
Quando as pessoas se ausentam da nossa vida é que descobrimos o tamanho que elas ocupam em nós. Era um dia de sol, folhas dançando ao vento, crianças correndo na rua, mas a minha casa no calvário com o meu irmão morrendo. Me recordo como se fosse hoje ... o sol a brilhar, o movimento em casa esperando a ambulância chegar, e ele ali, deitado, ancorado nas dores, num terço branco que o envolvia nos braços e com um olhar sereno de que mesmo na dor a vida tem o seu valor. Me ofereceu chocolate que estava na geladeira, e a sorrir, me olhava. Ele foi um herói não por ter me oferecido chocolate, mas por ter colocado o sorriso acima da dor. Hoje o que eu mais queria era ser forte como ele. A minha dor é bem menor, e mesmo assim o sorriso não a sobrepõe. Sou fraco.
Naquele dia queria apenas amá-lo no silêncio. A única coisa que fiz foi beijá-lo no ombro enquanto ele era levado escorado pelo meu pai. Já não aguentava andar. Essa fora a última vez que tive com ele. Hoje fico pensando no que eu poderia ter dito e não disse ... da oportunidade que eu tive de dizer o quanto ele era especial para mim e eu não o fiz, talvez por imaturidade ou atitude própria de um adolescente comovido com a dor do irmão.
Se eu pudesse voltar no tempo e abraça-lo forte, eu o faria. Ele me faz muito falta. O que tenho vivido por esses dias me recorda o mesmo ensinamento ... ter alguém especial ao meu lado e eu me deixar agir pelo medo - medo que me paralisou e feriu o outro.
No fundo, eu tinha esperança que meu irmão voltasse. Aí faríamos festa, andaríamos de bicileta e soltaríamos pipa ... Mas ele não voltou. Fiquei com a dor da saudade e o desejo de um dia reencontrá-lo.
Vivendo uma grande dor por esses dias, me recordo do quanto é necessário deixar o medo de lado e lançar ao que o coração convida. Por ser fraco, firo e por ser humano corro o grande risco de perder mais uma pessoa especial da minha vida. Posso ser fraco, mas Deus não me retirou a capacidade de amá-lo e o desejo de ser um Rodrigo, melhor.
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