quarta-feira, 3 de março de 2010

Entre rios e margens: você.




A vida está escondida na alma. Tenho a nítida impressão que é dentro da essência de alguém que podemos tocá-la de forma límpida e transparente. Amores e lições.
São bem poucas as pessoas que são capazes acender as luzes do coração da gente - o máximo que ocorre são "esbarrões" nas frestas que o cotidiano permite acontecer; vento silencioso que não causa alarde e nem traz acréscimo de vida.
Há outras pessoas que chegam de mansinho, transfiguradas no dom que lhe é peculiar e vai construindo terceiras margens dentro do nosso peito.

No grande remar que é a minha vida, tive a honra de encontrar alguém que marcou a minha vida de forma certeira. Começando a partir de várias classes gramaticais - substantivos que nomearam a minha nova vida, adjetivos que me fizeram reerguer a partir do que eu possuía de melhor, num momento de profundo calvário na minha vida...

No meio do rio, eu a encontrei. Moça das palavras silenciosas, do gesto terno, do amor doado por meio dos vastos sorrisos sinceros. Moça de Pietá - com todos os seus sofrimentos, pôde me segurar nos braços me devolvendo o dom da vida no abismo do silêncio e das saudades ancoradas.

Como um rio passa e o barco segue, assim fomos seguindo. Em alguns momentos eu não a via mais parto de mim, mas dentro das salas acesas da minha alma. Fez da palavra uma ponte para me visitar e nunca mais deixou de me fazer companhia.
Embora a distância concreta dificulte o nosso carinho constante, eu a encontro diariamente nos versos e reversos da mais viva poesia. Ela não passou. Apenas se transfigurou em poemas para permanecer sempre ao meu lado.

Depois de crescido, posso ver o quanto dela existe dentro de mim. E prossigo a remar e a recolher os pequenos bilhetes de amor que ela insistiu em deixar em mim, para que me sustentassem ao longo de toda travessia.
O seu amor e carinho se escondem por todos os cantos, e constantemente doam eternidade ao temporário em mim.

A vida é generosa e derrama no ir do meu grande rio, bem aqui, no silêncio dessa tarde chuvosa os ensinamentos mais raros que alguém pode deixar no outro por amor. Talvez você nunca soube que protagonizava tudo isso. Me pego a olhar as tuas fotos e busco revelá-la nessa descrição simples. Será o meu texto a revelação da tua grandeza ou a tua vida a revelação do motivo para eu persistir?

O que sei é que existe uma redenção no tempo. Broto miúdo de felicidade que, descobrindo uma fresta entre as nuvens de minha vida, quase sempre vem iluminá-la. O texto e o seu contexto, preceito hermenêutico que dilata o horizonte e o plenifica de sentido. Como Clarice L. dizia: "Há palavras que estão por detrás das palavras."

Em você, Roberta, reconheço a poética da existência. O reparo que um dia você soube deixar no meu caderno deixou consequência na alma. Eu e você. Cumplicidade absoluta e plena. Eu enrolando as dores e você enrolando as palavras, garimpando as semânticas nas margens necessárias e me ensinando a ser mais gente com o seu sabor de vida.

Já dizia o poeta: "Literatura é multiplicação de vida". E por entre os remos, um livro na mão, no meio desse grande rio, envolto de tantas margens, você é o mundo inteiro no pequeno espaço do meu existir.

Obrigado e parabéns!

Rodrigo .

2 comentários:

Roberta disse...

Ah, moço, moço... Isso não se faz...
Chorei tanto!!! Lindo demais, demais!
Obrigada, que Deus o abençoe para sempre escrever essas gotas de bálsamo.

Anônimo disse...

Rodrigo que declaração mais lindaa!Se eu fiquei sem palavras e sem ar ao ler esse texto maravilhoso,imagina a homenageada?!
Parabéns pra Roberta e pra vc.
@jussararesende