domingo, 11 de maio de 2008

Protagonista e herói .


"A vida dói, mas é linda." Com essa afirmação que o Felipe encerrava os conceitos partilhados, a vida esmiuçada naquela mesa de bar. Até então eu só via o contrário, que também é verdade. Verdades soltas ... corações sensíveis ocupando o cenário da primeira cena da vida - feridas expostas, mas com o brilho do olhar tecendo a cura sobre cada uma delas.
Depois que saímos dali, as marcas de felicidade de descanso foram nítidas. Enquanto a gente dobrava as esquinas, por elas pisavam novos pés com um novo olhar sobre a vida ... a chuva ensaiou a dança para que ao cair sobre nós, não causasse alarde, mas deixasse apenas o necessário para que o frio nos unissem - enquanto a vida ressurgia em suas diversas formas na noite, eu e o Felipe recolhíamos os primeiros sentimentos.
Haviam carros, pessoas, bares e luzes acesas. Mas só existiam nós. As pessoas mais lindas usam o silêncio para chegar e as marcas para permanecerem.
O Felipe é a reunião de Drummond, a melodia de Bethania e a essência peneirada na fração da dor. Presença que me descansou sem ter que representar nada para que ele me amasse. Menino das cenas, homem do abraço.
Ao ouví-lo, me levantei do banco de minha alma só para colher estrelas - as devolviam a ele com o brilho do sorriso e o desconcerto da palavra.
Felipe é profeta na minha vida. É irmão que acumula as marcas para depois partilhá-lhas em sabedoria.
Homem que rasga o verbo e adjetiva a vida em suas novas fases. Menino que me embala com sua presença doce e põe um balão em minhas mãos... com ele posso voar.
Gosto de sua arte quando ela parte em cacos só para me oferecer o bom fruto que habita dentro. Ele não é um homem das aparências, elas passam ... O Felipe é o olhar da criança que abraça forte sua mãe porque encontra nela o porto seguro - é criança que libera a linha da pipa só para poder enfeitar o céu com sua beleza rara. É o homem das marcas necessárias. Não é como o vento que abraça e passa, mas é ar que preenche minha vitalidade com seu jeito peculiar de saber e ser quem ele é.
Menino travesso que lança a pedra de Drummond nas janelas da futilidade, só para vê-las em pedaços ao chão. Ele é maior!
Homem que confunde os verbos só para imperar o verbo amar em qualquer tempo verbal, porque descobriu que o amor é atemporal.
O Felipe é a contradição perante qualquer limite ao Ser e ao Amar.
É o anjo que se reveste de humano só para trazer paz ao coração daqueles que se achegam a ele.
É o semeador a espalhar vida em mim, é a chuva a regar com sua mansidão os terrenos mais secos e pedregosos do meu peito ... com ele adormeço e amanheço em flores.
Por onde quer que ele passe, a poesia se revela.
Calçadas que se enriquecem com os pedaços de amor e com as histórias ancoradas pelo vento em alguma fresta da calçada - ele passou e amou por aqui.
O Felipe é não que amadurece,
e sim que enaltece.
É o menino tingido pelo arco-íris,
molhado pela eternidade.
É o poema de Caio Fernando quando eu roubo os primeiros versos e os personifico nele:
"O meu dia só existe porque você faz parte dele".
É o tempo de meio silêncio de Drummond,
Homem de cinco sentidos em um só.
É sabor,
poeira
cena
que ressuscita os esquecidos e concede ao meu coração uma finita forma de continuar, e de ver na tela da sua própria vida a beleza que só ele possui, beleza esta que faz jorrar da cena da vida, águas que me lavarão do meu cansaço e da minha dor.
Com o Lipe eu volto à vida cada vez que o vejo como protagonista e herói da minha própria existência.
Sua amizade não me trouxe apenas ensinamentos,
ela me trouxe salvação.
O Felipe é porta fechada para a superficialidade,
mas destrancada para qualquer tipo de amor.

Rodrigo.

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