
Quando criança gostava de deitar no chão e ficar olhando as estrelas. Eu sempre fazia essa ponte imaginária entre o meu coração e a diversidade de estrelas que haviam no céu naquela noite. Meu sonho era ser astrônomo, embora eu não gostasse de física ou de cálculo algum. Era interessante deitar no chão, esquecer o meu ofício de menino solitário e descobrir em cada uma, um jeito simples de me sentir preenchido, acompanhado. As pessoas que eu mais amava, eram as pessoas que eu trazia personificada em cada estrela. Nada me acompanhara além daqueles que eu trazia no coração e a dança que a minha imaginação completava quando ao colo de alguma estrela me via. Eu nunca tive uma casa na árvore, mas eu tive o meu coração na infinitude do céu, na dimensão incansável do brilho das estrelas. Eu girava a minha cabeça lentamente e ao céu eu brincava de sentir. Nem uma bola me trouxera tamanho prazer! Era a arte de criança que eu trazia, por maior vontade que eu tivesse em contar prá mãe ou pro pai, eles diriam que isso era loucura. Não adentrariam à festa que acontecia quase todas as noites quando eu deitava na terra e era elevado ao céu. Porque existem verdades que são tocadas apenas por aqueles que a experimentam. O que eu não acredito talvez seja aquilo que eu não toquei com os meus sentidos. O amor é assim - acreditamos em sua existência quando somos tocados pelo brilho que ele proporciona. Eu era pequeno demais para entender as coisas da minha mãe, e ela grande demais para compreender os meus sabores de menino. O mais interessante é que a lua nunca me atraiu - eu odiava quando ela aparecia e tomava conta do céu. Bom era ligar os pontos do zodíaco, rir com as três marias e rezar no Cruzeiro do Sul. Recordo-me que um pouco mais crescido, bambino, ganhei uma agenda toda colorida e cheio de desenhos, curiosidades e envolto a tantas coisas havia uma tabela da chuva de meteoros. Eu marcava o dia e esperava que desse meia noite para eu ficar velando o céu. Às vezes demorava para que uma estrela cadente passasse - não podia piscar, era em fração de segundos que ela desfilava com sua calda reluzente. Se demorasse 50 minutos, por mais cansado que eu estivesse e impaciente, quando ela interrompia a normalidade do céu com sua agilidade e beleza, meu coração esquecia que eu havia esperado por tanto tempo e se ocupava em festejar a beleza do momento. A presença dela curava e me devolvia o entusiasmo perdido nos minutos de espera. A vida também é assim. Por mais longo que seja o tempo em que a dor permaneca em nós, por maior que seja o tempo em que a solidão anule nosssos sonhos, a presença de alguém que nos ama inaugura um novo ser em nós - um novo tempo e reestabelece a nossa alma. Por isso que às vezes é preciso esperar. Mesmo que haja a demora, o inesperado poderá imergir em nossa vida trazendo um novo sentido. Eu era tão pequeno pra entender essas coisas, e colocar em palavras. As incansáveis noites deitado no terraço de casa com os olhos fitados ao céu, e as longas esperas na calada da noite para ver uma estrela cadente riscar o céu foram ancoradas em algum lugar, algum quarto do meu coração e me gerido mais homem, mais humano para que hoje você pudesse ter a oportunidade de conhecer o que em palavras, o que em anos e anos sobrevivera na pauta dos mais secretos sentimentos. Não sou feito apenas de sonhos, mas de estrelas.
P.s: post de Jan/08.
2 comentários:
post antigo? fiquei com a impressão, no decorrer, que se encaixava perfeitamente no momento atual. Bom a gente se reler as vezes, se sentir atemporal. Abraços!
Também sou assim.
Releio minhas palavras sempre.
Vejo que muitas palavras jogadas ainda se encaixa em meus tempos.
http://www.pulchro.blogspot.com/
Postar um comentário