quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Tremor interior.



Há tremores em mim. Há tremores diante da ausência que o outro me causa. No entanto, preciso estar em silêncio para sentí-los. Para cada pessoa a sua manifestação é particular. Alguns se sentem abalados pelo namorado que se foi, a mãe pelo filho que perdera, a esposa pelo marido que descobriu o cheiro da morena, o filho que viu o pai construir um barco e mirar uma terceira margem. Os tremores são diversos, e as sensações de quem o sente também.
Todo processo de vida passa pelo fio da preparação ao trágico - ainda que não seja nítido em nós.

Existe perda a todo tempo. Se ganha, perdendo. A criança que deixa o calor e proteção contínua do ventre da mãe, sendo rompida com o nascimento; o marido que experimenta a ausência amorosa da esposa quando a rotina é mais forte; a pipa que antes gigante nas mãos delicadas do menino, hoje é banal e pequena diante do olhar rápido do homem engravatado que nem mais olha para o céu.

Eu não sei qual é o seu tremor. O que sei é que ele vêm. Não têm hora e nem data certa. São tremores que podem derrubar o que é máscara em você. O que é superficial em mim. E desabar o que não estiver solidificado no amor.

Recordo-me de alguns tremores que vivi em 2009. Depois do susto, da precariedade do momento, da confusão mental, do medo constante, da tristeza à porta, percebi que ainda restara a decisão de sua última ação em mim: juntar o que em mim não estava firme e reforçá-los com um outro jeito de olhar o momento presente ou me entregar à lamúria. Escolhi a primeira. Só posso me enraizar a partir do amor decidido. Tremor no interior do coração humano é convite para refletirmos o que está precisando de base firme em nós.

Ter essa concepção é tarefa diária. É colcha de retalhos que só existe depois de um tempo árduo da tecelã. É juntar os pedaços, é passar a melhor costura, é compreender as diferenças das cores para a perfeição final. É uma aula de sociologia.
O mundo anda tremendo. E o seu interior? Quais são os abalos que constantemente o despertam para o melhor?

Drª Zilda Arns sofreu, com a perda da filha, um grande tremor que a despertou para a solidariedade. Quais são os tremores que precisam acontecer em nossas vidas para despertarmos para o amor?

Parte do mundo tremeu e levou consigo vidas enraizadas na missão do amor. Homens e mulheres que o tremor nunca poderá apagar. Serão mais que memórias. Viverão na condição de ressuscitados por meio dos gestos de amor que ensinaram àqueles que continuarão o semear.

Podemos até viver com as marcas da tragédia. Mas elas nunca poderão nos impedir de reconstruírmos o melhor que trazemos em si.


A minha prece e o meu silêncio.
Rodrigo

3 comentários:

cado selbach disse...

Rodrigo... teu texto é de uma profunda delicadeza. ele circula em torno de um tema árido com tanta leveza, que aos poucos vamos estabelecendo conexões entre as imagens, e sendo soterrados pela angústia que as últimas tragédias. em toda sua esmagadora concretude e conotação simbólica, acionam em cada um de nós. profundidade e agilidade. que bacana. legal ver gente tão jovem ensinando quem antes achava que já tinha aprendido. ah... a página está linda... poesia e estética. e pelo entredito sobre a alma do escritor em seu escrito, muita ética.

Anônimo disse...

Lindas e sábias palavras.Parabéns Rodrigo,você escreve muito bem.O primeiro comentário já diz todo o resto.
Jussara Resende

Diana disse...

Tremores, realmente foram muitos em 2009. Mas, por mais dolorosos que sejam ele tem um papel de ferida na nossa pele que nos faz lembrar que não somos imortais e nem tão fracos