
O cheiro de mãe faz falta nos momentos de dores. Semana passada dentro do ônibus, lendo Adélia Prado, eu tentava me consolar da distância que havia entre eu e a minha casa. Enquanto eu era levado e cumpria o ritual do ônibus, reclinei a cabeça e tentava encontrar a minha mãe na poesia de Adélia ou em algum canto daquelas ruas de São Paulo, nas luzes acesas e nas janelas fechadas daqueles apartamentos que tomaram os lugares dos jardins. Lembro, eu chorei baixinho. Nas mãos a mochila cheia, e no coração a falta. No exato momento eu segurava nas mãos os seguintes versos:
"Quando eu tinha quinze anos minha mãe morreu. Foi o sofrimento mais lindo,
a verde vida num pasto tão bonito, eu belamente urrei,
bezerra sem sua mãe, apenas." Repetia esses versos e chorava.
Eu era menino sem destino, sozinho com toda sua formação acadêmica que nessas horas são leigas em salvar a vida, exposto a mendigar o abraço da mãe que talvez estivesse dormindo ou vendo TV em algum lugar da casa.
Necessitei ser olhado por minha mãe com olhos de amor, mas ela não estava ali.
Cruz pesada, noite fria, poesia nas mãos.
Saudade ancorada no peito de menino,
e prece silenciosa na boca.
Quando a falta é grande a alma tende a sepultar palavras.
Me senti menino machucado, ralado, cheio de terra nas mãos entre feridas. Ainda lia os versos: "Que bom é suar na tarde e gritar: mãe, cê tá aí, mãe?" Eu sabia que ela estava no mesmo lugar, e que a morte ainda não a levara. Mas eu também sabia que morte nem sempre é ausência definida, mas ausência declarada, ainda que numa noite no ônibus.
Eu apenas queria o direito de deitar no seu colo, e deixar que o seu olhar doce me restituísse como homem. Eu tava machucado demais para acender o lampião da alma e descobrir o valor que possuía - ação que ela sempre fez quando me viu longe de mim... ela vinha e me devolvia. E eu voltava a ser feliz de novo.
Naquela noite fria de São Paulo, eu descobri que eu também urrava no pasto social, sem a minha mãe por perto.
E foi assim que eu descobri, que minha mãe com seu jeito finito de ser mãe, revelava-me o amor com seu jeito infinito de ser poema em mim.
Rodrigo.
4 comentários:
"E foi assim que eu descobri, que minha mãe com seu jeito finito de ser mãe, revelava-me o amor com seu jeito infinito de ser poema em mim."
Não houve vez que você não soubesse arrematar um texto de maneira genial!
Abraços!
Depois do comentário acima, não resta muito o que dizer.
Só uma coincidência: minha mãe está viajando, longe, sem contato, e hoje no ônibus enquanto vinha para o trabalho, havia um poema na janela, não lembro do autor, mas falava sobre guardar a mãe na gaveta (uma foto...), de saudades, e sobre ver a morte de perto e saber que ela tem pressa. Senti esse mesmo aperto no peito.
Fiquei com saudade da minha mãe. Não que ela tenha morrido.
Moramos longe. Saudade das risadas dela. Do choro no momento que ela me vê chegando na casa dela.
Da Mãe que ela é.
http://pulchro.blogspot.com/
" E foi assim que eu descobri que minha mãe com seu jeito finito de ser mãe, revelava-me Deus com sei jeito infinito de ser mulher."
Mãe... presença femenina insubistituível!!!
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