Ninhos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009


Encontrar o outro não é tão difícil. O grande erro seja fazer o ninho em lugares impróprios. Deixa-se de lado a demora no olhar, em troca do aceleramento do abraço vazio, dos amassos ilsuórios e o que mais existir de necessário para celebrar e suprir o ardor da pele. Festa que acaba antes do sol amanhecer, deixando rastros de prazer que se evaporam, como as gotas da chuva ao encararem as forças do sol.

Os pássaros escolhem o lugar mais discreto e escondido para gerarem vida, despertarem calor, marcarem presença junto ao outro. Não existe passagem avulsas de coisas, nem o incômodo da mão do vento a levá-los embora. O que existe é a verdade do lugar certo para o encontro definitivo. Depois eles voam livres porque foram gerados no lugar certo e cresceram saudáveis.

Os amantes deveriam aprender que ninguém faz ninho no corpo, o movimento nele é grande e passageiro. Os ninhos são feitos no olhar.

Vento, amor e balões.

domingo, 25 de outubro de 2009

Amor é o sopro do outro que nos leva a voar. É felicidade certeira que inaugura alguns quartos dentro do coração da gente que até então eram escuros e não contemplavam o sol. Amor é o sopro que nos arranca da superficialidade da vida e nos mostra a beleza da vida lá do alto das nuvens. Amor é o convite que o outro nos faz a sermos melhores, sempre. É a reinauguração de quem somos, não o se fantasiar para o outro acreditar em mim. Amor é sopro que retira as mentiras que plantaram em nós, é a devolução do valor que temos pelo que somos, nada mais. Só assim o coração descansa porque já não precisa representar nada. Ele é o que pode. Amor é sopro do outro que nos resgata do meio das pedras um dia lançadas a nós ... é olhar demorado que não cause alarde, mas acalma. É sorriso em horas certas que nos desconcertam. Amor é giz e lousa, amor é escola ... aprendizado necessário de cada dia. Quem não suporta aprender, tampouco poderá ouvir o amor. Amor é sopro que nos faz reacreditar no desejo de voltar, recomeçar, reaprender. Amor é vento que abre a porta sempre à espera do outro chegar - mesmo que as recaídas o deixar triste, e suas feridas forem difíceis de serem curadas, mas o verdadeiro amor espera sempre pelo outro - é varanda acesa e mesa pronta na madrugada.
Amor é sopro de boca humana que ama. Sopro que varre, traz o sol num dia frio de inverno, emana palavras de amor em qualquer instante só para ver o outro sorrindo. Sopro arranca as gaiolas - sentimento sagrado que não combina com prisão, porque um dia liberto não voltará. Amor é sopro que encosta os dois corpos, que beijam a mesma face, que acalenta a mágoa em comum, que alivia a febre em noites de doença... Amor é sopro que junta as duas lágrimas e as absorve em prece como incenso ao Coração de Deus.
Se o amor que você diz ter do outro é um vento que tem passado e destruído sua vida, e que no chão tem diariamente te lançado, fuja num balão bem alto - porque o teu desejo de ser amado é o combustível que fará o teu balão subir... E lá do alto, quando encontrares um vento que te renove, saia de si mesmo e tenha coragem de voar com ele para lugares antes nunca visto. Porque vento que arrebata, destroí - amor que não promove, mata.

Rodrigo .

A sua chegada.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Na noite passada o pé de amor que morava em mim, há um bom tempo, floriu.

Rodrigo.

A corda que me acorda.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009


O Círio de Nazaré é uma das festas mais comoventes do povo de Belém do Pará. Festividade que arrasta multidões às ruas e, assim, celebram o Cristo que vem no colo de Nossa Senhora de Nazaré, rodeada por uma longa CORDA. Agarrados a ela, vão os devotos, com impressionantes atitudes de sacrifício e de fé.

Enquanto eu via o povo a segurar firme a corda, quase invisível em meio a multidão, percebia dentro de mim que enquanto ela desaparecia naquele mar de gente, ela aparecia dentro da minha alma. Forma bonita de acreditar que o bem mora dentro de nós. E que basta um toque, uma descoberta precisa, um pouco de vontade para compreeender o interior, como lugar precioso que Deus tem como predileção para poetizar. E vendo o Círio, Deus poetizou em mim.

