
Ele estava na mesa 62. Saíra do trabalho com o peito suado e eufórico para tomar um vinho, respirar aquela uva que sofrera tanto para dar sabor à sua noite, ouvir Jazz enquanto suas mãos percorressem a taça nua e fria junto ao seus lábios de homem-silêncio. Toda sexta-feira ele cumprira o mesmo ritual - ainda que as pessoas fossem as mesmas e a mesa de madeira preta, o acompanhasse em suas angústias de homem contemporâneo.
A cena era a mesma: acordes ao fundo do bar, e a sua alma dormindo no tédio. Vez em quando, alguns olhares novos surgiam, mas logo desapareciam entre a fumaça dos charutos franceses que os moços degustavam. Enquanto a fumaça dançava, aos poucos e de forma sensual, ela morria em questão de segundos, para assim, ser sepultada na pele e na roupa dos que choravam a vida.
Ele colecionara silêncios e pagava a conta. Quando os ponteiros marcassem duas horas da manhã, pegaria um táxi até a Rua Leblon, entraria em seu apartamento, retiraria a gravata e cairia na cama, sobre os pêlos do peito fartos de tanto calor, e assim descansava o corpo, vencido sob a pressão da temporalidade.
Na semana seguinte, cumprira o mesmo trajeto. Lá estava ele na mesa 62 colecionando ausências, beijando o melhor vinho e aliviando a fome de poder estar vivo no coração de alguma mulher.
Afastou a cadeira, repousou o copo frio sobre a mesa, e dirigiu-se ao banheiro entre as sombras e a escassez da luz que pairava sobre aquele mesmo bar. Quando voltou, notou que ao lado, na mesa 63, havia uma mulher bem vestida, acompanhada de Flaubert e profundamente provocante. Cabelos macios que ao vento dançavam envergonhadamente, e mãos delicadas a erguer uma taça do melhor licor que a casa possuía. Enquanto isso, um verso escapava dos seus lábios manchados de vermelho; ela fazia amor com a poesia que exalava daquele pequeno livro, "Madame Bovary", tão embalada por suas mãos brancas e delicadas de mulher...

Algo nela não o deixara em paz. As outras que passara sobre ele, eram notáveis, mas a mulher da mesa 63 era irreversível - a vida, a pequena porção servida no altar da minha mesa sempre posta para o amor chegar. Ela não precisaria de macho, mas de homem. A partir daquele momento, enquanto a contemplava, ela era motivo de celebração dentro de mim. E eu, o sacerdote do tempo, vestido com um túnica barroca, vermelha, cheirando à mulher amada, presidia o grande mistério do amor inesperado.
Um andar suspeito, um malefício feito, um batom de mulher atrevida. A noite tinha cheiro de felicidade. A vida segregada em solidão, a esperança vencida que o tempo resolveu romper. O mundo ficou mais estreito depois que ela resolvera tocar o livro, sem perceber que estaria me alcançando com seus dedos finos e decorados com um belo esmalte vermelho.
A mulher de traços finos e batom vermelho, era a personagem perfeita, pronta para atuar no meu enredo sempre trágico.
Ao vê-la bem perto de mim, amanheci, sem precisar adiantar o relógio e nem mesmo chegar em casa.
Batom vermelho sempre me pareceu vulgaridade, coisa que só fica bem na boca de mulher ordinária - mas o dela ordenou o meu sentimento e me fez ressurgir de mim mesmo.
Aos poucos, num suave movimento de homem surpreendido pela semântica da cor tão fatal, fui saindo de mim e me entregando aos encantos daquele olhar. Amor embalado, pronto para o consumo. E, naquele instante, enquanto eu a admirava, levaria para casa a primeira lição: coração de homem que não manda sangue para a ação dos braços não transforma o mundo.
O devaneio fora cortado pelo celular anunciado a ligação do meu taxista: - "Estou passando aí para te pegar." disse o velho companheiro. E ao sorrir, respondi: "O amor já me pegou e usa batom cor de sangue."
Eu era um homem feliz naquela hora estreita da vida. A pobreza do meu tecido de homem cansado, pôde ser socorrida com a arte dos bordados em vermelho, que só aquela mulher possuía. Era o amor brotando, com as ramas que tanto desejei.

As minhas ausências me deixavam sempre partir, mas naquela noite seria diferente. E foi.
Um comentário:
Excelente!!! Grande texto, muito bem escrito, cheio de frases muito bem arquitetadas... Adorei! ;o)
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