terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

acordes da alma .


Definir é muito pouco para descrever alguém que voa como águia e que alcança voo rápido como o meu amigo. Presença que desfaz qualquer definição e tece no fino tecido vital a dádiva de cumprir o rito de sobrevivência. É preciso que os acordes estejam acordados ao som de sua voz. Hoje a vida celebra o aniversário de alguém que um dia foi capaz de passar pela minha cidade interior e fez morada em algum canto. Onde passa as canções são entoadas, a sinfonia de pardais de Salmaso canta, anunciando um novo dia. É dele a festa, mas o presente é meu: sua presença em mim. Homem tocado pela canção que dança ao vento; pés de peregrino que não se cansa de buscar o agudo da música e da alma. Moço envolto de letras partidas, refrões entoados no silêncio da alma; suburbano coração na voz de Chico, o Buarque.
Por mais vazio que seja o coração das pessoas, ao passar por ele, sempre levam alguma poesia no bolso e um sorriso no olhar. Rick é parque, é balão de São João, é festa de Iemanjá, é Concerto no meio dos desconsertos do coração da gente. É poesia que se cumpre vivendo, é pauta necessária de parada para quem quer saborear o gosto da vida. É acorde. É o tom mais alto. É asa que me transporta no som do coração. Homem que colhe as palavras no jardim da inspiração. Moço feito de saudades de onde veio. Moço criado para voar bem alto tendo o infinito como lugar definitivo. É homem que não termina, nem tem ponto final. Homem da pausa necessária, mas da canção seguinte. Rick é um menino que me alivia com sua poesia, é verso que chora, é clave que fala ao coração.
Que no passar do teu corpo, tua alma permaneça. És sopro no tempo, acorde que me acorda, corda que doa tom ao sentimento. Voz que amansa o ódio e que aguarda a canção que virá e que vira poesia ao fim do meu dia.

Feliz Aniversário!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Pressa de não ter pressa .


Certa vez, um amigo do grande pintor Van Gogh disse a ele: "Seus quadros ficam feio porque você pinta depressa." Van Gogh respondeu: - "Não sou eu quem pinto depressa. É você quem o enxerga depressa demais." Assim sou eu, árduo por olhar de forma demorada, contemplativa para não perder as belezas dos detalhes. Existem pessoas que enxergam depressa demais e se perdem dos detalhes mais bonitos que o outro tem à mostrar, mas que requer mestria e preparo no olhar de quem a encontra. Tenho absoluta certeza que muitos já me enxergaram com pressa - e foram exatamente as pessoas que não voltaram à minha casa, não sentaram à minha mesa e muito menos celebraram o amor ao meu lado. Pessoas que se foram porque não tiveram sabedoria em compreender o espaço necessário para me encontrarem. Por isso, vivo a vida buscando ser mais sereno no olhar o outro. Não sei o que virá. Eu sei o que enxergarei na medida da minha paciência. Amores também são assim: a gente tem a tendência de querer enxergar depressa e, na velocidade do olhar estético, a gente sepulta as flores da alma. Por isso que o amor depende de tempo, construção, cotidiano, chuva e sol para revelar o verdadeiro sentido de sê-lo. Querer encontrar alguém é diferente de apressá-la com o que queremos apenas enxergar. Por isso que grandes conquistas só se celebram na vitalidade do convívio e do tempo, sereno, sem pressa alguma.
Que eu seja capaz de aliviar os meus passos, acalmar o meu peito e acender o farol dos meus olhos para encontrar os detalhes, estes que serão responsáveis por eu amar de forma única cada pessoa que eu encontrar em meu caminho. E que a minha pressa seja apenas para me fazer mais homem e humano no detalhe de observar o essencial no outro. Eu quero a pressa de não ter pressa ao te encontrar.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Quase Impropérios .

