
Dor é sempre dor. Chega quando menos esperamos, na calada da noite, na ousadia do dia ou na quietude da tarde. Não importa o horário, nem o tempo, prevalecendo na casca do substantivo e causando novos rumos da vida dos humanos. Casa com janelas abertas, sol ensaiando ao vento os melhores sentidos, e a dor de mala batendo à porta. Não escolheu a casa do vizinho. Veio de longe, chegou no sol do meio dia e insiste em anunciar a sua presença no portão da alma. Existem dores que chegam, modificam a rotina da casa e ensinam ... Há outras que trazem dias, semanas, meses ou até anos de mofo - janelas fechadas, brinquedo esquecido na varanda, cartas no portão que fora abraçado pela ferrugem e elas fazendo de refém os que ali habitam. Há outras dores que levam embora em pouco tempo aqueles que ai moravam. Roubam seu rosto, sua paz e transformam os habitantes da casa em corpos vazios, a alma já não habita.
Dores são visitas que chegam sem avisar. Não telefonam, nem escrevem ... mas surpreendem. Dores que ensinam, amadurecem, matam ou enlouquecem quem as recebem. O maior medo que tenho é de avistá-la no portão da minha casa e deixar que ela me distancie do valor que possuo.
Dor mata quando não cuidada. Dor apaga sonhos, derrete faces, sangra almas e deposita todos os sonhos no cárcere do olhar - lá, onde será o único lugar que ainda restará algum brilho: são os sonhos aprisionados e morrendo aos poucos, ainda que pedindo socorro no silêncio.
Ninguém precisa sorrir quando a dor visitar, mas as pessoas não tem o direito de desistir da vida quando a dor chegar. Dores são como estações ... chegam, celebram a vida ou a morte em nós e deixa o legado de escolha: passei por aqui, deixando a escolha de continuarem ou de desistirem.
Hospedamos uma grande dor que chegou em 1994, se hospedou aqui por 3 anos e levou o corpo do meu irmão em 96.
Por que apenas o "corpo"? Porque foi uma dor que levara apenas o cárcere que ele habitava tantuando-o na minha alma, e o ressuscitando no coração do meu pai e o devolvendo no colo da minha mãe, de onde um dia ele surgiu. A única ação que a estação da dor jamais poderá fazer é retirar de dentro do coração aquilo que um dia o amor tocou. "Porque tudo aquilo que um dia o amor tocou, se eternizou em algum canto de nós."
Rodrigo .
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