sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Eu, nas linhas de uma carta.


Que a celebração da minha existência seja celebrada no amor e pelo amor. Sou humano e com a minha humanidade sou limitado. Homem que tomou o seu barco, o construiu com madeira forte, madeira que resiste ao tempo e aos ensinamentos. Madeira que suporta tempestades, que não racha ao ser envolta pelo primeiro vento. Sou homem que decidiu entrar no rio sem medo do que possa encontrar na terceira margem - é ela quem quero. Querer pouco é ser pouco. Eu sempre quero mais. O "mais" necessário para a cada dia me moldar na delicadeza da vida e na sabedoria do silêncio. Que a minha celebração seja realizada dentro de mim. Lugar sagrado onde as palavras se acomodam de forma poética e preparam, sempre, uma nova forma de me ensinarem a não desistir do amor.

( carta verídica. )

À ...
Primeiramente, quero agradecer pela disponibilidade em acolher em mim aquilo que é mais sagrado: o amor. Me sinto lisonjeado por tê-la em minha vida. E admirá-la em cada gesto. E respeitá-la. E confiar em suas mãos um pedaço da minha vida, ainda que doída. Como diria Caio Fernando Abreu : "Quem diria que viver ia dar nisso?"

Acredito na vida como estação. Lugar onde as pessoas chegam, nos olham e são capazes de modificar a nossa vida com a primeira presença. Algumas passam a vida inteira do nosso lado, mas não modificam nenhum sentimento. Há outras que nos arrebatam com o primeiro olhar. Foi assim que um dia ele modificou a minha vida: encontrando comigo e lapidando em mim os diamantes até então não tocados por nenhuma outra pessoa.

Só que a vida segue. As pessoas também. Num determinado momento eu tive que ser forte o suficiente para compreender que eu precisava seguir sem ele. Paguei o preço pela opção de vida - era preciso optar pela vida e ressuscitar-me da ausência que ele causou ao passar por mim. Inaugurou-se o tempo de inverno em mim, tempo em que a árvore vive para dentro e, eu precisei viver assim.

Ele deixou de morar diante dos meus olhos e do cheiro, para estar entre os meus textos, os meus sonhos, as minhas lembranças, as dores e os soluços no travesseiro .

Recordo-me do pai na Terceira Margem de Guimarães, o Rosa.
Não me esqueço do dia em que a canoa ficou pronta ... Eu queria era ir junto com ele : "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" ... Mas ele apenas ficou em silêncio. Demorei como o filho da história para compreender que ele estava no meio do rio e cada dia mais adentro ...

Cumpri o mesmo ritual que o filho,
todos os dias chegava na beira do rio, oferecendo os meus sentimentos, os meus abraços mas ele não acenava.
Eu ficava imaginando onde ele estava, o que vestia, onde ia, o que comia... "Não adoecia?" O que eu queria, era cuidar dele.
Eu imaginava o * em todos os momentos da minha vida!
"... Assim como, no agasalho da noite, no desamparo das noites de muita chuva, fria, forte..." Chamei tanto pelo nome dele, não como pessoas próximas a mim, como em Gumarães, mas sozinho, o que era mais doído não ter com quem partilhar o peso da dor. "A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. (...) nós todos aí choramos, abraçados".

O meu tempo sem esse homem também foi assim ... têm sido assim, feito de esperas.
O que virá? Eu também não sei.
Só não quero ser covarde desistindo de amá-lo. Ainda que o seu retorno demore ou não aconteça .
O que trago como ensinamento não foi o dia da partida, mas o que ele deixou inacabo em mim .