mais lindo,
a verde vida num pasto tão bonito, eu belamente urrei,
bezerra sem sua mãe, apenas." Repetia esses versos e chorava.
Eu era menino sem destino, sozinho com toda sua formação acadêmica que nessas horas são leigas em salvar a vida, exposto a mendigar o abraço da mãe que talvez estivesse dormindo ou vendo TV em algum lugar da casa.
Necessitei ser olhado por minha mãe com olhos de amor, mas ela não estava ali.
Cruz pesada, noite fria, poesia nas mãos.
Saudade ancorada no peito de menino,
e prece silenciosa na boca.
Quando a falta é grande a alma tende a sepultar palavras.
Me senti menino machucado, ralado, cheio de terra nas mãos entre feridas. Ainda lia os versos: "Que bom é suar na tarde e gritar: mãe, cê tá aí, mãe?" Eu sabia que ela estava no mesmo lugar, e que a morte ainda não a levara. Mas eu também sabia que morte nem sempre é ausência definida, mas ausência declarada, ainda que numa noite no ônibus.
Eu apenas queria o direito de deitar no seu colo, e deixar que o seu olhar doce me restituísse como homem. Eu tava machucado demais para acender o lampião da alma e descobrir o valor que possuía - ação que ela sempre fez quando me viu longe de mim... ela vinha e me devolvia. E eu voltava a ser feliz de novo.
Naquela noite fria de São Paulo, eu descobri que eu também urrava no pasto social, sem a minha mãe por perto.
E foi assim que eu descobri, que minha mãe com seu jeito finito de ser mãe, revelava-me o amor com seu jeito infinito de ser poema em mim.

Rodrigo.