
Eram 9h15 da manhã, quando recebi a notícia: "Seu irmão está morto!". Aquelas palavras soaram como uma agressão, como gesto de desfeita que contraria o corpo e suas funções, a ponto de imobilizar por inteiro uma estrutura humana que até então sorria, andava e estava feliz. A morte tem o poder de imobilizar os corpos. Imobiliza quem vai e imobiliza quem fica. Tinha diante de mim uma espera, mas o coração não desejava esperar, somente correr para algum lugar onde ali eu acordasse e visse que seria um pesadelo, apenas. Queria fixar-se nos acontecimentos que antecederam aquela notícia. Queria prender-se nas certezas de outrora, no tempo em que os olhos verdes ainda brilhavam e a vontade de viver, jeito de sorrir revelava sonhos de viver e ser feliz, embora a dor insistisse em ficar ali, no corpo do meu irmão. A voz já não existe mais, ancorou-se nas ramagens distantes, lá onde a razão não prepondera e onde os conceitos não mais significam. Restou-me a lembrança de sua única imagem, sorrindo e esse sorriso sendo embalado por uma ambulância fria e com a cor das asas dos anjos. Uma alegria sincera, um jeito que lhe era peculiar, comunicando que iria mas voltaria e que na geladeira restava ainda alguns chocolates. Um beijo, foi a última forma de dizer que o amava e embora sendo apenas o irmão mais novo, eu estaria torcendo pra ele sair dessa. Nada disso, naquele momento, era real. Tampouco a morte, afinal uma realidade dessas não cai de maneira definitiva sobre o coração. Ela se dá aos poucos, minuto a minuto, de maneira que se torna obsessiva, redundante, excessiva. Abria os olhos e repetia: "não existe mais, se foi, acabou". Fechava os olhos e continuava repetindo a mesma coisa. Depois da longa espera, pude contemplar o seu corpo imóvel. Naquele momento, a notícia se concretizou diante dos meus olhos. As marcas do tratamento estavam ali, diante do meu silêncio e da minha total imcapacidade de reverter os fatos. Para alguém que sempre foi tão vivo, seja para sofrer ou para ser feliz, aquela imobilidade certamente seria desconcertante. Por isso não pude ouvir outra coisa! Os dias que se seguiram foram os piores já provados até o dia de hoje. Ver minha mãe lavando suas roupas, recolhendo os objetos que ele tinha com tanto carinho, os cds, os tênis, camisas, livros e vendo as lágrimas e o silêncio de minha mãe. Era uma aguda experiência de despreendimento e perda. Vasculhei com meu jeito de criança as suas coisas de jovem com seus 17 anos com o intuito de me consolar com seus resquícios, e encontrei detalhes de uma história que um dia você havia me confessado: o seu amor proibido na escola, a sua vontade de chegar ao vestibular, os seus amigos tão queridos por ti, as discussões com a mamãe... Tudo isso estava sob o toque mágico do encerramento e da finalização. O epílogo da sua existência havia chegado tão cedo e a eternidade já estava lhe sorrindo, desejando boas vindas!Algum tempo já se passou. Para mim, é claro. Você já está fora do tempo e não mais vive as restrições que ele nos impõe. (...) Às vezes, quando a saudade aperta, eu repito os mesmos versos que escrevi no meu coração no dia de sua morte, enquanto contemplava-te dormindo serenamente: "Leva o meu coração que eu fico com o seu. Eternamente. Até o dia em que a vida nos reabraçar." Fique com Deus, meu irmão Fabrício. Dê um beijo nele por mim!
* Texto reescrito em 2004.
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