
A mansidão do dia prepara a saudade da noite.
Foi assim que minha noite começou ... em saudade. Vê-lo voltar para casa, abrir o portão e preencher cada espaço com sua presença reparadora. Menino branquinho, dos olhos verdes que suscitava vida em quem o olhasse - assim era o olhar do meu irmão. Hoje deu saudade de vê-lo, de sorrir para ele e deixar registrado alguma forma de amor. Um aperto no peito e trovões anunciando uma chuva mais tarde no travesseiro, é o que tenho a oferecer a você que me lê, além das palavras. Quando a saudade toma conta do corpo, a razão dorme um sono profundo. Vasculho as lembranças, as datas vencidas e me vejo recolhendo pedaços de uma história de infância com o meu irmão. Nesse momento de saudade nada tem maior valor a não ser o amor. Nem o ouro chega a valer tanto! ... Menino que lutou pela vida sem desistir. Se ancorou nos suspiros, e no valor que cada minuto possuia. Recordo-me do último dia com ele em casa ... embora um dia lindo, ele vivia a noite em seu corpo... anoitecia na vida do meu irmão, chovia forte, trovejava e ele reclamava das dores de enfrentar toda aquela dor sozinho em seu corpo. Eu era apenas espectador do seu calvário. Nada podia fazer a não ser olhá-lo com amor, e vê-lo indo para o meio do oceano do coração de Deus, em plena tempestade. Eu tinha apenas as mãos para rezar...
O que mais me doía era ver os meus pais morrerem com ele. E eu pequeno, não podia fazer nada, a não ser amá-los no mais profundo do meu coração e não entender isso. Com o meu irmão, foram parte do meu pai e parte da minha mãe - eu precisei entender essa dor. Choro não de tristeza, mas de amor. Cada dia da minha vida é um dia a mais para aprender a lhe dar com uma perda constante ... Cada dia que amanhece, eu me torno mais homem e me compreendendo como homem, consigo mensurar o tamanho da perda que tive ainda na infância.
Hoje choro a partida do meu irmão, e de certa forma a ida com ele dos meus pais. Ainda que os tenho por perto, eu sei que eles não então inteiros. Porque mãe consegue reunir no olhar todos os filhos, ainda que eles não se façam presentes. Olhando para minha mãe, eu o vejo meu irmão. E olhando para você, irmão ... fecho meus olhos por minutos e consigo contemplar o teu rosto e, no olhar a presença do pai e da mãe que moram com você, ainda que eles não percebam.
Enquanto você estava em alto mar, naquela noite de tempestade, nossos pais receberam do menino Deus o poder de andarem sobre águas, o mesmo que um dia fez Jesus, só para irem com você onde quer que fosse. Fiquei com uma parte deles, a que me cabe, porque a outra está com você, desde o dia que você nasceu definitivamente para nunca mais voltar a morrer.
Levaste a chave da minha inteireza, deixaste o quarto vazio e a saudade ancorada em algum canto da minha carne.
Nesse momento há um só grito na imensidão dessa falta: eu te amo.
Rodrigo .
Um comentário:
LINDA HOMENAGEM AO SEU MANO, LINDO TEXTO (COMO SEMPRE!), DIGNO DE UM VERDADEIRO IRMAO!
ABRACOS!
(FAZIA TEMPO QUE NAO PASSAVA POR AQUI, MINHA VIDA TINHA SE TORNADO UMA NOITE TAMBEM, MAS ESPERO PODER CONTINUAR FREQUENTANDO SEMPRE, AFINAL SEUS TEXTOS SEMPRE ENCHEM A MINHA ALMA DE EMOCAO!)
Postar um comentário