sábado, 22 de dezembro de 2007

Lição de casa .




Hoje a dor não localizada resolveu me visitar. Ancorar nas veias, arder no peito e me levar a escolher o silêncio como a única canção capaz de me acompanhar nesta solidão. Janela fechada, chuva caindo e a vida seguindo seu destino em mim.
Vivi uma semana muito corrida; estágios, monografia para concluir e a saudade para parir. Talvez essa dor, seja por ser o primeiro dia em que oficialmente eu acordei professor. Ontem na faculdade, eu não quis me despedir - dói tanto despedir daqueles que jamais morrerão em mim - aqueles que eu aprendi a amar. E aí, eu paro e procuro respostas no silêncio que grita, promulgando essa inquietude e ardência no peito. Mais que a profissão, eu trago o aprendizado que não aprendi em livros e nem em sala de aula, mas no convívio com alguns amigos. Ensinamentos que me fizeram ser mais gente. Ensinamentos que me educaram, me podaram, raspando as feridas da minha alma e me fazendo melhor. Sabe, eu não sei se eu estou melhor - seria pretensão da minha parte dizer que "estou" melhor. Não, não... mas posso te assegurar que estou mais humano. Eu havia pensado que já tinha o marco da faculdade como sabedoria, mas não - eu me convenci do contrário quando entreguei um livro ( que eu sou co-autor ) pra uma grande professora e amiga, e ela chorou quando o recebeu - metafóricamente, eu cai por terra quando me deparei com essa cena. Eu me senti amado - de uma forma diferente, nem o português, nem a literatura me proporcionou sabedoria maior. ( . . . ) Sabedoria que é tecida na carne das relações, no cheiro, no convívio, no toque, no incentivo. Um dia ela soube me cativar, e a dar uma novo sentido em minha vida, por meio do incentivo. Deu certo, aquela hora eu não entregava apenas o livro, mas o homem novo que ela ajudou a refazer.
O curso não terminou em mim. Ele continua ressoando. E enquanto eu viver, quero a graça de me recordar daquele acontecimento. Eu que pensei que já levara comigo as causas de meus louvores, de repente, ali, fui surpreendido pela voz de Deus nas lágrimas silenciosos da Ana. Não, não havia som naquele gesto. O que havia era o grito da vida sussurrado no meio do grito da minha.
Queria ter tido a força de olhar nos olhos dela e dizer: Professora, você salvou a minha vida!Eu te amo.
Janela fechada, chuva caindo e o amor, personificado em Ana se revelando a mim.

Porque é assim: quando o outro vai embora é que a gente descobre o tamanho do espaço que ele ocupava em nós.


"Salvar a vida de alguém é um jeito bonito que a gente tem de salvar a vida da
gente".

2 comentários:

Dérick Ri-San disse...

Rodrigo, parabéns por essa nova etapa em sua vida.

Confesso que fiquei muito emocionado com o que você expressou e relatou em seu escrito.

Você é um dos poucos que reconhece os maiores aprendizados e os verdadeiros valores de uma estrada, de uma jornada...

Creio na grande sinceridade e emoção de suas palavras... Você soube descrever, humanamente, o que viveu e sentiu... Muito verdadeiro, honesto e acima de tudo muito HUMANO.

Fiquei contente por ti.

Amplexos,
Dérick

Daniele Peixoto disse...

Esse texto seu me emocionou muito. Tá no meu blog agora tá?! Bem creditados, of course. Fico muito feliz em tê-lo lido. Bjo carinhoso.