
Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.Marina Colasanti.
Fui surpreendido por um grande amigo com o conto: "A moça tecelã". Não me contive quando comecei a saborear as primeiras linhas desse texto. Cada palavra acordava dentro de mim o que eu eu acabara de viver nos últimos meses. Vida que se cumpriu com cores e novelos diversos. Vida que se firmou com suas cores em tons amarelados e com novelos cor de cinzas. Quando a gente ama é assim. Preparamos o melhor tear, escolhemos as melhores cores, ensaiamos os melhores tons e, assim, tecemos o grande tecido que nos protegerá do frio nas noites em que o ar der as mãos para o movimento e assim dançarem embrigados ventando ao tempo.
Vejo-me como um moço tecelão. Escolhendo com sabedoria as melhores cores, exigindo o melhor tear e subindo o mais alto que posso alcançar em mim.
Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.
Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.
Fui tecendo os fios que saiam do meu peito e depositando no amor o que era propício para não sentir frio e nem a ausência de cores que alegrariam a minha alma. Depois de um tempo, me senti na necessidade de parar o grande tecido e recomeçá-lo. Eu já não era feliz tecendo a fantasia. Eu precisava era tecer a realidade.
E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.
Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.
Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.
Eu desteci os projetos feitos, a ousadia premiada, a confiança cega e parei de sentir frio quando pecebi que tecia para o outro, além de mim, e tudo o que saía do meu tecer era precioso demais para ser abrigado em potes de barro. É como depositar sonhos num pote pequeno demais que não suportaria tamanha responsabilidade e, assim, racharia em cacos ou esnobaria como supérfluo o que ele nunca conhecera no reino da mentira. É que boa intenção só funciona quando a parte de lá é possuidora dessas virtudes.
Amor só funciona quando o tecido cobre para aquecer e descobre para revelar. Mentiras não suportariam tal artesanato.
A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.
Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.
Em mãos escolho a linha mais branda, e me passo devagar entre os fios que plenos de luz, me levam à essência primeira, o mesmo lugar que teceu-me nas linhas do caráter e me leva a ser sempre, o moço tecelão - tecendo virtudes e combinando as cores do amor com as linhas da verdade.
Quem usa os fios da verdade, terá sempre o dom de recomeçá-los em novos corações. Mas quem usa os fios da mentira, se tornarão prisioneiros em seus próprios teares.

Qual é o tecido que precisa ser desfeito para você voltar a ser feliz? Mais vale desfazê-lo com dor, do que viver sem amor.
Rodrigo.
Um comentário:
ja li algumas vezes e nao sei o q dizer... um dos meus textos favoritos q vc ja escreveu. desconstruir é doloroso, certamente. mas sempre há chance para desfazer um pouco, por causa de um ponto errado na trama... ou entao desfazer tudo e recomeçar algo novo, diferente. sempre há opções. c'est la vie.
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