O cheiro de mãe faz falta nos momentos de dores. Semana passada dentro do ônibus, lendo Adélia Prado, eu tentava me consolar da distância que havia entre eu e a minha casa. Enquanto eu era levado e cumpria o ritual do ônibus, reclinei a cabeça e tentava encontrar a minha mãe na poesia de Adélia ou em algum canto daquelas ruas de São Paulo, nas luzes acesas e nas janelas fechadas daqueles apartamentos que tomaram os lugares dos jardins. Lembro, eu chorei baixinho. Nas mãos a mochila cheia, e no coração a falta. No exato momento eu segurava nas mãos os seguintes versos:
"Quando eu tinha quinze anos minha mãe morreu. Foi o sofrimento mais lindo,
a verde vida num pasto tão bonito, eu belamente urrei,
bezerra sem sua mãe, apenas." Repetia esses versos e chorava.
Eu era menino sem destino, sozinho com toda sua formação acadêmica que nessas horas são leigas em salvar a vida, exposto a mendigar o abraço da mãe que talvez estivesse dormindo ou vendo TV em algum lugar da casa.
Necessitei ser olhado por minha mãe com olhos de amor, mas ela não estava ali.
Cruz pesada, noite fria, poesia nas mãos.
Saudade ancorada no peito de menino,
e prece silenciosa na boca.
Quando a falta é grande a alma tende a sepultar palavras.
Me senti menino machucado, ralado, cheio de terra nas mãos entre feridas. Ainda lia os versos: "Que bom é suar na tarde e gritar: mãe, cê tá aí, mãe?" Eu sabia que ela estava no mesmo lugar, e que a morte ainda não a levara. Mas eu também sabia que morte nem sempre é ausência definida, mas ausência declarada, ainda que numa noite no ônibus.
Eu apenas queria o direito de deitar no seu colo, e deixar que o seu olhar doce me restituísse como homem. Eu tava machucado demais para acender o lampião da alma e descobrir o valor que possuía - ação que ela sempre fez quando me viu longe de mim... ela vinha e me devolvia. E eu voltava a ser feliz de novo.
Naquela noite fria de São Paulo, eu descobri que eu também urrava no pasto social, sem a minha mãe por perto.
E foi assim que eu descobri, que minha mãe com seu jeito finito de ser mãe, revelava-me o amor com seu jeito infinito de ser poema em mim.

Rodrigo.
p.s > reprise.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Eu, nas linhas de uma carta.


Que a celebração da minha existência seja celebrada no amor e pelo amor. Sou humano e com a minha humanidade sou limitado. Homem que tomou o seu barco, o construiu com madeira forte, madeira que resiste ao tempo e aos ensinamentos. Madeira que suporta tempestades, que não racha ao ser envolta pelo primeiro vento. Sou homem que decidiu entrar no rio sem medo do que possa encontrar na terceira margem - é ela quem quero. Querer pouco é ser pouco. Eu sempre quero mais. O "mais" necessário para a cada dia me moldar na delicadeza da vida e na sabedoria do silêncio. Que a minha celebração seja realizada dentro de mim. Lugar sagrado onde as palavras se acomodam de forma poética e preparam, sempre, uma nova forma de me ensinarem a não desistir do amor.

( carta verídica. )

À ...
Primeiramente, quero agradecer pela disponibilidade em acolher em mim aquilo que é mais sagrado: o amor. Me sinto lisonjeado por tê-la em minha vida. E admirá-la em cada gesto. E respeitá-la. E confiar em suas mãos um pedaço da minha vida, ainda que doída. Como diria Caio Fernando Abreu : "Quem diria que viver ia dar nisso?"

Acredito na vida como estação. Lugar onde as pessoas chegam, nos olham e são capazes de modificar a nossa vida com a primeira presença. Algumas passam a vida inteira do nosso lado, mas não modificam nenhum sentimento. Há outras que nos arrebatam com o primeiro olhar. Foi assim que um dia ele modificou a minha vida: encontrando comigo e lapidando em mim os diamantes até então não tocados por nenhuma outra pessoa.

Só que a vida segue. As pessoas também. Num determinado momento eu tive que ser forte o suficiente para compreender que eu precisava seguir sem ele. Paguei o preço pela opção de vida - era preciso optar pela vida e ressuscitar-me da ausência que ele causou ao passar por mim. Inaugurou-se o tempo de inverno em mim, tempo em que a árvore vive para dentro e, eu precisei viver assim.

Ele deixou de morar diante dos meus olhos e do cheiro, para estar entre os meus textos, os meus sonhos, as minhas lembranças, as dores e os soluços no travesseiro .

Recordo-me do pai na Terceira Margem de Guimarães, o Rosa.
Não me esqueço do dia em que a canoa ficou pronta ... Eu queria era ir junto com ele : "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" ... Mas ele apenas ficou em silêncio. Demorei como o filho da história para compreender que ele estava no meio do rio e cada dia mais adentro ...

Cumpri o mesmo ritual que o filho,
todos os dias chegava na beira do rio, oferecendo os meus sentimentos, os meus abraços mas ele não acenava.
Eu ficava imaginando onde ele estava, o que vestia, onde ia, o que comia... "Não adoecia?" O que eu queria, era cuidar dele.
Eu imaginava o * em todos os momentos da minha vida!
"... Assim como, no agasalho da noite, no desamparo das noites de muita chuva, fria, forte..." Chamei tanto pelo nome dele, não como pessoas próximas a mim, como em Gumarães, mas sozinho, o que era mais doído não ter com quem partilhar o peso da dor. "A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. (...) nós todos aí choramos, abraçados".

O meu tempo sem esse homem também foi assim ... têm sido assim, feito de esperas.
O que virá? Eu também não sei.
Só não quero ser covarde desistindo de amá-lo. Ainda que o seu retorno demore ou não aconteça .
O que trago como ensinamento não foi o dia da partida, mas o que ele deixou inacabo em mim .