
Hoje uma amiga me visitou. Fazia tempo que eu não a via. Sua chegada em minha casa foi extremamente de silêncio. As grandes verdades nascem do silêncio. As sementes também são assim - promulgam abismos e quando não há mais vento, nem o cantar dos quatro cantos, eis que ressurgem. Ouvi apenas os passos silênciosos e o meu nome veio embalado na caixa do vento, com um laço vital. Fiquei com aquela caixa nas mãos... não abri, não porque eu não tinha vontade, mas por estar tão embalado com a presença de alguém que um dia me ensinou a "ser" humano.
As nuvens riscavam a imensidão do céu, e o vento não parava de assediar o que encontrava pela frente. Enquanto ela me possuía na sala, a vida cumpria o papel de tecer o cotidiano, ali, dentro da sala e fora... O vento fizera amizade com a casa, e por hora brincava de ciranda ao redor do meu quintal, soprando segredos nas janelas - estes, nunca revelados.
Eu chorava em cada frase, em cada resposta de perguntas silenciosas e que um dia foram plantadas em algum lugar. A minha amiga trazia um sorriso na face e as marcas da vida nas mãos.
Me recordo do seu vestido.
Era tão lindo, e possuía um catavento que girava, girava cada vez que seu coração batia - sem ela me dizer, percebi que aquele catavento, reunia todos os batimentos da alma e era movido também pelos batimentos do meu: o vento era forte por dentro. Achei que ia voar, mas num momento ela me segurou pelas mãos firme e o vento foi me despindo com toda força... eu podia sentir suas mãos ásperas em mim - eu sentia frio, e chorava. O meu corpo havia sido arrebatado pelo olhar daquela mulher. O meu olhar era pequeno demais para alcançar os dois ângulos ... o de dentro onde eu estava e o de fora, onde meu corpo repousava quando recebeu aquela mulher. Não havia mais vestido branco, nem vento assediando as janelas fechadas em casa; tudo era imensidão e nascimento. Me restara apenas o vestido. Este que não era um vestido qualquer, era o vestido que minha mãe usava justamente no dia em que ela me acolheu como pietá e me devolveu em essência. Ela nunca foi médica, mas sempre curou as minhas maiores feridas. Em seguida, ouvia gritos de parto ecoando tão forte como se ouve a mãe quando perde o seu filho. Não eram gritos do catavento, eram dores promulgadas dentro de mim. No momento em que percebi que eu estava morrendo, foi que eu renasci. Eu havia perdido aquela caixa e adormecido nos pés daquela torre, com o girar do vento lá no alto velando por mim. Meus resquícios estavam ali, mas o que estava dentro da minha caixa era a minha essência. Eu não renasci no vento, apenas ganhei novas asas, e assim encerguei o cadeado aberto. Corri tanto, tanto, tanto que voltei a amar de novo. Era a vida sendo reinaugurada em mim. Ficaram os ecos do cadeado sendo aberto, este que não será fechado enquanto o poder do amor for maior em mim. As grandes verdades nascem do silêncio. Os grandes homens nascem de cadeados reabertos.
5 comentários:
Qauntas imagens, sensações e sentimentos há nesse texto. Lindo. Pesado também...
Abraços!!
nossa
eu quase pude me sentir em tua história
como se estivesse por lá
pairando e velando os corpos
belíssima dança com as palavras tens você
bjos
O mais lindo de tudo são tuas imagens. Me apaixono cada vez mais.
Moço, que texto é este ? Cheio de rodamoinhos e roda-gigantes, cheio de chico, de drummond e de paisagens perdidas... lindo, lindo. bj.sô.
Nossa ler suas coisas é algo que transmite muito coisa boa... continua postando essas palavras, pois são Músicas aos olhos de que ler.
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