sexta-feira, 30 de maio de 2008

Vento, amor e balões.


Amor é o sopro do outro que nos leva a voar. É felicidade certeira que inaugura alguns quartos dentro do coração da gente que até então eram escuros e não contemplavam o sol. Amor é o sopro que nos arranca da superficialidade da vida e nos mostra a beleza da vida lá do alto das nuvens. Amor é o convite que o outro nos faz a sermos melhores, sempre. É a reinauguração de quem somos, não o se fantasiar para o outro acreditar em mim. Amor é sopro que retira as mentiras que plantaram em nós, é a devolução do valor que temos pelo que somos, nada mais. Só assim o coração descansa porque já não precisa representar nada. Ele é o que pode. Amor é sopro do outro que nos resgata do meio das pedras um dia lançadas a nós ... é olhar demorado que não cause alarde, mas acalma. É sorriso em horas certas que nos desconcertam. Amor é giz e lousa, amor é escola ... aprendizado necessário de cada dia. Quem não suporta aprender, tampouco poderá ouvir o amor. Amor é sopro que nos faz reacreditar no desejo de voltar, recomeçar, reaprender. Amor é vento que abre a porta sempre à espera do outro chegar - mesmo que as recaídas o deixar triste, e suas feridas forem difíceis de serem curadas, mas o verdadeiro amor espera sempre pelo outro - é varanda acesa e mesa pronta na madrugada.
Amor é sopro de boca humana que ama. Sopro que varre, traz o sol num dia frio de inverno, emana palavras de amor em qualquer instante só para ver o outro sorrindo. Sopro arranca as gaiolas - sentimento sagrado que não combina com prisão, porque um dia liberto não voltará. Amor é sopro que encosta os dois corpos, que beijam a mesma face, que acalenta a mágoa em comum, que alivia a febre em noites de doença... Amor é sopro que junta as duas lágrimas e as absorve em prece como incenso ao Coração de Deus.
Se o amor que você diz ter do outro é um vento que tem passado e destruído sua vida, e que no chão tem diariamente te lançado, fuja num balão bem alto - porque o teu desejo de ser amado é o combustível que fará o teu balão subir... E lá do alto, quando encontrares um vento que te renove, saia de si mesmo e tenha coragem de voar com ele para lugares antes nunca visto. Porque vento que arrebata, destroí - amor que não promove, mata.

Rodrigo .

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Corpos de diamante.


Era apenas mais um encontro. Mais uma tentativa de encontrar um amor que fora predestinado para ele em cartas e sonhos. Agora, estavam a poucos metros de distância. Telefone tocando no bolso - era ele, a espera do outro do lado de fora daquela rodoviária. Depois de longas conversas pela internet, ambos estavam ali, a metros dê distância para amarem. O sol era quente e estava de lua de mel com o mar. Enquanto isso, os ventos ensaiavam uma nova dança e varria as folhas que a segundos os pés dele haviam pisado - o amor passou por aqui.
Quando ele avistou o carro, ainda que preto, ele identificara uma grande luz por dentro - era um misto de sorriso com sonhos, bagagens e malas refeitas: era apenas um homem também em busca do mesmo porto seguro. Ao se tocarem as expectativas foram caindo entre os bancos e recobriam a solidão que forrava o tecido daquele espaço. Entre as pequenas gretas daquele carro, o amor escorria como água límpida pronta a lavar os excessos de superficialidade que haviam passado por ali.
A aproximação das mãos, o cheiro, o toque, a presença foram sujeitos que acordaram do sono da representação e naquele instante o mundo não existiria mais - restara apenas o amor encontrado, bem ali, fulminante dentro de um carro em plena sexta-feira de maio. Os olhares que sangravam mel e riscavam o chão da existência por onde passassem.
Enquanto almoçavam, o amor preparava todo ritual de entrega nos pequenos detalhes. Porque o amor é feito de miúdezas. Esta que ocupa os menores detalhes, mas ocupa a tarefa de recolher o que de mais bonito ambos lançam sem perceber. Pequenas sementes que esperam o olhar do outro para germinarem.
Frases interrompidas, gargalhadas em fluxo, pequenos toques de fogo ... olhar ladrão que roubava por segundos o outro e o guardava dentro de si para ninar.
Aos poucos ele era seqüestrado pela presença do outro, deixando bilhetes ao chão, mágoas atrasadas e solidão de estimação apenas em rastros. O lugar era para o amor, o presente ali, doado milagorsamente pela vida. Quando os dois tocaram a mão um do outro, houve um suspiro de amor e um pequeno diálogo...

- O que você quer ?
- Eu ?
- Sim.
- Ah, o que eu quero agora está em minhas mãos.

A única lei que prevalecia naquele momento, a única verdade, era que os dois existiam um no outro, e a única lei capaz de uni-los para sempre ... era a lei do amor. A mesma que rege o coração dos verdadeiros amantes.
A tarde feliz ia adormecendo com os olhos molhados de amor, esperando o próximo dia para colher os frutos do amor que aqueles dois haviam decidido plantar.

- Aperte o 5, amor.
- Beijinho, beijinho ... dá beijo !
(...)
- Upa, é aqui.
- Entre.
- Ah, sim ! Obrigado.

Entre pequenos "fons, fons" e sorrisos, a noite entregava aos dois um céu de estrelas ... porque o sonho, ah o sonho ... era um estar dentro do outro para não se perderem nunca mais. Ali na cama, dois corpos de diamantes prontos para oferecerem ao outro, as lapidações necessárias e o pérpetuo brilho do amor.

