
Lá em Minas Gerais há uma expressão que diz: "Olhar pela greta da janela". Gretas são frestas. Pequeno espaço conceitual que divide aquele que espia e o que está sendo espiado, olhado, encontrado. Vezenquando eu ouvia isso em casa: "Filho, olha pela fresta da porta e vê quem está chamando..." O recado era claro: identifique primeiro quem é, depois, abra.
Minha gente, na vida é assim. Passamos o tempo inteiro pela experiência do limite. Frestas são limites que nos impossibilitam encontrar o outro de maneira completa. Posso espiar, sondar, consultar o que é preciso ser visto, mas enquanto eu estiver do lado de cá, o que se está além, não pode sentir o meu toque. E talvez, nem a minha presença.
Na vida passamos diariamente pelo mérito de olhar o que se passa distante de nós. Ver pela fresta é mais fácil. Não me compromete. E a experiência que poderia nos ensinar sobre limites e possibilidades, acaba nos aprisionando e passamos a vida toda a espiá-la.
Olhar apenas não é o mesmo que está inserido na vida. O olhar de consulta não garante a vivência a partir do que se vê. O primordial é dar os passos.
Conheço pessoas que passaram o tempo todo apenas olhando a vida passar. Pessoas que se acostumaram a olhares pequenos. Gente metade. Que sacrificaram a própria vida e sobreviveram de pequenos restos que era possível colher daqueles que tocavam a vida no cotidiano. Essa pessoa pode ser eu. Também pode ser você. Eu não sei! A única certeza que trago é que ninguém pode ser feliz sem a experiência de romper com as frestas. Viver por meio delas é aceitar rastejar aos pés do possível, mas não prová-lo.
Todo ensinamento sempre concede uma passagem de voo. As frestas, também. Quando se colhe o alimento para a alma, a fresta se torna galho para firmar o voo dos pássaros. Têm reclamado da vida? De que lado você está?
Ouso hoje em mudar o ditado: "Filho, saia da greta e vai abraçar a vida que te espera." O recado que transmito a você, primeiro passa por mim. Lembre-se: frestas são limites que devem nos impulsionar a compreendermos o valor ilimitado do amor.
Frestas não são casas. São passagens.
4 comentários:
ótimo texto. as frestas são seguras, mas devemos abrir a porta e saírmos de casa. buscarmos o mundo e a felicidade. beijo, lindo
A distância entre nós, atrás das frestas, e àquele que está do lado de fora é o que mantém, alguns, seguros. Nessa distância pode-se observar o que nos convém no outro, e o que não. As frestas são armaduras para o ego. E 'muita gente' perde 'muita gente' nessa pequena distância entre a porta e o lado de fora.
O seu blog tá lindo demais.
Mas você sumiu do meu! :(
Te amo, sempre.
Somos amigos a pouco tempo e virtualmente, mas já deu para perceber questões legais que vc pensa e q em alguns pontos me identifico tb. Ao ler esse texto estou refletindo muito sobre mim, estou indo dormir pensando nele.
A fresta te dá uma mediocre segurança, e desse tipo de segurança q devemos ter medo.
Mega Abraço Rod.
Ass: Felipe
Encantador. E inquietante. Às vezes tenho a sensação de estar espiando atrás de frestas, e sinto o vazio que isso causa. Obrigada por encantar e inquietar.
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