quinta-feira, 6 de novembro de 2008

E agora, você?


Acordei para trabalhar e havia apenas a quinta-feira cumprindo o seu passar pela via da minha vida. Coloquei na mochila alguns livros e eles permaneceram dormindo e não causaram nenhum alarde na semântica do meu dia. Apenas um fugiu. Poesia reunida de Drummond. Partilhei com os meus pequenos de forma doce e poética a existência de um tal Drummond, nascido em Itabira, mas que poderia ter nascido em tantos outros lugares - era apenas um detalhe, mostrei coisas mais interessantes, como a pauta que Drummond usava para tecer de forma lírica a sua poesia, leve e marcante como as asas de uma borboleta.
Um dos poemas escolhido: José.

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
O poeta questionou de forma única o tipo de escolha que José faria diante de uma história ancorada na derrota. E agora, José?
Poeta que cumpriu o papel de colocar a vida diante de José e pedir resposta. Passado que passou e que deixou fragmentos de um agora necessário. Eu lírico que descreveu todo processo de perda que vivera José, não para mostrar o mal que havia feito, mas para acordá-lo. Dores paralisam. Fiquei pensando nas minhas. Fiquei pensando que esse José também pode ser o Rodrigo, o João, a Marta, a Gorete, e tantos outros nomes que abrigam seres humanos que se vêem no limite. Dores que nos retiram da superficialidade, que acalmam as ondas que insistem em batizar o nosso barco sem rumo e sem travessia.

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
... está sem paz, está sem amor, está sem o pai, a mãe ou aquele a quem sem ama... E agora, José? Rodrigo, Darlan, Marcos? ... Alguém já disse que a insistência das perguntas é para acordar José. "Diante do sofrimento, não temos o direito de dormir."
Acordou o José,
Me Acordou, e agora já não consigo dormir. São perguntas fortes em mim.
Acordei para ensinar, e quem saiu com a lição de casa foi eu.
Drummond me tirou da cadeira de professor e me colocou no banco de aluno. Só que a escola não era a que entrei pela manhã, é a que encontrei quando saí daqueles portões - a minha própria vida.
Insensibilidade nos faz perder na vida. Dureza também. José não sabia sofrer. E eu ainda tenho aprendido a lhe dar com a dores. O único caminho que havia para José trilhar, seria a volta para dentro de si mesmo. E é o mesmo caminho que a poesia de hoje me colocou - dentro de mim . Lugar preferido por aqueles que desejam voltar a viver, recomeçando.

Rodrigo .

2 comentários:

Anônimo disse...

Muito me ensinou a ousadia e a simplicidade drummondiana. A escola da vida é cheia de embaraços, mas há que ser frequentada docemente.
Ser duro/insensível é retroagir. Benditos sejam os que sentem mais. Sofrem mais, é verdade, mas têm a vida plena do sentir.

Beijocas, Ro!!!
Você sempre escrevendo maravilhosamente.
www.lizziepohlmann.com

: A Letreira disse...

Moço, mas que tanto escrito bom sai deste teu coração...