Quando eu ainda era moço, mais jovem, tive a graça de ter uma tia, morando em casa com a gente.
Eu passava horas a fio com ela: fosse no mercado, na varanda, observando as pessoas que passavam pela rua, ou no sofá a escutar as longas histórias do tempo quando a vaidade era coisa simples e não borrava a essência das pessoas.
Enquanto ela verbalizava, entre sorrisos e pausas... a minha memória dava vida às palavras e, no mesmo instante, a sua voz virava mar, e eu, com o meu barco sonhador, navegava em seu oceano de prosa.
Mãos calejadas, sinais e rugas por toda a face. Vez em quando, eu as puxava só para deixá-la inquieta. - "Sossega, menino", ao sorrir, ela repetia.
No entanto, eu sabia que, por entre as entrelinhas das linhas que compunham o seu corpo, havia um bocado de vida ancorada para ser repartida.
Eu pensava: como pode alguém tão riscado ser feliz? Eu era feliz vivendo só de perguntas. Bastava ela me amar para eu não precisar de respostas.
O cabelo parecia uma grinalda, cor de nuvem. A minha tia era uma noiva constante, que soube adentrar, cotidianamente - no altar da vida - para se casar com as coisas que o tempo não dilacerava.
Ela só podia ser santa, meu Deus! Sacrário da Vida.
Drummond é uma janela que me faz ser capaz de compreender a vida no possível que me cabe. Pela manhã, caiu nas minhas mãos, um de seus poemas. Fitei-o com fome. E cada verso me visitou na carne e me consolou em algum canto da minha alma, que precisava de amparo. Posso não viver de respostas. Mas as perguntas são necessárias e me acalentam no palco da minha condição humana.
"Bom dia: eu dizia à moça / que de longe me sorria./ Bom dia: mas da distância ela nem me respondia./ (...) Bom dia sempre: se acaso a resposta viver fria ou tarde vier, contudo esperarei o bom dia. (...) O tempo é talvez ingrato e funda a melancolia para que justifique o meu absurdo bom-dia. Nem a moça põe reparo, não sente, não desconfia o que há de carinho preso no cerne deste bom-dia."
O mais bonito do poeta fora a persistência de acreditar que o seu bom dia continha o sabor necessário para dar gosto à quem o recebesse. E, ele persistia com a saudosa saudação. Na vida, às vezes, é assim. Damos o melhor que possuímos, mas o que de bom existe em nós, não é acolhido como esperávamos que fosse pelo outro. Com isso nos entristecemos e questionamos o nosso valor. Não! A vida pode ser bela no altar da pergunta, e também, raiz, quando existe a ausência de respostas.
É como o inverno: parece que as árvores estão mortas. Mas a vida que, aparentemente, não se vê na superfície, está florescendo por dentro, enraizando e fortalecendo o que é tão necessário para que elas continuem vivas. O tempo e a lição.
Como Chico Buarque nos ensina em canção: Basta um dia. Eu precisei apenas de uma manhã c/ Drummond nas mãos, para compreender que é possível ser feliz, ainda que o outro não nos alcance com o poder de respostas. É que, às vezes, a própria pergunta nos basta.
Há pessoas que se alimentam de respostas. Há outras que sobrevivem do silêncio alheio para se enraizarem no amor.
Ele estava na mesa 62. Saíra do trabalho com o peito suado e eufórico para tomar um vinho, respirar aquela uva que sofrera tanto para dar sabor à sua noite, ouvir Jazz enquanto suas mãos percorressem a taça nua e fria junto ao seus lábios de homem-silêncio. Toda sexta-feira ele cumprira o mesmo ritual - ainda que as pessoas fossem as mesmas e a mesa de madeira preta, o acompanhasse em suas angústias de homem contemporâneo.
A cena era a mesma: acordes ao fundo do bar, e a sua alma dormindo no tédio. Vez em quando, alguns olhares novos surgiam, mas logo desapareciam entre a fumaça dos charutos franceses que os moços degustavam. Enquanto a fumaça dançava, aos poucos e de forma sensual, ela morria em questão de segundos, para assim, ser sepultada na pele e na roupa dos que choravam a vida.
Ele colecionara silêncios e pagava a conta. Quando os ponteiros marcassem duas horas da manhã, pegaria um táxi até a Rua Leblon, entraria em seu apartamento, retiraria a gravata e cairia na cama, sobre os pêlos do peito fartos de tanto calor, e assim descansava o corpo, vencido sob a pressão da temporalidade.
Na semana seguinte, cumprira o mesmo trajeto. Lá estava ele na mesa 62 colecionando ausências, beijando o melhor vinho e aliviando a fome de poder estar vivo no coração de alguma mulher.
Afastou a cadeira, repousou o copo frio sobre a mesa, e dirigiu-se ao banheiro entre as sombras e a escassez da luz que pairava sobre aquele mesmo bar. Quando voltou, notou que ao lado, na mesa 63, havia uma mulher bem vestida, acompanhada de Flaubert e profundamente provocante. Cabelos macios que ao vento dançavam envergonhadamente, e mãos delicadas a erguer uma taça do melhor licor que a casa possuía. Enquanto isso, um verso escapava dos seus lábios manchados de vermelho; ela fazia amor com a poesia que exalava daquele pequeno livro, "Madame Bovary", tão embalada por suas mãos brancas e delicadas de mulher...
Algo nela não o deixara em paz. As outras que passara sobre ele, eram notáveis, mas a mulher da mesa 63 era irreversível - a vida, a pequena porção servida no altar da minha mesa sempre posta para o amor chegar. Ela não precisaria de macho, mas de homem. A partir daquele momento, enquanto a contemplava, ela era motivo de celebração dentro de mim. E eu, o sacerdote do tempo, vestido com um túnica barroca, vermelha, cheirando à mulher amada, presidia o grande mistério do amor inesperado.
Um andar suspeito, um malefício feito, um batom de mulher atrevida. A noite tinha cheiro de felicidade. A vida segregada em solidão, a esperança vencida que o tempo resolveu romper. O mundo ficou mais estreito depois que ela resolvera tocar o livro, sem perceber que estaria me alcançando com seus dedos finos e decorados com um belo esmalte vermelho.
A mulher de traços finos e batom vermelho, era a personagem perfeita, pronta para atuar no meu enredo sempre trágico. Ao vê-la bem perto de mim, amanheci, sem precisar adiantar o relógio e nem mesmo chegar em casa.
Batom vermelho sempre me pareceu vulgaridade, coisa que só fica bem na boca de mulher ordinária - mas o dela ordenou o meu sentimento e me fez ressurgir de mim mesmo. Aos poucos, num suave movimento de homem surpreendido pela semântica da cor tão fatal, fui saindo de mim e me entregando aos encantos daquele olhar. Amor embalado, pronto para o consumo. E, naquele instante, enquanto eu a admirava, levaria para casa a primeira lição: coração de homem que não manda sangue para a ação dos braços não transforma o mundo.
O devaneio fora cortado pelo celular anunciado a ligação do meu taxista: - "Estou passando aí para te pegar." disse o velho companheiro. E ao sorrir, respondi: "O amor já me pegou e usa batom cor de sangue."
Eu era um homem feliz naquela hora estreita da vida. A pobreza do meu tecido de homem cansado, pôde ser socorrida com a arte dos bordados em vermelho, que só aquela mulher possuía. Era o amor brotando, com as ramas que tanto desejei.
As minhas ausências me deixavam sempre partir, mas naquela noite seria diferente. E foi.