Fiquei a pensar na Corda que cotidianamente a Vida transpassa em mim. Ainda que eu tenha todas as razões para sofrer, eu não posso ter razão alguma para desistir. A corda é Deus, e Deus de alguma maneira, mora dentro de mim.

Não sei qual é o vento que te faz cair. Não sei qual é a sala escura que você tem vivido os seus dias, com a dança fria do vento acendiando as gotas de chuva lá fora, tudo solidão. O que sei é que essa corda existe dentro de você. E talvez seja necessário enfrentar uma multidão de medos, traumas e dores para que você chegue até ela. O que a Vida quer de todos nós, é coragem - não para enfrentar o mundo, mas para enfrentar os avessos que possuimos.

A multidão pode ser o cansaço, as dores em coro na alma, o abandono sentado à beira da sua essência, as cinzas que não param de cair, tirando as poucas cores que ainda há em você... ou aquela que está guardada em alguma curva da sua alma e que você a vê de longe, sem ter a coragem de mudar o caminho.

A multidão um dia foi a pedra no meio do caminho para Drummond. E de obstáculo, se tornou caminho para a poesia. Hoje, a pedra que mais pesa, pode ser matéria de aprendizado e um dia, recordação de vitória.

Recomeçar - é mais que uma palavra. E mais que um verbo, é a trajetória que hoje temos diante dos olhos. Não desista de você. Não desista daquele que você ama. Não desista da vida. Ainda que em meio a tantas multidões que te sufocam, mantenham os olhos fixos na essência boa que Deus um dia plantou em você. Descobrí-la, só você pode fazer.

Agora é noite aqui, mas falo de manhã. Agora é silêncio, mas falo de ressurreição.

O Círio me fez enxergar, a corda em forma de bilhete, que um dia Deus esqueceu de propósito em mim, para que eu unindo o artigo definido "a" ao substantivo "corda", descobrisse a mensagem : "Acorda". E assim, ressuscitasse mais uma vez ao amanhecer.

O moço tecelão.

sábado, 10 de outubro de 2009

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.
Marina Colasanti.

Fui surpreendido por um grande amigo com o conto: "A moça tecelã". Não me contive quando comecei a saborear as primeiras linhas desse texto. Cada palavra acordava dentro de mim o que eu eu acabara de viver nos últimos meses. Vida que se cumpriu com cores e novelos diversos. Vida que se firmou com suas cores em tons amarelados e com novelos cor de cinzas. Quando a gente ama é assim. Preparamos o melhor tear, escolhemos as melhores cores, ensaiamos os melhores tons e, assim, tecemos o grande tecido que nos protegerá do frio nas noites em que o ar der as mãos para o movimento e assim dançarem embrigados ventando ao tempo.

Vejo-me como um moço tecelão. Escolhendo com sabedoria as melhores cores, exigindo o melhor tear e subindo o mais alto que posso alcançar em mim.

Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.


Fui tecendo os fios que saiam do meu peito e depositando no amor o que era propício para não sentir frio e nem a ausência de cores que alegrariam a minha alma. Depois de um tempo, me senti na necessidade de parar o grande tecido e recomeçá-lo. Eu já não era feliz tecendo a fantasia. Eu precisava era tecer a realidade.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.


Eu desteci os projetos feitos, a ousadia premiada, a confiança cega e parei de sentir frio quando pecebi que tecia para o outro, além de mim, e tudo o que saía do meu tecer era precioso demais para ser abrigado em potes de barro. É como depositar sonhos num pote pequeno demais que não suportaria tamanha responsabilidade e, assim, racharia em cacos ou esnobaria como supérfluo o que ele nunca conhecera no reino da mentira. É que boa intenção só funciona quando a parte de lá é possuidora dessas virtudes.

Amor só funciona quando o tecido cobre para aquecer e descobre para revelar. Mentiras não suportariam tal artesanato.

A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.


Em mãos escolho a linha mais branda, e me passo devagar entre os fios que plenos de luz, me levam à essência primeira, o mesmo lugar que teceu-me nas linhas do caráter e me leva a ser sempre, o moço tecelão - tecendo virtudes e combinando as cores do amor com as linhas da verdade.

Quem usa os fios da verdade, terá sempre o dom de recomeçá-los em novos corações. Mas quem usa os fios da mentira, se tornarão prisioneiros em seus próprios teares.


