segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A corda que me acorda.



O Círio de Nazaré é uma das festas mais comoventes do povo de Belém do Pará. Festividade que arrasta multidões às ruas e, assim, celebram o Cristo que vem no colo de Nossa Senhora de Nazaré, rodeada por uma longa CORDA. Agarrados a ela, vão os devotos, com impressionantes atitudes de sacrifício e de fé.

Enquanto eu via o povo a segurar firme a corda, quase invisível em meio a multidão, percebia dentro de mim que enquanto ela desaparecia naquele mar de gente, ela aparecia dentro da minha alma. Forma bonita de acreditar que o bem mora dentro de nós. E que basta um toque, uma descoberta precisa, um pouco de vontade para compreeender o interior, como lugar precioso que Deus tem como predileção para poetizar. E vendo o Círio, Deus poetizou em mim.

Fiquei a pensar na Corda que cotidianamente a Vida transpassa em mim. Ainda que eu tenha todas as razões para sofrer, eu não posso ter razão alguma para desistir. A corda é Deus, e Deus de alguma maneira, mora dentro de mim.

Não sei qual é o vento que te faz cair. Não sei qual é a sala escura que você tem vivido os seus dias, com a dança fria do vento acendiando as gotas de chuva lá fora, tudo solidão. O que sei é que essa corda existe dentro de você. E talvez seja necessário enfrentar uma multidão de medos, traumas e dores para que você chegue até ela. O que a Vida quer de todos nós, é coragem - não para enfrentar o mundo, mas para enfrentar os avessos que possuimos.

A multidão pode ser o cansaço, as dores em coro na alma, o abandono sentado à beira da sua essência, as cinzas que não param de cair, tirando as poucas cores que ainda há em você... ou aquela que está guardada em alguma curva da sua alma e que você a vê de longe, sem ter a coragem de mudar o caminho.

A multidão um dia foi a pedra no meio do caminho para Drummond. E de obstáculo, se tornou caminho para a poesia. Hoje, a pedra que mais pesa, pode ser matéria de aprendizado e um dia, recordação de vitória.

Recomeçar - é mais que uma palavra. E mais que um verbo, é a trajetória que hoje temos diante dos olhos. Não desista de você. Não desista daquele que você ama. Não desista da vida. Ainda que em meio a tantas multidões que te sufocam, mantenham os olhos fixos na essência boa que Deus um dia plantou em você. Descobrí-la, só você pode fazer.

Agora é noite aqui, mas falo de manhã. Agora é silêncio, mas falo de ressurreição.

O Círio me fez enxergar, a corda em forma de bilhete, que um dia Deus esqueceu de propósito em mim, para que eu unindo o artigo definido "a" ao substantivo "corda", descobrisse a mensagem : "Acorda". E assim, ressuscitasse mais uma vez ao amanhecer.

2 comentários:

Fabrício Penitente disse...

É Rodrigo, forte sua colocação entre "a corda" e "acorda".

Como lhe disse em outra oportunidade, você tem o dom de escrever o que a alma realmente escuta. Suas palavras são palavras do Divino que ecoam até os dias de hoje.

Deus precisa de pessoas assim, que não têm medo de ser o que é, de falar o que pensa, em meio a tantas exigências sociais.

Como disse Papa João Paulo II: "Santos de calça jeans".

Vejo na sua colocação, que realmente preciso "acordar" para segurar "a corda" junto com os que estão ao meu lado; junto com a Mãe que carrega em seus braços Aquele que nos salvou e nos salva a cada instante.

Rendo graças a Deus por nos presentear com pessoas como você, que não são apenas um "trem" que passa em nossa vida, mas uma "estação" que veio para ficar.

Estarei em eterna oração por você, para que você possa continuar a infundir alegria, unção, cultura e bondade para o mundo inteiro.

Saiba que, com suas colocações, aprendi a ser "a corda" e conseqüentemente "acordar" para a vida.

Deus te abençoe e te guarde por toda a eternidade.

Abraços fraternos e eternos.

Do seu novo admirador e amigo na fé.

Fabrício Penitente
Colatina-ES

Anônimo disse...

Tem um texto que eu gostava muito de ler e que se chama "a-cor-dar". Fala sobre dar cor. Colorir os dias. Que cada um tem as tintas, e pode fazer dos seus dias os mais coloridos da face da Terra. E termina assim: "Dê a você a oportunidade de "a-cor-dar" todos os dias e compartilhar com os outros o que Deus nos dá de melhor:
O privilégio de fazer os outros felizes!"

Acho que encontrei teu blog na comunidade do Caio F. E temos um amigo em comum, o gentil, atencioso, carinhoso, Hamilton.

E queria dizer que "futilidades, joguinhos de poder, tentativas previsíveis de sedução e conquista, vítimas, veneninhos, pobreza de espírito, mentiras, falsa modéstia, omissões, dispersão, tédio e insistência", estão na moda. Infelizmente.