quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Humanamente herói.


Eu sou um herói que acorda cedo com medo de perder a hora... Sou um herói que pede o colo da mãe quando a dor é maior do que eu. Eu não sei voar, nem tenho asas e não possuo super poderes - sou um herói com uma bomba relógio que bate tum-tum dentro do peito. A cada batida preciso correr contra o tempo para amar. Não existe tempo para as amarguras, rancores desnecessários. O que existe é o apelo pela vida conjugada em seus diversos tempos verbais. Se eu feri alguém no passado, que eu seja herói para curar essa ferida no presente. Se eu não amei o necessário para mudar o mundo, que eu ame o suficiente para me tornar mais humano.
Eu sou um herói que gosta de bife e batata frita.
Um herói que demora no banho, mas um herói que não ultrapassa o limite do respeito e é ilimitado na forma de amar.
Se hoje eu sou um herói é porque eu vi um outro herói muita das vezes deixar o ovo frito no prato dizendo que não estava com fome porque aquele ovo, era o único e, mesmo com fome ele deixava para mim - nas curvas do cotidiano, na clareza das atitudes e na silenciosa forma de cuidar de mim, a vida teceu o meu pai e o chamou de herói.
A minha heroína lavava roupa no tanque, cozinhava aipim, fazia café e arrumava a minha mochila para eu ir à escola. Ela nunca vôou, mas possuia poderes de marcar a minha vida com amor... Poder este que eu não via nos heróis da tevê.
O mais bonito de reconhecer com esses meus 25 anos é que não sou um herói pronto - pois o único super poder que trago é a herança amorosa dos meus pais, chamada: o poder do amor. Com ele não posso voar, mas consigo ser atemporal na forma de reparar a insensibilidade das pessoas no mundo.
Qualquer forma de amor, cura. Eu não sei quais são os heróis que você teve em casa, nem quais os super poderes que sempre quis tê-lo para ser feliz. Acredito que mesmo no pouco, na falha, no cansaço, eles revelaram algum ato de heroísmo, não detonando os inimigos, mas te preservando da fome, comendo a farinha para deixar o pouco de feijão para você...
Qual tipo de herói você quer ser? Momentâneo ou eterno?
Têm pais que criam heróis fortes para competirem, mas ocos para amarem.
Já ouvi muita gente, comunguei de tantas teorias, admirei os grandes mestres, filosofei, invadi a terceira margem de Guimarães Rosa, chorei com Adélia Prado, me aventurei com Caio Fernando Abreu, mas AMAR eu só consegui aprender ao lado do meu pai e da minha mãe.
Hoje preciso ser mais ousado que Guimarães Rosa... A forma de heroísmo dos meus pais eu compreendi fazendo o exercício de enxergar na quarta margem, pois a terceira margem não foi suficiente para abrigar o amor que explodia cotidianamente nos gestos do meu pai e no sorriso de minha mãe.

Rodrigo .

5 comentários:

Roberta disse...

MARAVILHOSO! No 2. bimestre eu trabalho o tema "Heróis" com meus alunos, falando muito desse tipo de herói que vc tão bem descreve... Vou ler para eles seu texto, tá? Bjos!

Anônimo disse...

ADORO SEUS TEXTOS RODRIGO, SAO DE ENCHER A ALMA DE EMOCAO COMO SEMPRE!
EU TAMBEM TIVE O MESMO MODELO DE HEROIS NA FAMILIA QUE VC, SO NUNCA HAVIA VALORIZADO ISSO ATE ME VI SEM A PRESENCA DELES NA MINHA VIDA NO PERIODO EM QUE ESTIVE FORA DO PAIS.
HJ ENTENDO Q SE SOU O Q SOU E PENSO COMO EU PENSO EU DEVO TUDO A ELES QUE COM TANTO AMOR ME CRIARAM!
SEUS PAIS DEVEM SER MUITO ORGULHOSOS DE VC, AFINAL O Q ELES SEMEARAM ESTA DANDO MUITOS FRUTOS BONS!

E ISSO AI!

ABRACO!

Marcos no espaço. disse...

Com toda a certeza Rudi, são coisas assim que acontecem na maioria dos casos. Mas nós é que fazemos os heróis ou vilões. Não são só a influência de nossos pais. Com certeza, agora eu entendi o super herói que vc é. O Batman, que apesar de não ter uma superforça, sempre vencia pela inteligência todos os oponentes, e de certa forma se inspirou nos seus pais e no pai mordomo que o criou verdadeiramente como um filho.
Agora, só ta faltando um Robin pra vc ...

auhauhauahua..
bjs.

Cass disse...

vc escreve muito bem..

o texto é fantástico

Darlan disse...

Lindo, Rudi! Ah, muito mesmo!!


Abração!