domingo, 9 de maio de 2010

Grinalda.




Quando eu ainda era moço, mais jovem, tive a graça de ter uma tia, morando em casa com a gente.

Eu passava horas a fio com ela: fosse no mercado, na varanda, observando as pessoas que passavam pela rua, ou no sofá a escutar as longas histórias do tempo quando a vaidade era coisa simples e não borrava a essência das pessoas.

Enquanto ela verbalizava, entre sorrisos e pausas... a minha memória dava vida às palavras e, no mesmo instante, a sua voz virava mar, e eu, com o meu barco sonhador, navegava em seu oceano de prosa.

Mãos calejadas, sinais e rugas por toda a face. Vez em quando, eu as puxava só para deixá-la inquieta. - "Sossega, menino", ao sorrir, ela repetia.

No entanto, eu sabia que, por entre as entrelinhas das linhas que compunham o seu corpo, havia um bocado de vida ancorada para ser repartida.

Eu pensava: como pode alguém tão riscado ser feliz? Eu era feliz vivendo só de perguntas. Bastava ela me amar para eu não precisar de respostas.

O cabelo parecia uma grinalda, cor de nuvem. A minha tia era uma noiva constante, que soube adentrar, cotidianamente - no altar da vida - para se casar com as coisas que o tempo não dilacerava.

Ela só podia ser santa, meu Deus! Sacrário da Vida.

A eternidade já morou comigo e se chamava Teresa.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O tempo e a lição.


Drummond é uma janela que me faz ser capaz de compreender a vida no possível que me cabe.
Pela manhã, caiu nas minhas mãos, um de seus poemas. Fitei-o com fome. E cada verso me visitou na carne e me consolou em algum canto da minha alma, que precisava de amparo.
Posso não viver de respostas. Mas as perguntas são necessárias e me acalentam no palco da minha condição humana.

"Bom dia: eu dizia à moça / que de longe me sorria./ Bom dia: mas da distância ela nem me respondia./ (...) Bom dia sempre: se acaso a resposta viver fria ou tarde vier, contudo esperarei o bom dia. (...) O tempo é talvez ingrato e funda a melancolia para que justifique o meu absurdo bom-dia. Nem a moça põe reparo, não sente, não desconfia o que há de carinho preso no cerne deste bom-dia."


O mais bonito do poeta fora a persistência de acreditar que o seu bom dia continha o sabor necessário para dar gosto à quem o recebesse. E, ele persistia com a saudosa saudação.
Na vida, às vezes, é assim. Damos o melhor que possuímos, mas o que de bom existe em nós, não é acolhido como esperávamos que fosse pelo outro. Com isso nos entristecemos e questionamos o nosso valor. Não! A vida pode ser bela no altar da pergunta, e também, raiz, quando existe a ausência de respostas.

É como o inverno: parece que as árvores estão mortas. Mas a vida que, aparentemente, não se vê na superfície, está florescendo por dentro, enraizando e fortalecendo o que é tão necessário para que elas continuem vivas. O tempo e a lição.

Como Chico Buarque nos ensina em canção: Basta um dia.
Eu precisei apenas de uma manhã c/ Drummond nas mãos, para compreender que é possível ser feliz, ainda que o outro não nos alcance com o poder de respostas. É que, às vezes, a própria pergunta nos basta.

Há pessoas que se alimentam de respostas. Há outras que sobrevivem do silêncio alheio para se enraizarem no amor.

domingo, 2 de maio de 2010

O batom vermelho.





Ele estava na mesa 62. Saíra do trabalho com o peito suado e eufórico para tomar um vinho, respirar aquela uva que sofrera tanto para dar sabor à sua noite, ouvir Jazz enquanto suas mãos percorressem a taça nua e fria junto ao seus lábios de homem-silêncio. Toda sexta-feira ele cumprira o mesmo ritual - ainda que as pessoas fossem as mesmas e a mesa de madeira preta, o acompanhasse em suas angústias de homem contemporâneo.

