sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Amor que ressuscita .


Era apenas mais uma mulher na fila para ser atendida pelo gerente do banco. Mulher de traços finos, aparentemente sorridente e morta por dentro. Há um mês ela havia sepultado seu único filho de 28 anos de idade, morto num acidente trágico de carro. Com poucas palavras confessou a dor de estar ali para encerrar uma conta bancária deixada por ele. O filho não comunicou que sairia naquele momento e foi.
Eu olhava para aquela mulher que eu nem sabia o nome e velava com ela o filho "aparentemente" morto no olhar e nas lágrimas retidas que ela segurava com as mãos no rosto. Eu me senti como João, o único seguidor de Jesus que ficou aos pés de cruz junto com Maria. As palavras cessam, e a dor acende o seu tecido fino no lampião da tragédia. Naquele momento a minha única vontade era retirar do coração, daquela mãe, o sentimento de pleno abandono e solidão a que se encontrava. O filho era único. O marido falecera quando ainda era jovem - teceu a vida e os sonhos ao lado do filho, vendo-o crescer, educando, se preocupando, não dormindo enquanto ele não chegasse em casa e tendo orgulho de vê-lo com seus 28 anos.
Eu não tive voz necessária nem consolo cabível na confissão dolorosa de uma mãe que havia sepultado o seu filho.
Ela dizia: "É um amor diferente. Não é igual ao amor de irmão, nem de marido ... é amor de mãe para fiho..." Eu chorei, ainda que na alma, chorei silenciosamente. Queria abraçá-la, aconhegá-la em meu peito e dizer baixinho: chora, chora mãe... eu vou te proteger por ele.
Espero que essa mulher, batizada nesse texto, como Senhora das Dores, seja forte para ressuscitar o próprio filho a cada dia dentro do coração e da alma.
Lágrima de mãe e saudade são orações capazes de retirá-lo de toda perda e fazê-lo reviver em seu ventre. Mães que perdem os filhos são capazes de ressuscitá-los pelo amor.
O filho que estava ali, externamente nessa vida passageira, agora ali, sacralizado no seio de uma mãe que esperará o amanhecer para encontrá-lo vivo N´ela. Eu não conheci o rapaz, mas te asseguro: ele não morreu. Sua presença é notável nos lábios e no olhar dessa mãe que o traz tão ninado na alma - ele se foi para muitos. Mas para ela, não! Essa mãe descobrirá dia-a-dia que o amor é mais forte que a morte ... e que a ausência do corpo não representa a ausência da existência.
Ele já não faz parte do tempo cronológico - se tornou atemporal no coração da mãe, que o levará em todos os lugares que passar, deixando rastros de ressureição com o seu testemunho de amor.
Ela começou hoje, a passar por mim, me trazendo o filho tão vivo no olhar e os ensinamentos tão silenciosos a me ofertar.
Compreendi o motivo dele não ter avisado que saíria ... de alguma forma ele voltaria, e voltou.
Estava ali a ressurgir sereno na confissão amorosa de sua mãe.

Rodrigo.

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