
O que me sustenta é a colheita que eu faço da vida. Revelações do cotidiano que se tornam frutos repletos de espinhos. Minhas mãos sangram aos recolhê-los e trazê-los ao peito - já não durmo sozinho, pois a vida recolhida descansa sobre o meu peito de menino. Existe um chão a ser pisado, uma história a ser contada e sempre um segredo a ser revelado quando se ama. Chove e esse pingo do lado de fora da janela me batiza por dentro, eu preciso renascer, ser lavado e levado ao lado seguro da vida - é lá que as pessoas são sem ter que representar algum papel ou ensaiar doses de uma vida utópica. Eu sou eu. Cheio de marcas e dores, mas pleno em sabores. Assim também são os frutos - marcados pela violência do campo ou pelas mãos ásperas do trabalhor que a ceifa. Porém permanentes em sua essência.
Tem gente que passa pela vida e quando se depara com os sofrimentos, se fecham ou se transformam em outra pessoa... Se tornam rudes, tristes e fecham qualquer janela que o sol seria capaz de entrar. Deixam de colher as flores em suas diversas cores e ignoram os frutos rasgados pela brutalidade dos acontecimentos, sem compreenderem que não importa a casca ferida, a essência mora no mais profundo de qualquer face dilacerada por alguma dor. Talvez o sofrimento não traga novos sonhos, mas ele é incapaz de retirar o que o amor depositou na alma. O medo da dor é muita das vezes o medo de descobrirmos quem realmente somos e qual é o nosso limite.
Gosto mesmo é de olhar pra quem já sofreu. São olhares que dispensam as palavras porque as perguntas e as respostas já foram vividas e experimentadas no seu devido tempo de plantio, tempestades e colheita do que sobrou. Quando cessam as palavras, nascem os olhares. Dor e ausências são matérias cotidianas. A alegria também. Projeto válido para quem deseja o fundo e não se contenta com a primeira conquista e nem pára no primeiro sofrimento. Aquilo de que foges hoje, amanhã terás de temer ainda mais.
Só quem tem amor à própria vida será capaz de semear sementes no campo que fora alagado e destruído pela tempestade. Não importa se ela destruiu o que havia sido plantado - o que importa é a terra fértil que continua ali, pronta para receber as novas sementes que germinarão vida, amanhã. A dor espalha a sujeira e confunde os sentimentos, mas a essência jamais poderá ser atingida. Somos eternamente férteis para o amor.
Rodrigo .
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