Eles já não estavam mais ali.
Porque um estava dentro do outro,
e ambos dentro do amor.


Rodrigo .

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Como um rio.


Sou como um rio, guardo em mim todas as histórias naufragadas, todos os anéis lançados por àqueles que um dia prometeram o amor eterno. Sou como um rio, guardo no mais profundo a vida daqueles que um dia chegaram até a mim, se banharam em minhas águas e eu nunca mais deixei sair - porque eu os amei. Guardo no mais profundo de mim todas as garrafas com pequenos recados escritos, mas nunca lidos. Sou apenas superfície para àqueles que por um dia passaram remando... e se foram ... levaram o som do vento, mas não descobriram a profundidade que eu lhes oferecia. Sou a profundidade humana para outros que encontraram em mim abrigo, silêncio e oração. Me exponho sempre ao sol, mesmo que por dentro eu esteja frio e sozinho.
Ainda sobrevivo em meio aos barcos quebrados e abandonados que existem em mim... eles estão bem fundos, ninguém a não ser eu, pode tocá-los. Um dia eles foram de alguém e hoje eles adormecem em mim. Um dia eu já fui de alguém e hoje eu não sou nem de mim. Sou apenas um rio, passagem de muitos, mas sozinho em meu trilhar. Quando triste, elevo ao coração das nuvens a minha solidão e elas choram por mim. Quando a dor aumenta me embalo no vento e faço tempestades querendo me abraçar com as minhas próprias ondas - me mostrou furioso, mas sou solitário até na revolta. Logo adormerço a espera de um novo dia ... Sou como um rio, eu só tenho esperas.

Rodrigo.

domingo, 11 de maio de 2008

Protagonista e herói .


"A vida dói, mas é linda." Com essa afirmação que o Felipe encerrava os conceitos partilhados, a vida esmiuçada naquela mesa de bar. Até então eu só via o contrário, que também é verdade. Verdades soltas ... corações sensíveis ocupando o cenário da primeira cena da vida - feridas expostas, mas com o brilho do olhar tecendo a cura sobre cada uma delas.
Depois que saímos dali, as marcas de felicidade de descanso foram nítidas. Enquanto a gente dobrava as esquinas, por elas pisavam novos pés com um novo olhar sobre a vida ... a chuva ensaiou a dança para que ao cair sobre nós, não causasse alarde, mas deixasse apenas o necessário para que o frio nos unissem - enquanto a vida ressurgia em suas diversas formas na noite, eu e o Felipe recolhíamos os primeiros sentimentos.
Haviam carros, pessoas, bares e luzes acesas. Mas só existiam nós. As pessoas mais lindas usam o silêncio para chegar e as marcas para permanecerem.
O Felipe é a reunião de Drummond, a melodia de Bethania e a essência peneirada na fração da dor. Presença que me descansou sem ter que representar nada para que ele me amasse. Menino das cenas, homem do abraço.
Ao ouví-lo, me levantei do banco de minha alma só para colher estrelas - as devolviam a ele com o brilho do sorriso e o desconcerto da palavra.
Felipe é profeta na minha vida. É irmão que acumula as marcas para depois partilhá-lhas em sabedoria.
Homem que rasga o verbo e adjetiva a vida em suas novas fases. Menino que me embala com sua presença doce e põe um balão em minhas mãos... com ele posso voar.
Gosto de sua arte quando ela parte em cacos só para me oferecer o bom fruto que habita dentro. Ele não é um homem das aparências, elas passam ... O Felipe é o olhar da criança que abraça forte sua mãe porque encontra nela o porto seguro - é criança que libera a linha da pipa só para poder enfeitar o céu com sua beleza rara. É o homem das marcas necessárias. Não é como o vento que abraça e passa, mas é ar que preenche minha vitalidade com seu jeito peculiar de saber e ser quem ele é.
Menino travesso que lança a pedra de Drummond nas janelas da futilidade, só para vê-las em pedaços ao chão. Ele é maior!
Homem que confunde os verbos só para imperar o verbo amar em qualquer tempo verbal, porque descobriu que o amor é atemporal.
O Felipe é a contradição perante qualquer limite ao Ser e ao Amar.
É o anjo que se reveste de humano só para trazer paz ao coração daqueles que se achegam a ele.
É o semeador a espalhar vida em mim, é a chuva a regar com sua mansidão os terrenos mais secos e pedregosos do meu peito ... com ele adormeço e amanheço em flores.
Por onde quer que ele passe, a poesia se revela.
Calçadas que se enriquecem com os pedaços de amor e com as histórias ancoradas pelo vento em alguma fresta da calçada - ele passou e amou por aqui.
O Felipe é não que amadurece,
e sim que enaltece.
É o menino tingido pelo arco-íris,
molhado pela eternidade.
É o poema de Caio Fernando quando eu roubo os primeiros versos e os personifico nele:
"O meu dia só existe porque você faz parte dele".
É o tempo de meio silêncio de Drummond,
Homem de cinco sentidos em um só.
É sabor,
poeira
cena
que ressuscita os esquecidos e concede ao meu coração uma finita forma de continuar, e de ver na tela da sua própria vida a beleza que só ele possui, beleza esta que faz jorrar da cena da vida, águas que me lavarão do meu cansaço e da minha dor.
Com o Lipe eu volto à vida cada vez que o vejo como protagonista e herói da minha própria existência.
Sua amizade não me trouxe apenas ensinamentos,
ela me trouxe salvação.
O Felipe é porta fechada para a superficialidade,
mas destrancada para qualquer tipo de amor.

Rodrigo.