Qual é o tecido que precisa ser desfeito para você voltar a ser feliz? Mais vale desfazê-lo com dor, do que viver sem amor.

Rodrigo.

Laçar a si mesmo.

sábado, 3 de outubro de 2009

Estamos no meio de um grande rodeio. É hora de recolher todos os ensinamentos práticos para que o equilíbrio seja o maior possível em cima do bicho, do touro. Relembrar as inúmeras horas de aprendizado, ter boa disposição e concentrar o foco na vitória. O material, as amarrações, os detalhes precisam ser fortes - uma falha se quer, pode estragar a festa.

Nunca alguém me fez pensar que a vida é esse grande rodeio.
Dias que passamos a recolher os ensinamentos, outros mais brandos com o descanso necessário, no entanto outros em profundo silêncios. Preparação contínua que nos capacitará para o grande dia que exijirá um esforço maior, ou quem sabe, todos os ensinamentos agregados.
No último mês as porteiras do grande embate se abriu para mim. Precisei recolher rapidamente o que aprendi para enfrentar o grande touro. A única informação que eu tinha sobre ele a me esperar no meio do campo, era o nome: provação.

Ele estava ali, parado, sem causar nenhum alarde. Me olhando com os seus olhos fixos e certo do que haveria de fazer em mim. Vi o desespero na face daqueles a quem amo tanto, do lado de dentro da porteira. Ali, carreguava, mais que todos os ensinamentos agregado em mim - eles costumam sumir no desespero, carregava a fome de fazer a vida sobreviver no coração da minha irmã que acabara de receber um diagnóstico sério e preocupante.

Enquanto eu olhava para os olhos daquele grande bicho, eu tive medo. Precisei morrer em cada choro, precisei ser forte para carregar no ombro a minha própria casa, até então feliz, agora assustada pela força do vento...

Comecei a caminhar, lembro que não ouvia plateia alguma e nem gritos ao meu redor. O silêncio era o que mais pesava em mim. Quanto mais eu caminhava, mais os dias passavam! O bicho era difícil de ser alcançado, embora estivesse o tempo todo olhando para mim. É que olhar para ser alcançado não mede distância, é questão de direção e querer alcançar o outro.

A cada peso dos passos dado, uma estrela repousava sobre as minhas mãos e me fazia acompanhado. No meio do caminho, olhar para trás seria sinônimo de fracasso. No entanto, antes de pisar na arena, recolhi todos os que eu amava dentro de mim, os acomodei no melhor que existia dentro do meu coração e ali, silenciosos, me sustentaram em cada passo dado.
É que às vezes, silêncio e boa presença costumam nos manter vivos, ainda que a morte tente morar em nós. Família dentro da gente é casa acesa, mesa posta e lua necessária numa noite em que as estrelas precisam descansar.
Recordo-me que adormeci no caminho, era dor. Recordo-me que já não sentia medo, era amor. Foi só aí que ao olhar para frente, bem perto do grande bicho, ele se aproximou a alguns passos de mim e disse baixinho: "Pode voltar. Enquanto você sentia medo, eu era o bicho, agora que você aprendeu o que é amor, eu sou apenas mais um aprendizado."

Viver é estar constantemente diante do novo que poderá ser bicho de longe, ou ensinamento de perto. Qual é o touro que te espera ao longe?

Rodrigo .

O fruto do Chico.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Chico. disse...
"Olá,
Faz tempo que leio o seu blog, e sempre me encanto!
Mas hoje, decidi comentar! Suas palavras são sensíveis, seu texto é muito bem estruturado!
Utopia é achar que não se pode colocar sentimentos em palavras, porque você faz isso com perfeito êxito!
Parabéns pelo blog!"

Respondo:

O mais bonito nos textos que escrevemos é que eles viram sementes nos corações desconhecidos. Depois de tecido, eles não são apenas nossos, a chuva e as estações tem o poder de levá-los. Um dia fecudam, florescem e, Deus nos faz conhecer as pessoas que se alimentaram dele. Obrigado por trazer em meio às palavras, os frutos necessários para eu me alimentar nessa hora e assim, continuar lançando textos que um dia virão em forma de alguma presença. Como a sua que visitou o meu dia e me fez poetizar, a semântica da gratidão, nesse início de noite. Obrigado amigo!

Rodrigo .