terça-feira, 27 de novembro de 2007

Esquinas.


Todo processo de dor é sempre um processo de gestação do amor, e você sabe disso porque já experimentou na sua carne, as realidades que podemos experimentar o amor mais puro dentro de nos é quando experimentamos a dor, por isso só podemos acreditar no amor do outro a partir do momento que ele e capaz de sofrer com a gente, quando você descobre que é tão especial na vida do outro que ele seria capaz de dar boa parte da vida dele pra estar com você, o verdadeiro amor nasce no processo da dor do sofrimento, nós não estamos dizendo que o amor é condição da dor, podemos amar na alegria, na tranqüilidade, mas o amor é privilegiado no momento da dor, ficamos mais verdadeiros, deixamos de dar atenção aquilo que é supérfluo, temos uma visão privilegiada, centramos no que é essencial, e olhar o essencial é um desafio nos dias de hoje, corremos o risco de passar despercebidos e uma realidade ela é feita daquilo que é essencial e acidental, o essencial de uma cadeira é a madeira, a consistência da madeira, o formato poderia ser diferente, na vida a mesma coisa, lidamos com realidades essenciais e acidentais, você enfrentou hoje uma grande realidade, e o problema é que nem sempre descobrimos o que é essencial na nossa vida e no dia de hoje, a nossa felicidade esta associada a nossa capacidade de dividir o que é essencial do acidental, digamos que você tinha um filho doente, você precisava cuidar dele e fazer compra, ai você descobre o que é essencial e o que é acidental, essencial é aquele que atinge nosso coração, nos devolve a nos mesmos cuidar do outro é uma experiência bonita de devolução de nos mesmos, porque quando cuidamos do outro extraímos um amor que não é comum, que vem de dentro de nos mesmos, profundo...


Hoje você viveu realidades essenciais e acidentais e você escolheu entre elas e eu desejo que você tenha sido capaz de descobrir aquilo que foi essencial pra você, que você não tenha perdido tanto tempo naquilo que é acidental, e se perdeu não tem problema, você tem seu dia a partir de agora, uma serie de coisas que você perdoe escolher e que são essenciais pra você, acorde tentando buscar aquilo que lhe é essencial, pedindo que você tenha condições de identificar, uma pessoa que passa por dificuldades, ela não se prende mais em coisas acidentais, ela quer estar perto de quem ela ama, próxima daquilo que lhe dá prazer e amor na vida, vai querer estar com aqueles que lhe foram importantes, e muitas vezes no momento que estamos bem não temos a sensibilidade de perceber o essencial, acabamos desperdiçando nosso tempo com aquele que não merecia, o que preenche nosso coração de verdade é aquilo que é essencial, aquilo que se tirarem de nos, deixamos de ser nós mesmos, pessoas, valores, situações, é como passar um período de viagem e depois voltar pra casa, pode ser o melhor hotel do mundo, mas não é sua casa, porque o hotel é acidental, e a sua casa é a sua identificação, onde tem seu cheiro, seu sabor, no momento da dor, da ausência, damos valor aquela rotina toda que muitas vezes não valorizamos, nosso coração é fiel, ele nos faz retornar aquilo que ama que é essencial, basta que você viva a ausência e a separação, e isso chamamos de dor, dor é tudo aquilo que nos indica que algo esta errado, pra que possamos colocar nossa atenção no essencial e que não podemos mais continuar acidentalmente.


Fábio de Melo

sábado, 17 de novembro de 2007

Visita




Ele esteve aqui.

Chegou quando o sol ainda dormia e me confidenciou algumas alegrias na ordem da minha vida. Sua beleza é tão intensa que resolvi não discordar.

Seu jeito suave fora tão convincente que prefiri ouvi-lo sem interrompê-lo.

Depois, sentou-se à mesa da minha cozinha, bebeu uma xícara de café, elogiou o sabor e se foi quando eu ainda observava o seu jeito de sorrir para mim.


Rodrigo .


( * Ygor. )

domingo, 4 de novembro de 2007

Ele .





Sem nome.

Tenho medo deste menino mudo,
prenúncio de palavra,
ancorado em meu porto na madrugada.
Feito pacote sem remetente,
implora-me adoção.
Insinua-se exalando frescor de prosa,
meio rosa, meio dor.
Apenas o observo em seu sabor de silêncio.
Não quero os são, nem os paulos - apenas esse menino, tentando absorvê-lo da
distância.
Trazendo-o para perto de mim, e tecendo no sono sagrado o mais novo mito da
existência humana- ele em mim.




* Rodrigo Rudi .
(foto: Gustavo)



Caio F.

"... tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um
peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais,
nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, veja só que
coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz,
cara."

"Abraçe a sua loucura antes que seja tarde de mais".

Caio Fernando

Fragmentos!



É inevitável ultrapassar os limites que o tempo nos impõe, sem sair com arranhões.



“Essa morte constante das coisas é o que mais dói. (...)
Depois de todas as tempestades e naufrágios,
o que fica de mim em mim é
cada vez mais essencial e verdadeiro.”
(Caio Fernando Abreu)



Viver é um constante morrer. O tempo vai passando e os portões enferrujando – as casas virando história de gente grande e nós deixando cascas onde quer que toquem, onde quer que pisem. Esse jeito peculiar de morrer não deixando de respirar, de fazer a barba, de tomar banho, beber café todos os dias é o ato mais doído quando perceptível. É que nem sempre as pessoas tendem a enxergar o que perderam, mas sobrevivem para conquistarem o que bastará alguns dias para tornar-se apenas uma história recolhida no retrocesso da saudade. Eu vivo para morrer e na perda, receber o que ainda não havia tocado. O vento que me toca e me assedia – a chuva que me banha e me deixa gripado, talvez seja um jeito que o Eterno resolveu de me recolher aos poucos.
Já é noite e chove. Através da janela, insisto em esperar até que você venha – quebrando a virgindade da rua vazia e molhada, gritando meu nome e correndo com passos largos em direção ao portão, ainda fechado. Só posso tocar o que o vento e o tempo não levaram. Ainda chove. As luzes de mercúrio velam o rito da solidão do asfalto e alcançam o palco da sua ausência em mim – nele atuo sem máscaras à sua espera. Neste quarto vazio a luz negra do abajur me assedia – como uma cigana sem identidade pronta a me lançar no destino. Inevitável é a dor – o desassossego. Desfaço-me em cheiro que necessita do teu cheiro – em carne que necessita do calor da tua carne, do teu suor em mim reinventando verbos e encerrando o tempo em nós.
Cada vez que você não vem, é o tempo necessário para a morte recolher um pouco de mim – fragmentos envelhecidos – esquecidos na conjugação do verbo “esperar”. Mas morrer não é o fim, é um constante nascer que o enredo do tempo recolhe de mim e deposita nos teus sonhos.
Meu discurso: preciso que termines dentro de mim.

Rodrigo Rudi *



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(* letrado do último período de Letras, maluco, estagiário e pensando que é gente).