
A vida explode nos acontecimentos. É ela que não dorme. Vida que vela na eterna continuidade de brincar de "cutucar" os fatos para que eles acordem e se dirijam a nós. Tá feito, entregue - pacotes de coisas boas, outros de decepções, mágoa, tristeza e até mesmo morte.
Sempre quando me encontro com um desses pacotes nas mãos, recordo-me que é tempo de aprender. É mais uma vez a Vida colocando em minhas mãos, ainda que a duras penas, o giz e o quadro negro para ditar o que ainda eu preciso aprender. Na experiência com a dor ao me visitar, me volto para a imagem de Pietá... Diante de tamanho sofrimento corro o risco de me perder de mim mesmo, de perder a minha identidade em meio a poeira e ao vento que anunciam a tempestade que está por vir. Início de dor é como início de chuva, sempre manda o vento e as nuvens escuras para que abram caminhos para que ela possa vir e dançar onde quer que deseja passar.
A imagem de Pietá me fascina ... é como se ela fosse um altar onde me ofereço para holocausto. Choro quando a contemplo. Me desfaço em pequenos flash que aguçam a dor em mim. Quando a gente sofre ao lado de quem conhece a dor, a dor se torna menor porque o outro também a carrega. É a dor partilhada, distribuida como alimento ainda que a mesa esteja sem toalha e não haja bancos para sentarmos. É a união favorável para sentar no chão e ali se entregar em silêncio profundo - reino que não vigora as respostas, mas que pari a cada segundo um filho da dúvida e ele grita ao nascer, posso ouvir os ecos que não saem dos meus ouvidos.
Aos pés de Pietá não existe a lógica da razão, mas o travesseiro do consolo. Me prosto diante de um mulher que carrega nos braços a própria morte. Enquanto ela segura firme o depósito do seu amor, eu suporto dentro de mim um filho morto - filho este que a vida negou com sua honestidade e que fora cruelmente trocado por outros vales, escuros. Pietá segura nos braços o próprio amor doado e agora ali, recolhido em sangue e morto em seus braços. Fico pensando nas frases exprimidas, agonizante nos ouvidos do seu filho o chamando pelo nome... Ela que o ninou em tantas madrugadas, o segurou embalando sonhos e sentindo o coração do pequeno menino batendo como canção em louvor à Vida, ali, frio e machucado, cárcere do corpo vazio ... ele já não habita mais ali. Quando um filho morre, a mãe tem o poder de trazê-lo para o ventre novamente, lugar que um dia saiu e que volta para ser gerado eternamente na lembrança de cada dia - ele estará dentro dela, ainda que em forma de saudade.
O meu filho é o amor. Ofereço e às vezes o encontro morto em meus braços, o mataram, zombaram dele e viveram como se ele nunca estivesse existido para o outro. O meu filho morto em meus braços é o amor que há poucos dias brincava com os sonhos, desenhava projetos na areia com o pequeno dedinho de filho novo, dormia mais feliz e respirava em paz com a certeza que de o sol viria em poucos horas. O meu filho que colhia flores e que encontrava poesia na calçada, agora aqui, junto ao meu peito diante da imagem de Pietá.
O que gera vida em mim é a continuidade do ressurgimento que o amor provoca em nós. Pietá só não estava deitada com o filho, porque o filho estava dentro dela em pé, a segurando para a mãe não se entregar ao chão... O que gera vida em mim é o meu filho devolvido, ainda que morto em meus braços, mas vivo dentro de mim, sussurrando dentro dentro da minha alma que é apenas uma tempestade. Que os ventos logo passarão para eu me levantar e recolher o que realmente valerá a pena continuar ao meu lado. Ainda que ele tenha sido devolvido morto em meus braços, eu o ressuscito dentro de mim, gerando-o para doar a quem um dia for capaz de passar pela ante-sala da paixão e me encontrar no espaço do amor.
Ficarei aqui, até um dia em que uma nova estação seja capaz de trazer alguém que provoque as dores do parto em mim e assim, eu dê a luz ao amor que sairá de mim para acreditar novamente no ser humano e nele fazer morada.
Com Pietá, celebro o silêncio tão necessário nesse momento de calvário.
Rodrigo.
5 comentários:
Nossa, deu até uma certa dor no peito esse texto. Lindíssimo! E sempre é surpreendentemente bom.
"celebro o silêncio tão necessário nesse momento de calvário."
eu sei bem como é a necessidade do silêncio.
Abraços!
Prometo nunca mais chorar ao ler teus textos!
http://www.pulchro.blogspot.com/
Sim Rudi, a melhor definição para isso é o silêncio. A dor é muito grande, que não dá para definí-la com sons, são mais cruéis do que as visões de quem ve coisas aonde todos possuam uma cegueira branca.
Parabéns.
bjs.
...quando o amor é verdadeiro, nada conseguirá matá-lo...podem até transformá-lo em experiências de vida...mas matá-lo jamais, posto que é um sentimento vital em nós...amei suas reflexões, parabéns pela sensibilidade...bjus
Atualiza isso, menino!
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