A cena era a mesma: acordes ao fundo do bar, e a sua alma dormindo no tédio. Vez em quando, alguns olhares novos surgiam, mas logo desapareciam entre a fumaça dos charutos franceses que os moços degustavam. Enquanto a fumaça dançava, aos poucos e de forma sensual, ela morria em questão de segundos, para assim, ser sepultada na pele e na roupa dos que choravam a vida.

Ele colecionara silêncios e pagava a conta. Quando os ponteiros marcassem duas horas da manhã, pegaria um táxi até a Rua Leblon, entraria em seu apartamento, retiraria a gravata e cairia na cama, sobre os pêlos do peito fartos de tanto calor, e assim descansava o corpo, vencido sob a pressão da temporalidade.

Na semana seguinte, cumprira o mesmo trajeto. Lá estava ele na mesa 62 colecionando ausências, beijando o melhor vinho e aliviando a fome de poder estar vivo no coração de alguma mulher.

Afastou a cadeira, repousou o copo frio sobre a mesa, e dirigiu-se ao banheiro entre as sombras e a escassez da luz que pairava sobre aquele mesmo bar. Quando voltou, notou que ao lado, na mesa 63, havia uma mulher bem vestida, acompanhada de Flaubert e profundamente provocante. Cabelos macios que ao vento dançavam envergonhadamente, e mãos delicadas a erguer uma taça do melhor licor que a casa possuía. Enquanto isso, um verso escapava dos seus lábios manchados de vermelho; ela fazia amor com a poesia que exalava daquele pequeno livro, "Madame Bovary", tão embalada por suas mãos brancas e delicadas de mulher...


Algo nela não o deixara em paz. As outras que passara sobre ele, eram notáveis, mas a mulher da mesa 63 era irreversível - a vida, a pequena porção servida no altar da minha mesa sempre posta para o amor chegar. Ela não precisaria de macho, mas de homem. A partir daquele momento, enquanto a contemplava, ela era motivo de celebração dentro de mim. E eu, o sacerdote do tempo, vestido com um túnica barroca, vermelha, cheirando à mulher amada, presidia o grande mistério do amor inesperado.

Um andar suspeito, um malefício feito, um batom de mulher atrevida. A noite tinha cheiro de felicidade. A vida segregada em solidão, a esperança vencida que o tempo resolveu romper. O mundo ficou mais estreito depois que ela resolvera tocar o livro, sem perceber que estaria me alcançando com seus dedos finos e decorados com um belo esmalte vermelho.

A mulher de traços finos e batom vermelho, era a personagem perfeita, pronta para atuar no meu enredo sempre trágico.
Ao vê-la bem perto de mim, amanheci, sem precisar adiantar o relógio e nem mesmo chegar em casa.

Batom vermelho sempre me pareceu vulgaridade, coisa que só fica bem na boca de mulher ordinária - mas o dela ordenou o meu sentimento e me fez ressurgir de mim mesmo.
Aos poucos, num suave movimento de homem surpreendido pela semântica da cor tão fatal, fui saindo de mim e me entregando aos encantos daquele olhar. Amor embalado, pronto para o consumo. E, naquele instante, enquanto eu a admirava, levaria para casa a primeira lição: coração de homem que não manda sangue para a ação dos braços não transforma o mundo.

O devaneio fora cortado pelo celular anunciado a ligação do meu taxista: - "Estou passando aí para te pegar." disse o velho companheiro. E ao sorrir, respondi: "O amor já me pegou e usa batom cor de sangue."

Eu era um homem feliz naquela hora estreita da vida. A pobreza do meu tecido de homem cansado, pôde ser socorrida com a arte dos bordados em vermelho, que só aquela mulher possuía. Era o amor brotando, com as ramas que tanto desejei.


As minhas ausências me deixavam sempre partir, mas naquela noite seria diferente. E foi.